«O modelo do negócio do regime está esgotado, pelo que é necessário chegar a um novo modelo, sustentável, provavelmente através e de conflitos políticos com consequências», defendeu Vitor Bento, economista, esta manhã, sábado, 28 de novembro, no primeiro dia de conferências no Fórum Empresarial 2015, que decorre este fim-de-semana em Vilamoura, no Algarve.
No painel que debateu o “Futuro, que reformas”, moderado por Vitor Gonçalves, diretor-adjunto de informação da RTP, o professor e economista João César das Neves defendeu também que «o Estado não presta, o Estado tem uma estratégia que não presta!», exemplificando que «enquanto não houver pessoas disponíveis para ir para o mar, não haverá economia do mar; o problema não é falta de estratégia, é haver estratégia a mais». O mesmo referiu Vitor Bento, salientando a falta de consistência: temos muitas estratégias e implementamos muitas medidas, mas nunca as deixamos consolidar.
A manhã arrancou com a intervenção de Francisco Murteira Nabo, membro do Comité de Gestão do LIDE Portugal e senior partner da SAER, que fez um balanço nos últimos anos no mundo, na Europa e em Portugal, desde a crise financeira internacional, motivada pelos grandes escândalos nos bancos mundiais, à recente situação política nacional, com a indigitação do atual Governo nos últimos dias. Murteira Nabo salientou igualmente as questões fundamentais para debate: a falta de planeamento, a necessária solução para a dívida nacional, a urgente redinamização da banca e dos financiamentos alternativos à banca, o ajustamento da fiscalidade, e a preservação do modelo social europeu.
Tendo como mote desde logo o programa do recém-indigitado governo do Partido Socialista, Vitor Bento salientou um problema de base, que é consensualizar a narrativa do problema português, mas também europeu, necessária para encontrar uma solução a longo prazo. Relembrando que o crescimento está estagnado desde que entrámos para o espaço europeu, por embora tenhamos experimentado soluções diversas, tendo atualmente a pior década de crescimento desde 1918, defendeu que a solução está no incremento das exportações – o desafio fundamental da economia.
César das Neves alertou que todos os governos dizem o mesmo, o que é necessário é que atuem. Como exemplo diz que o estímulo ao consumo é uma ilusão, são apenas palavras, porque não é solução, já que vai contra a poupança que é, atualmente, a mais baixa de sempre – os deputados não estão a olhar para a realidade, e quando o fizerem vão ter uma surpresa, e aí haverá um “governo a sério”.
Murteira Nabo defendeu que a duração do Governo dependerá de dois fatores: o posicionamento do PCP e o posicionamento do PSD, que está, neste momento, extremado à direita. É agora urgente avançar com a já anunciada a reestruturação, o que ainda não aconteceu, que implica a valorização e requalificação da administração pública; trazer investimento externo e interno para as empresas e indústrias de elevado valor acrescentado; e trazer mais estímulo às pessoas, de forma a consumirem e pouparem.
No que respeita à estratégia de futuro, Vitor Bento quis salientar as consequências estratégicas da macroeconomia, nomeadamente no efeito específico da perda de controlo das grandes empresas nacionais (REN, ANA, EDP, etc.), e a acumulação dos défices externos. «Não conheço nenhum sistema internacional que o sistema bancário esteja todo em mãos estrangeiras», que é o que existe em Portugal, alertou Vitor Bento, porque «os grandes centros decisão económicos estão fora do País».
«Em Portugal, depois do 25 de abril, o poder foi controlado por um setor que produzia menos do que aquilo que comia, com uma produtividade portuguesa e hábitos de consumo alemães», explicou João César das Neves. «E essa classe continua no poder, vastíssima, que querem mais do que aquilo que recebem», afirmou, «mas agora há que pagar a dívida, que está acumulada, e estamos a pagar hoje dívida atual e dívida antiga». «O que é extraordinário é não aparecer ninguém com soluções alternativas, com ideias, a creditar em alguma coisa, e ideias que resultem efetivamente», alertou, acrescentando que «os europeus não acreditam em nada».
Murteira Nabo chamou a atenção para a necessidade da banca voltar a financiar a economia, estimular através da injeção de capitais, para resolver o problema de tesouraria que as empresas têm. Por outro lado, o Estado deve ter um papel regulador na economia, que neste momento não tem, e também de interventor e motivador, estimulando setores que não se desenvolvem e que estão parados, como a economia do mar, por exemplo.
António Saraiva, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa encerrou o painel, afirmando-se defensor de uma reforma e estratégia a longo prazo. A valorização dos recursos naturais de Portugal (mar, energia, entre outros) e dos recursos humanos são oportunidades a explorar, e é necessário inovar, internacionalizar, investir, gerir eficazmente e criar competitividade para crescer e progredir, afirmou. Mas é igualmente fundamental recapitalizar as empresas, atualmente descapitalizadas e sem capacidade de acrescentar valor à sua produção, desafio que, em primeiro lugar, é das próprias empresas, alertou.
O IV Fórum Empresarial do Algarve decorre este fim-de-semana, de 27 a 29 de novembro, em Vilamoura, com a presença de governantes, decisores, empresários, entre outros convidados e personalidades, dos principais setores da economia nacional. sob o tema «2020, Portugal e o Mundo».
A tarde de hoje, sábado, será dedicada ao tema “Financiamento para o crescimento” e à entrega dos prémios Welcome to Portugal. A proposta do FEA 2015, organizado pelo LIDE Portugal – Grupo de Líderes Empresariais, passa pelo debate do futuro do País face à instabilidade política atual, bem como das condicionantes económicas e sociais que o mundo atravessa, em particular a Europa.