Mónia Bernardo e Sara Gouveia, ex-campeãs nacionais, participaram em torneios por toda a Europa e são as únicas profissionais de golfe portuguesas na região. Consideram que este desporto ainda tem muito para crescer, sobretudo com mais mulheres.
A nível nacional, contam-se pelos dedos o número de atletas femininas profissionais de golfe e o panorama estende-se também ao Algarve, mesmo quando se trata da região do país com o maior número de campos, cerca de 40.
Ainda assim, é também nesta região que se encontra a primeira profissional portuguesa de golfe. Além de ter sido a primeira portuguesa a competir no circuito internacional, foi também, anos mais tarde, pioneira ao nível do ensino, tornando-se a primeira treinadora. Recentemente, tirou o curso de árbitro, sendo ainda a primeira mulher a concluí-lo em Portugal. Chama-se Mónia Bernardo, reside em Albufeira e trabalha no Pine Cliffs Golf Course desde 2003. Neste desporto já totaliza 35 anos de experiência e torneios por mais países do que os que consegue enumerar.
«Peguei pela primeira vez num taco de golfe quando tinha cerca de 11 anos de idade e de forma muito espontânea. Já praticava outros desportos e o meu pai, além de jogar golfe, era administrador do campo do Santo da Serra, na ilha da Madeira. Costumava ir com ele e fazia-me muita confusão a bola ser tão pequena, mas sempre achei interessante a coordenação motora necessária. Certo dia, estava lá um professor que me pediu para bater uma bola. Bati a 80 metros. A partir daí, o meu pai marcou-me uma aula com um profissional e tive uma evolução muito rápida. Um ano e meio depois, com 13 anos, no meu primeiro torneio, fui campeã nacional de juniores, em Espinho», começa por recordar Mónia Bernardo ao barlavento.
Um percurso bastante idêntico tem Sara Gouveia, 23 anos, natural dos Açores, mas residente no Algarve desde os cinco anos de idade. Também começou a praticar com 11 anos, em Vilamoura, e atualmente é treinadora na Quinta do Lago, depois de ter passado por quase todos os países da Europa em competição, e de ter representado a Seleção Nacional no Campeonato do Mundo, na Irlanda, em 2018. É a única profissional em Portugal a jogar em competições internacionais, tendo-se sagrado vice-campeã em La Coruña, em 2022, onde igualou o melhor resultado de sempre de uma portuguesa em circuitos internacionais de golfe.

«Depois de praticar muitas modalidades desportivas diferentes, sete em simultâneo, onde inclusivamente cheguei a ser campeã nacional de squash e basquetebol, tive de fazer uma seleção natural aos 16 anos, quando percebi que o golfe precisava de um investimento maior de tempo e quando passei a competir fora de Portugal. Comecei no golfe para experimentar algo novo e tornou-se a minha paixão» conta Sara Gouveira ao barlavento.
Importante no seu trajeto, sobretudo numa modalidade dominada por homens, foi o exemplo da colega. «De certa forma, ela é a minha mentora. É preciso que alguém abra as portas para outra pessoa lhe poder suceder. Isso é necessário em qualquer jogo e dimensão. O facto de, enquanto estava a crescer, saber que havia outra atleta como eu, que mais tarde fez a transição para o ensino e que eu também comecei, agora, a fazer, fez-me pensar que também podia ser uma hipótese para mim. Ajudou-me muito ter algumas pisadas para seguir», justifica a jovem.
E apesar de existirem poucas mulheres profissionais no golfe, a verdade é que a nível social, o panorama é muito diferente. «No golfe recreacional, há imensas. Estamos a falar de lazer, para quem gosta de jogar ocasionalmente, ao fim do dia, ou nas férias. Em competição são poucas as atletas do sexo feminino. Fica ainda mais difícil quando a matéria-prima é reduzida. Depois, quando não existe apoio nem investimento às poucas mulheres que competem, é complicado haver quem consiga singrar. Em Espanha, por exemplo, em 100 atletas, 50 jogam muito bem, 25 são bem apoiadas e 20 acabam por ter sucesso. Quando isso acontece numa proporção muito menor, como em Portugal, o resultado também é muito mais pequeno. Agora, o golfe recreacional, esse está de vento em poupa», compara Sara Gouveia.
