Neste concelho da serra, facilmente se sente o pulso à realidade que os números traduzem: menos 15 por cento de população e menos 30 por cento de jovens registados na última década fazem de Monchique um dos concelhos mais envelhecidos do Algarve, um cenário que só consegue ser mais desolador em Castro Marim.
Se no interior algarvio os níveis de envelhecimento e de fuga de jovens são superiores à media nacional, a elevada atratividade dos concelhos do litoral, fez do Algarve a região que mais cresceu em população nas últimas décadas.
Se existem no interior concelhos inteiros sem qualquer atividade económica relevante, a sul da A22 a riqueza gerada por habitante é superior a 75 por cento da média da União Europeia, um valor suficiente para a região ter perdido o estatuto de prioritária na atribuição dos fundos europeus.
Se a agricultura e as pescas representam hoje cerca de 4 pontos percentuais da riqueza produzida na região, as atividades ligadas ao setor do turismo são responsáveis por 60 por cento do emprego e 66 por cento da riqueza gerada.
Os contrastes evidenciam uma região de assimetrias profundas, onde é claro o falhanço de três décadas de programação de fundos comunitários e de estratégias de desenvolvimento regional.
A aposta num modelo assente no setor do turismo de sol e mar levou a uma transferência de riqueza, população e recursos para o litoral, revelando-se incapaz de alavancar outras atividades económicas, de valorizar os produtos das indústrias tradicionais, de desenvolver o interior e de libertar a região das amarras da sazonalidade e da especulação no sector imobiliário.
O que ficou foi um Algarve de costas voltadas para o seu interior, onde 70 por cento da população vive em 20 por cento do território, onde metade do tecido empresarial da região com menos empresas do país desapareceu nos últimos quatro anos e onde o desemprego atingiu valores nunca antes registados.
Inverter esta tendência passará por colocar o interior algarvio no centro da agenda política e no caderno de encargos que os principais interlocutores da região devem exigir no plano nacional a qualquer programa de governo. António Costa dedicou, e bem, a sua última visita à região a ouvir com atenção as preocupações dos produtores do barrocal algarvio, dando um claro sinal da importância que atribui à valorização do território para a coesão económica e social.
A estratégia tem de passar por um modelo de desenvolvimento mais sustentável, capaz de colocar o sectores âncora a valorizar o tecido produtivo e a consumir os produtos das industrias tradicionais, exportando-os cá dentro através dos milhões de visitantes que passam todos os anos pela região.
É também prioritária uma nova estratégia de mobilidade intermodal, pensada no plano intermunicipal e regional, capaz de aproximar o litoral do interior, servir a atividade económica, os que visitam a região e aqueles cá vivem.
Do muito que há para fazer, este seria um bom ponto de partida.
Se nada for feito, se continuarmos a varrer o interior para um canto, então mais vale descer a serra e o barrocal e irmos todos morar lá para baixo, para o Algarve.
*Presidente da JS Algarve