Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente!
Um dia… sentam-se perto, num qualquer lugar, e dizem uma frase com tal maturidade que sentimos não ser possível voltar a trocar-lhe fraldas. Como cresceu… onde está a pá com que brincávamos na praia? As festas de aniversário com muitos miúdos e palhaços? A farda do colégio… o equipamento do Portimonense ou o cachecol do Sporting…
A criança cresce num ritual de obediência orgânica e desobediência civil.
Lá estamos nós à porta da discoteca, esperando que ela não cresça, mas apareça! Próximo estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes com os seus cabelos longos, soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão os nossos filhos com o uniforme da sua geração: incómodas mochilas da moda nos ombros, calças largas com o inseparável telemóvel, cabelo escanifobético contrastando com o nosso já grisalho.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar de todas as contrariedades da vida… e eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com os nossos acertos e erros… principalmente com os erros que esperamos que não repitam…
Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos. Não iremos voltar à porta da discoteca e das festas… passou o tempo do piano e guitarra, do inglês, da natação e do basquetebol!
Saíram do banco de trás e passaram para o volante das nossas vidas.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama deles ao anoitecer para os ouvir nas suas conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de pósteres, agendas coloridas e cd’s ensurdecedores.
Não os levámos suficientemente à aula de piano e guitarra, ao centro comercial, ao cinema, não lhes demos quantos hambúrgueres e cocas queriam, não lhes comprámos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. Eles crescem sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio iam aos acampamentos ou à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos…
Sim, havia as naturais embirrações por ter sujado a janela ou os estofos do carro, as chicletes que se não compraram e as batatas fritas e os sorvetes e pipocas…
Depois veio o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois tinham os amigos, e os naturais encontros… a dúvida se queriam ser bombeiros ou médicos esvaiu-se!
Começámos a ficar exilados deles. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, vinham as saudades daquelas «pestes».
Chega o momento em que só nos resta desejar que acertem nas escolhas em busca da felicidade.
Acabamos por rezar… e se já tínhamos desaprendido, reaprende-se depressa…
E ansiamos que as escolhas tenham sido certeiras… há que esperar… em qualquer momento aparece-nos um neto!
O neto é o refúgio do carinho ocioso e ansiado não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer connosco. Por isso nos tornamos desmesurados e distribuímos tanto incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. É emergente que façamos alguma coisa mais antes que eles cresçam.
Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais depois que somos avós…
*Cidadão