Sobre este tema, Miguel Franco de Sousa, presidente da Federação Portuguesa de Golfe (FPG), afirma ao barlavento que se tem notado uma grande evolução a todos os níveis. «Temos hoje mais praticantes, mais e melhores atletas a competir, clubes a realizar um trabalho assinalável na captação e formação de atletas e um ecossistema cada vez mais profissionalizado», aponta. Já no que ao desporto feminino diz respeito, «ainda temos muito trabalho pela frente, pese embora começar a notar-se um aumento da percentagem de mulheres a jogar. Temos de desenvolver estratégias, quer de comunicação, quer de atração, que contribuam para um ambiente mais propício à participação feminina na vida dos campos e clubes», recomenda.
Golfe não é caro e é para todos
Mónia Bernardo e Sara Gouveia entraram no mundo do golfe com a mesma idade e também foi com apenas 20 anos que começaram a dar aulas. Apesar da diferença etária, ambas tiveram a mesma sensação. «Na altura, as pessoas olhavam para mim e achavam piada a uma miúda a dar aulas num mundo de homens. Não era normal. Mas a verdade é que tenho uma sorte tremenda, porque nunca me senti discriminada por ser mulher, seja por colegas, alunos ou atletas profissionais», afirma Mónia Bernardo.
Questionadas sobre qual o perfil da carteira de clientes que têm, o mesmo é muito semelhante. «98 por cento são turistas estrangeiros, sendo que 20 por cento destes são estrangeiros residentes. O que é bom é que tenho alunos que são os mesmos há 15 anos e que vêm praticar duas ou três vezes por ano. A verdade é que temos o privilégio de trabalhar nas duas melhores unidades hoteleiras do Algarve, e talvez do país, no sector do golfe», segundo Bernardo.
Por sua vez, Sara Gouveia diz que, «no meu caso, até diria que menos de 20 por cento são estrangeiros residentes. O fluxo do nosso trabalho vive muito à conta dos visitantes turistas. Ainda que se repitam ano após ano, não estão cá permanentemente».
No verão, a treinadora do Pine Cliffs dá uma média de 55 horas de aulas por semana, reduzindo para as 28 em época baixa de turismo. Já a profissional mais nova, que ainda treina uma média de cinco horas diárias, chega às sete aulas por dia, no verão. Apesar de serem poucos os alunos portugueses, ambas as treinadoras deixam claro que não se trata de um desporto elitista.

«Não é tão caro como as pessoas imaginam. Há campos com uma oferta de 18 buracos a 70 euros cada volta. Claro que também há a 140 euros. Mas, por exemplo, quanto custa um bilhete para um jogo de futebol Benfica/Sporting? Não jogaste e pagaste para ver os outros jogarem! No golfe, é toda a envolvência e experiência em si. Um jogo demora quatro horas. Não é sequer comparável e, para mim, não é um desporto caro», diz Mónia Bernardo, corroborada pela jovem colega.
E vão mais longe: «é o único desporto que é para todos, independentemente do nível, do género, da idade e da condição física, mesmo em casos de mobilidade reduzida. Podes ter uma criança de 11 anos a competir com um homem de 60, ou duas pessoas da mesma idade, sendo que uma compete há largos anos e outra começou há pouco tempo. É o desporto mais justo e honesto que existe e quando começas a jogar em tenra idade, molda-te a personalidade e o caráter» para melhor, garantem.
Região é «a melhor do mundo» para o sector
Na opinião das duas profissionais de golfe, o Algarve não poderia ter melhores condições para a prática da modalidade. «Nem sequer tem concorrência próxima. A variedade de campos que temos, é de uma dificuldade enorme em encontrar em qualquer outro lado, mesmo a nível europeu, onde o maior problema é o clima. Mais nenhum país tem o clima que temos no Algarve e não há nenhuma região deste tamanho que tenha 40 campos de golfe. O clima, a quantidade e a qualidade que temos aqui, é muito difícil de conseguir igualar», assegura a jovem.
Mónia partilha a opinião. «Os nossos campos são invejáveis e estamos em número um do mundo. A Florida, nos Estados Unidos da América, também tem bons campos, mas aqui temos muitos bons campos», compara.
