A dor dos afegãos ou palestinianos que assim perdem os seus, não será, certamente, inferior à dor dos que os seus perdem no designado mundo ocidental, a morte duma criança aqui não poderá ser sentida com dor e a de lá ser vista como um mero número;
Não podemos denunciar a barbárie dos outros e, simultaneamente, em nome do combate ao terrorismo, pactuarmos com a tortura em prisões clandestinas nossas ou esquecermos Guantánamo, onde se permanece preso ano após ano, sem acusação formulada e julgamento feito, numa violação das mais elementares regras dum mundo que se quer humanizado e de direito;
Não podemos clamar pela liberdade de imprensa e condenar os ataques à mesma, ignorando, simultaneamente, como tantas vezes essa liberdade é utilizada sem qualquer respeito por códigos deontológicos, pelo princípio do contraditório ou carecida duma investigação séria e credível, para autênticos assassínios de caráter, para julgar na praça pública o que deveria ter lugar nos tribunais, para servir os mais obscuros interesses políticos, económicos e financeiros, deturpando-se factos e manipulando-se a opinião pública da forma mais abjeta, como, por exemplo, aconteceu com a divulgadíssima pretensa existência de «armas de destruição massiva» justificativas duma intervenção no Iraque, com todos os resultados que hoje estão à vista;
Não podemos falar em defesa da democracia, quando, em nome de interesses meramente económicos e financeiros, se tem como amigos, apoia e fornece de armamento regimes que de democráticos pouco ou nada terão ou se recorre à chantagem para condicionar o voto livre dos gregos no respeitante ao destino que queiram dar ao seu país;
Não podemos exigir respeito por alguém que, em nome da fé cristã e a pretexto do pagamento de uma qualquer promessa, se arrasta penosamente de joelhos em Fátima ou se deixa crucificar nas Filipinas e, paralelamente, procurar menorizar quem, igualmente, em nome de outra religião que não a nossa, possa ter outros hábitos e práticas, em que nós somos os «civilizados» e eles os «primitivos», nós somos do «primeiro» mundo e eles do «terceiro», como se, de resto, o ser-se do «primeiro» não se devesse, em grande parte, à custa da exploração colonial e neocolonial do «terceiro».
Violência, sempre se ouviu dizer, não raro gerará violência, assim como as presunções de superioridade, que não de respeito mútuo e tolerância.
Infelizmente.
PS – Anos atrás, quando do ataque a Bagdade, transmitido em direto pela CNN, houve quem se tivesse colocado frente ao televisor, em grupo de amigos, a acompanhar a respetiva emissão com acompanhamento de cervejas e camarões, que a noite de «excitações» se mostraria longa.
Receamos que agora (no momento em que escrevemos estas linhas), a acompanhar as emissões televisivas em direto da «caça ao homem», possa haver quem, com «excitação civilizacional» idêntica e ouvindo comentadores não menos «excitados», se haja prostrado frente ao «plasma», não com cervejas e camarões, por causa da «crise», mas, pelo menos, com uns amendoins, enquanto os acionistas dos média que assim transmitem, beberão uns whiskies festejando a subida dos respetivos «shares».
*Advogado