Ruben Manuel Amores Marreiros –
Qual foi o objetivo da viagem?
Ajudar em todas as tarefas diárias, ficando o nosso grupo responsável por dar roupas quentes, gorros e luvas às pessoas que chegavam ao campo de refugiados sem agasalhos, vindas da Grécia, muitas delas crianças, com temperaturas que iam dos 2 graus positivos aos 2 negativos. Estávamos a cerca de vinte minutos da fronteira de Idomeni, numa localidade chamada Gevljia.
Foi nessa fronteira que houve confrontos graves entre refugiados e a polícia macedónica?
Exatamente. Aconteceu poucos dias antes de lá chegarmos. Foram causados por um grupo de cidadãos sem direito a entrada com o estatuto de refugiado, que apenas se aplica a sírios, afegãos e iraquianos. Aos povos dos países vizinhos que não se encontram em estado de guerra foi atribuído, tanto pela União Europeia, como pela ONU, o estatuto de migrantes económicos. Logo, não podem entrar na Macedónia como refugiados. Os paquistaneses, em sinal de protesto, coseram as próprias bocas com agulhas e linhas, uma notícia chocante que chegou a Portugal.
Quando os voluntários portugueses chegaram, já o problema tinha sido resolvido?
Sim.
E vocês só lidavam com os refugiados, após a triagem feita na fronteira?
Exatamente. Só chegavam ao campo os que tinham estatuto de refugiado.
Qual era a predominância etária? Como se agrupavam? Qual o seu estado de espírito?
Vinham pessoas desde os zero até aos 90 anos, a pé. Mas também havia pessoas com bengalas, canadianas e em cadeiras de rodas. Na sua maioria, chegavam em famílias bastante numerosas, mas também vi homens e jovens solitários. Havia de tudo um pouco. Essas pessoas traziam basicamente a vida num saco de plástico ou numa mochila, para além do dinheiro necessário para pagar a viagem de comboio desse campo ao próximo, na Sérvia. Antigamente, o bilhete tinha o valor de 5 euros e, atualmente, custa 25 euros. Há quem esteja a enriquecer à custa dos refugiados.
Naquela confusão toda, havia crianças que se perdiam dos pais. Com é que lidavam com essas situações?
As famílias são muito numerosas e as crianças, brincando, acabavam por se perder dos progenitores. Mas, segundo me foi dado observar, aquelas pessoas acabavam por dar mais importância ao cônjuge do que às crianças. Foi, aliás, algo que o nosso coordenador partilhou connosco com alguma antecedência.
Das várias histórias que trouxe consigo, gostaria de partilhar uma connosco?
Passavam entre dois a quatro comboios diários. No final do campo, havia uma linha férrea e os milhares de refugiados dirigiam-se para lá, a fim de embarcarem para a Sérvia. Eram metidos dentro de duas tendas, onde esperavam e a partir das quais seguiam ordeiramente para o comboio. Um dia, ouvi chorar, cada vez mais alto, e deparei-me com uma mãe com duas crianças, um miúdo de três anos, doente e a chorar, e uma miúda de sete. Em pânico, a mãe deixou a miúda ao meu lado, colocou-me o filho nos braços e disse-me que tinha perdido os documentos e que ia procurá-los. A perda dos documentos significava o regresso à origem. Saiu pelo campo à procura, regressando alguns minutos depois com eles na mão. A criança, com a aflição, acabou por urinar no meu colo, molhando-me o braço e até o meu cachecol. E a senhora abraçou-se a mim, a chorar de alívio.