E como está a realidade do turismo de golfe na região? «Não só está boa, como está cada vez melhor. O marketing que se faz lá fora é ótimo e as pessoas olham para o Algarve não só como uma referência de destino de férias, como férias aliadas à prática de golfe», responde Gouveia. Aliás, de acordo com a treinadora mais experiente, «para a época que se avizinha, de outubro a março, os campos estão cheios. Aqui na zona, não há disponibilidade para jogar. Há clientes que marcam de um ano para o outro. Se poderíamos fazer mais em termos de promoção do destino? Possivelmente. Mas estamos a fazer mal? Não, porque a realidade é que o Algarve se vende sozinho. Temos prémios todos os anos e isso dá-nos muita visibilidade. O facto de termos o melhor campo da Europa, o melhor golf resort e o melhor family resort, faz com que mesmo que só um receba a distinção, os outros à volta também beneficiem».
Ainda assim, há carências na região que ambas denotam. «Não percebo e não se justifica como é que a Região de Turismo do Algarve (RTA) não traz um evento da segunda divisão de golfe feminino para cá. É incompreensível e nem sequer é aceitável. Temos os campos, as unidades hoteleiras e meses mais fracos de turismo. Não estamos a falar de um investimento megalómano e por isso não percebo como não candidatam o Algarve a um evento desses. Outra coisa é a escola do Tour ir sempre para Marrocos. Estamos a falar de um torneio de acesso ao Tour do ano seguinte, que junta 300 pessoas, e é uma coisa enorme. Não estou a dizer que Marrocos é mau, mas o Algarve é muito melhor. A diferença é que eles se candidatam a acolher a prova. Para não falar que este ano deixámos de ter o Portugal Masters. Logo, no Algarve, a esse nível, não temos nenhum evento competitivo internacional de relevância. O governo devia chegar-se à frente. Quanto é que o golfe representa do Produto Interno Bruto (PIB) nacional?», aponta Mónia Bernardo.
Miguel Franco de Sousa concorda. A descontinuação do Portugal Masters é, em sua opinião, «uma decisão irresponsável. Num sector que tanto contribui para a economia e as populações locais, nomeadamente onde o turismo de golfe tem um peso mais significativo, não se compreende que Portugal tome o caminho inverso dos seus principais concorrentes, como é o caso de Espanha, que vai realizar dezenas de competições profissionais de grande relevo. Temos um parque desportivo altamente qualificado e com uma qualidade reconhecida por todos, mas rapidamente podemos ser esquecidos se não se investir na sua promoção».
Falta apoio da Federação para profissionais femininas
Outra das carências apontadas pela atleta está relacionada com a falta de apoio da FPG às profissionais do sexo feminino. «Durante o período da minha formação, que foi quase até aos 20 anos, o apoio da FPG foi imenso. O investimento que é feito nas seleções nacionais e quando estamos na fase de desenvolvimento, é bom, razoável e muito aceitável. No entanto, quando passas à etapa do profissionalismo, o apoio é só para os homens. Isso nem sequer é discutível ou subjetivo, é factual. Não há apoio para as mulheres profissionais. Por exemplo, 10 atletas vão a um circuito internacional, oito homens e duas mulheres, eles têm apoio e elas não», assegura Sara Gouveia.
No caso da jovem, foi então necessário arranjar patrocinadores privados e investir do próprio bolso, «que é o que acontece na maioria dos casos», detalha.
De acordo com a colega, trata-se de um problema que se estende a outras modalidades. «Ainda vivemos num país em que tudo o que é masculino tem mais relevância e não é só no golfe, é em qualquer desporto. Houve uma altura em que os melhores atletas portugueses eram do sexo feminino. Elas tinham melhores resultados que os homens e mesmo assim insistiam em mandá-los a eles para os campeonatos do mundo. Isso desmotivou muito quem queria seguir uma vida profissional. Quem não tiver pais que suportem ou patrocinadores, é um ponto sem retorno. Inclusive, houve, há pouco tempo, um projeto que só englobava os atletas masculinos, mesmo quando tínham ainda três mulheres a competir a nível internacional em Portugal».
Contudo, ainda segundo a visão de Mónia Bernardo, essa realidade pode estar prestes a alterar-se. «As coisas devem mudar ligeiramente, porque temos algumas jovens portuguesas com bolsas de estudo nos EUA. Nos próximos cinco anos, devemos ver uma ligeira mudança a nível do apoio da FPG, porque quando essas profissionais regressarem a Portugal para competir, vão ser as melhores e a Federação vai ter mesmo de investir nelas», antevê.
