«Perspectivar o Algarve para os próximos 50 anos impõe uma reflexão estratégica que equilibre a resposta a necessidades imediatas com uma visão estruturada de longo prazo — tarefa complexa, mas inadiável».
O Algarve enfrenta um dilema estrutural profundamente enraizado: é, simultaneamente, uma das regiões com maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país e uma das que apresenta os mais alarmantes indicadores de pobreza e exclusão social em Portugal continental.
Por exemplo, segundo o Plano de Desenvolvimento Social, elaborado pela Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL) em colaboração com o Centro Distrital de Segurança Social de Faro, um em cada quatro residentes no distrito de Faro encontra-se em risco de pobreza.
Esta realidade manifesta-se numa elevada precariedade laboral, baixos salários e escassez de oportunidades para profissionais qualificados.
Como consequência, a região evidencia um fraco desempenho no Índice de Desenvolvimento Regional, com um rendimento por habitante significativamente abaixo da média nacional — quadro recentemente agravado pela escalada da inflação e das taxas de juro.
Esta assimetria prolongada é ainda mais pronunciada pela histórica negligência do poder central, que tem sucessivamente falhado na resposta a domínios estruturantes como o acesso à saúde, a mobilidade, o acesso à habitação e a gestão sustentável dos recursos hídricos, apesar do reconhecimento generalizado da gravidade destas problemáticas.
A vulnerabilidade do modelo económico vigente
Um dos fatores estruturantes deste contexto prende-se com a excessiva dependência da economia algarvia do sector do turismo. Este tem sido, ao longo de décadas, o principal motor económico da região, representando uma parte substancial do emprego, investimento e receita — tanto pública como privada.
No entanto, esta centralidade converte-se, inevitavelmente, em vulnerabilidade.
A pandemia veio evidenciar de forma clara os riscos de se assentar o desenvolvimento regional num sector altamente sujeito a variáveis externas, muitas das quais fora do nosso controlo.
Uma visão estratégica a 50 anos
Perspetivar o Algarve para os próximos 50 anos impõe uma reflexão estratégica que equilibre a resposta a necessidades imediatas com uma visão estruturada de longo prazo — tarefa complexa, mas inadiável.
A curto prazo, é inegável que a economia regional continuará a depender do turismo. Contudo, existe margem para um reposicionamento estratégico do Algarve como destino de excelência, orientado para segmentos de maior valor acrescentado e exigência qualitativa.
Este reposicionamento exige investimentos públicos significativos em áreas-chave como a mobilidade, os cuidados de saúde e a oferta cultural. Exige, igualmente, uma modernização da oferta turística privada, de forma a responder às exigências de um mercado internacional mais exclusivo e com maior poder aquisitivo.
Simultaneamente, importa diversificar os produtos turísticos, mitigando os efeitos da sazonalidade e promovendo uma distribuição mais equitativa dos benefícios da atividade turística.
Neste sentido, segmentos como o turismo de natureza, as rotas gastronómicas, o turismo ecológico e o turismo cultural constituem vectores estratégicos a reforçar.
Diversificar para garantir sustentabilidade
A médio e longo prazo, a sustentabilidade e resiliência da região dependem, inevitavelmente, da diversificação do seu tecido económico. O turismo, embora relevante, não poderá continuar a ser o único pilar do desenvolvimento regional.
Entre as prioridades estratégicas destaca-se a transição energética, com vista a posicionar o Algarve como referência europeia na produção de energia limpa.
Paralelamente, torna-se fundamental revitalizar o sector agrícola com base tecnológica, promovendo tanto culturas tradicionais como novas culturas orientadas para a exportação, contribuindo para a redução das importações e para a criação de emprego qualificado.
A economia do mar surge também como eixo estratégico, alavancando o conhecimento científico gerado pela Universidade do Algarve (UAlg) em áreas como a biotecnologia marinha, as energias renováveis oceânicas e a aquicultura.
A dinamização do cluster tecnológico regional poderá continuar a atrair nómadas digitais e empresas inovadoras na área das tecnologias de informação e comunicação, contribuindo para contrariar a litoralização da população e dinamizar os parques empresariais do interior.
Adicionalmente, o investimento em investigação na área da saúde poderá originar o desenvolvimento de produtos e serviços com elevado potencial de mercado, reforçando o posicionamento do Algarve enquanto polo de inovação.
Uma nova arquitetura institucional para a região
Para que esta transformação estrutural se concretize, é imperativo repensar a arquitetura institucional e administrativa da região. A criação de uma nova região administrativa, dotada de um parlamento regional com competências legislativas e orçamento próprio, permitiria uma tomada de decisão mais célere, eficaz e adaptada às especificidades locais.
Idealmente, este modelo deveria inovar em relação ao sistema atualmente em vigor em Portugal, permitindo a inclusão de representantes da sociedade civil sem filiação partidária em cargos parlamentares.
Como contrapartida, poder-se-ia considerar a extinção de uma parte significativa das atuais autarquias algarvias, bem como de todas as freguesias urbanas, promovendo uma racionalização da administração pública e uma concentração eficiente de recursos e competências.
Conclusão: teremos a coragem?
Resta-nos a pergunta essencial: estaremos à altura de implementar esta disrupção necessária? É um desafio que exige coragem política, visão estratégica e compromisso cívico.
Espero sinceramente que sim — pelo bem-estar dos nossos filhos e netos, e pelo futuro sustentável do Algarve.
Luís Serra Coelho | Economista e Professor Catedrático na Universidade do Algarve (UAlg)
Professor Catedrático e Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. É membro integrado do Centro de Estudos e Formação Avançada em Gestão e Economia da Universidade de Évora e membro associado do Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar da Universidade do Algarve. Doutor em Gestão, especialização em Finanças e Contabilidade, pela Universidade de Edimburgo. É Economistas Sénior reconhecido pela Ordem dos Economistas e membro da Ordem dos Contabilistas Certificados. Colabora com vários meios, comentando assuntos do foro económico.
Artigo publicado no âmbito dos 50 anos do jornal barlavento.
Foto: Luís Torres