Na apresentação de Spectral Evolution, último disco de Rafael Toral, no Cineteatro Louletano, inserido no Festival Verão Azul, o estímulo é puramente sonoro, se o procurarmos e aceitarmos.
A tarefa não é fácil para nenhum dos intervenientes, excepto, talvez, para o próprio Rafael. Assim parece, pelo menos.
Pede-se a um público, pouco numeroso – mas daí não advém juízo sobre o valor de quem está em palco e sim sobre o desafio em cima da mesa – cuja atenção, de acordo com os últimos estudos, está na média dos 8 segundos, que se sente, e durante 55 minutos, apenas escute. Dedicação a apenas uma coisa. Nada de multitasking, ou seja, a antítese do que é imposto pela sociedade da hiperaceleração.
O minimalismo é outra coisa. Na apresentação de Spectral Evolution, último disco de Rafael Toral, no Cineteatro Louletano, inserido no Festival Verão Azul, o estímulo é puramente sonoro, se o procurarmos e aceitarmos.
Rafael apresenta-se em palco como um feiticeiro sónico – foi essa a imagem com que fiquei a primeira vez que o vi ao vivo por alturas de The Violence of Discovery, The Calm of Acceptance, na ZDB e que se mantém – cujo serpentear da mão direita, quando se ergue da guitarra, comanda as ondas sonoras que cercam e sobre as quais o som da sua guitarra ascende. Não muito diferente do que o Rato Mickey fez em Fantasia na cena da água. Afinal, tudo é ondas e liquidez.
Mesmo não havendo ligação direta entre o corpo de obra de ambos, é praticamente impossível ver Rafael em palco e não pensar na filosofia da Escuta Quântica de Pauline Oliveros, em que o som altera quem escuta e quem escuta altera o som.
Pede-se abandono e rendição, mas também se pede que sejam feitos de forma ativa, ou como dizia Oliveros, que se escute a escuta. Nada disto tem a ver com música ambiente (termo quase tão injurioso como música de elevador ou de cocktail) ou com apropriações ocidentais de filosofias místicas orientais. Não na sua forma óbvia e supérflua, pelo menos.
Em Spectral Evolution o campo sonoro é vasto, está escancarado e espera-se que o percorramos à nossa própria maneira. Os ambientes são ora progressivos, ora circulares, ora densos, ora leves, mas sempre dinâmicos, inesperados e imbricados entre si.
Talvez influenciado pela imagem da capa de Spectral Evolution, projetada no palco, no qual se apresenta uma ave, consigo ouvir, entre as ondas sonoras emanadas, a mesma algazarra matinal das aves. Talvez também influenciado pela presença da palavra Evolution no nome do disco, parece haver uma espécie de linha evolutiva, ainda que solta, como no jazz, quando o disco é interpretado em palco.
Parece haver um amanhecer, um dia e um crepúsculo, não necessariamente desta forma ordenada e sequencial. No que Rafael traz para palco, habitam referências familiares e, simultaneamente, é-nos difícil segurá-las, até porque, a sua música raramente fica no mesmo sítio tempo suficiente para nos localizarmos. Subtil, é certo, mas o som está em constante movimento, e percebemo-lo, se o escutarmos de forma ativa, como deve ser escutado.
Conforme se lê na nota de imprensa, Spectral Evolution, editado pela Moikai, de Jim O’Rourke é um disco que resultou de mais de trinta anos de pesquisa incansável e que encerra em si quase todos os caminhos que o músico percorreu até agora.
Nas palavras do próprio músico, a sua produção sonora é intuitiva e é com esse espírito que a escuta deve ser orientada.
Isso vê-se, mas acima de tudo, percepciona-se, mesmo para quem não segue Rafael Toral desde os tempos de Sound Mind Sound Body ou de Chasing Sonic Booms.
Embora de regresso à guitarra, dizer que Spectral Evolution é música de guitarras seria, não só limitador mas também redundante, uma vez que este instrumento é um ponto de partida e não um meio ou um destino, numa jornada cuja recompensa é equivalente à envolvência dos ouvintes.
Dentro da única faixa de Spectral Evolution, é possível perceber as fracções que a compõem. Ao assistir à sua interpretação ao vivo, tudo parece pensado até ao mais ínfimo pormenor, e ao mesmo tempo com espaço para o improviso. Tentar perceber o que é o quê e tirar uma conclusão é um processo provavelmente não muito distante de resolver um koan.
Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor. Copy criativo.