Por sua vez, questionado sobre este tema, Miguel Franco de Sousa refere que «o apoio aos atletas, quer amadores, quer profissionais, é um dos grandes objetivos da FPG. Temos atletas desde os Sub14 até ao escalão absoluto que competem com regularidade nos quadros competitivos em Portugal e no estrangeiro com as seleções nacionais. Estes últimos, beneficiam ainda de apoio técnico, físico, psicológico e nutricional, por forma a se contribuir para um ambiente propício ao alto rendimento». Também a destacar pelo representante está o mecanismo de financiamento aos clubes por parte da FPG, o Fundo de Desenvolvimento do Golfe, «que tem distribuído aproximadamente 50 mil euros anuais para projetos no âmbito do fomento e desenvolvimento da modalidade», revela.
Turismo de Portugal está a «desinvestir» no golfe
Miguel Franco de Sousa, presidente da Federação Portuguesa de Golfe (FPG) considera que «infelizmente, nota-se uma nítida falta de estratégia para a promoção de Portugal enquanto um destino de golfe, em particular no Algarve, sobretudo no que ao nível de grandes eventos internacionais diz respeito. Temos um grupo de destinos concorrentes ao Algarve que está a apostar significativamente na sua afirmação enquanto destino de golfe de eleição», lamenta ao barlavento. E vai mais longe: «o Turismo de Portugal está a desinvestir em eventos de golfe e, em 2023, apenas apoiou em 30 mil euros o Open de Portugal at Royal Óbidos, quando apoiou com 100 mil euros entre 2017 e 2022. Além disso, pela primeira vez em dezenas de anos, não se realizou um torneio do DP World Tour», aponta o presidente. «Há um conjunto de players que tem como objetivo a qualificação da oferta de golfe no país e essa visão deve ser partilhada pelo Estado e autarquias, pois os investimentos necessários são avultados. Mas, por outro lado, o retorno é muito superior ao investimento e, por isso, debater-nos-emos para, em conjunto com players privados, convencer as entidades públicas a investirem em grandes eventos de golfe. Estes eventos, aliados a uma estratégia de desenvolvimento da modalidade em termos nacionais, vão contribuir para o crescimento do golfe em todo o país», conclui.
Portugal precisa de mais atletas e campos
Questionadas sobre como gostariam de ver o golfe daqui a 20 anos em Portugal, Mónia Bernardo e Sara Gouveia, profissionais da modalidade e treinadoras, começam por apontar para o aumento de campos no Algarve, para a zona da serra. No entanto, a nível nacional, ainda parece existir um grande trabalho a fazer. «A região algarvia é muito forte, mas ainda não há a mesma qualidade e quantidade no resto do país. Há muito espaço para o desporto evoluir», diz Gouveia. A colega acrescenta: «gostava que fosse possível jogar em todo o país e que houvesse mais oferta de estâncias hoteleiras e campos. Se houvesse um desenvolvimento turístico nesse sentido, por exemplo no Alentejo, no norte e no interior, conseguíamos levar este desporto a mais portugueses».
Atualmente, de acordo com Miguel Franco de Sousa, presidente da Federação Portuguesa de Golfe (FPG), são mais de 17 mil os atletas federados, onde se totalizou um crescimento de 10,5 por cento no último ano. «Estamos convictos de que podemos chegar aos 18 mil em 2023», aponta, mas para as duas profissionais de golfe no Algarve, o número ainda é «insuficiente. Em 10 milhões de portugueses, é muito pouco. As duas questões principais no país são termos mais praticantes e abrangê-los a outras regiões», opina Sara Gouveia.
Já Mónia Bernardo espera que o futuro deste desporto seja mais internacional. «Gostava que tivéssemos jogadores portugueses no Tour europeu, na Ryder Cup e na Solheim Cup. Quando tens um país com atletas de um nível incrivelmente alto, acabas por atrair outros do mesmo nível. Faz-me confusão como é que a equipa europeia da Ryder Cup é composta por irlandeses, noruegueses e ingleses, quando são países com climas agrestes. É que não podia haver nacionalidades mais difíceis para singrar neste desporto. Mas reflete-se no apoio que têm. Os atletas vão treinar a países mais quentes. Se Portugal tivesse uma boa base de formação e um bom fundo para investir nos jovens, teríamos muito mais sucesso a nível internacional», conclui.

