A Restauração da Independência de Portugal foi celebrada em Loulé com uma simbólica homenagem a Nossa Senhora e uma conferência sobre o papel do Algarve nessa luta.
O município de Loulé voltou a associar-se às comemorações da Restauração da Independência de Portugal, no dia 1 de dezembro, passada quinta-feira.
Este ano, para o 382º aniversário, Loulé apostou num programa de atividades «que procurou trazer à memória um momento marcante para a identidade nacional», com uma homenagem à Padroeira de Portugal e uma conferência sobre o papel do Algarve na luta pela independência.
O hastear da bandeira nacional junto à Muralha do Castelo marcou o início das celebrações, juntamente com a interpretação do Hino Nacional e do Huno da Restauração pela Banda Filarmónica Artistas de Minerva, numa alusão ao fim dos 60 anos de domínio espanhol.
Seguiram-se os discursos oficiais no exterior da Ermida da Nossa Senhora da Conceição, um espaço eclesiástico que marca a ligação de Loulé à Restauração.
Isto porque, D. João IV, na consagração de Nossa Senhora como Padroeira de Portugal, mandou erigir a Ermida, que hoje é um dos ex-líbris patrimoniais do concelho.
«Comemoramos a restauração da nossa independência, da nossa soberania, da nossa autodeterminação enquanto povo, com identidade, cultura e princípios próprios. Nunca terá sido tão pertinente falar em restauração da independência como agora, quando temos uma guerra que deflagra na Europa», disse ao microfone Ana Machado, vice-presidente da Câmara Municipal de Loulé.
No uso da palavra, a autarca referiu ainda que a celebração visa «homenagearmos os homens e as mulheres que ao longo da nossa História pugnaram pela nossa liberdade, pela nossa autodeterminação e pela preservação da nossa cultura».
Por sua vez, Carlos Aquino, pároco de Loulé, descreveu «um dia de memória e de identidade», onde nem sempre lhe é dado a devida importância.
«Não pode ser celebrado como um dia evocativo de um património bacoco, a que a maior parte do povo dá expressão pela ausência, – é um dia para non fare niente [não fazer nada]. É preciso dar densidade e recomeço ao que seja a restauração de uma independência, dos valores de uma autonomia, da liberdade, da verdade de um povo que não pode viver submisso a qualquer poder escravizante, dominador ou soberano», considerou.
A cerimónia terminou com a deposição de flores junto à lápide da fachada da Ermida, que se baseia numa previsão régia de D. João IV, datada de 25 de março de 1646, que corresponde ao momento em que Nossa Senhora da Conceição, «Imaculada Conceição», se torna Padroeira de Portugal.
O papel do Algarve na independência
Também o Arquivo Municipal de Loulé se juntou às comemorações com a conferência «O Algarve na Guerra da Restauração (1640-1668)», apresentada pelo historiador Pedro Pires.
«O Algarve, de certo modo, teve um papel secundário no que concerne à estratégia de guerra da Restauração, pela geografia que o tornava pouco apelativo para uma batalha, para uma invasão a partir do sul. No entanto nunca baixaram a guarda», detalhou o conferencista.
Nessa medida, houve na região uma preocupação com o alistamento e com a questão da própria fortificação, não só em relação aos vizinhos castelhanos, mas também com a pirataria norte-africana, «que continuou a atacar as baterias de costa».
Não se conheceram batalhas no Algarve, apenas pequenas escaramuças pontuais, e o maior contributo prendeu-se com o envio das suas tropas para o Alentejo, onde participaram nas mais importantes batalhas da Restauração.
Ainda assim, nas palavras de Pedro Pires, «acabou por ser um período que marcou um pouco o que viria a ser o Algarve posteriormente, ao nível da organização militar, da fortificação».
Na conferência, o historiador abordou a parte militar do papel do Algarve na Restauração, e o impacto do conflito em termos socioeconómicos.