José Laginha e Marlene Vilhena estreiam a nova peça de dança contemporânea «…e vi o céu» olhar para além das bombas, para as estrelas, a 5 de outubro, em Loulé.
Os bailarinos José Laginha e Marlene Vilhena vão levar à cena o espetáculo de dança contemporânea «e vi o céu», que tem estreia marcada para 05 de outubro, no Cineteatro Louletano, em Loulé, anunciou a organização.
Esta coprodução entre o Cineteatro Louletano e o Teatro das Figuras, em Faro, para o qual está agendada uma segunda exibição, em 22 de novembro, é «um espetáculo feito de muitas coisas, de muitas experiências pessoais», e faz «uma reflexão, que não é linear sobre a superação nem sobre a transcendência, mas na verdade é uma reflexão sobre a morte», explicou José Laginha em declarações à agência Lusa.
«Somos dois intérpretes, dois performers, bailarinos, e vamos ter também um músico em cena, que vai tocar ao vivo […] dois temas de David Bowie, além de outro material de música para toda a peça, de [sua] composição», afirmou, por seu turno, Marlene Vilhena, referindo-se à participação musical de José Salgado, em palco, numa peça que também tem música de Pedro Pinto.
José Laginha frisou que a obra «não é propriamente uma peça linear, não conta uma história», mas tem na génese uma «história verídica», vivida há alguns anos pelo astrofísico palestiniano Suleiman Baraka, e «tem a pretensão de pensar o hoje, mas também aquilo que temos a seguir».
«E neste ponto, a história do Suleiman Baraka parece-me absolutamente certeira. Suleiman Baraka era um homem que trabalhou para a NASA, foi o único palestiniano até hoje que trabalhou para a NASA […]. E ele recebe uma notícia da família a dizer que tinha caído uma bomba em cima da casa dele», na terra de origem, contou José Laginha.
Ao receber a notícia de que o filho tinha morrido, com outros familiares, num ataque israelita, em 2008, Baraka “decide mudar a sua vida, decide voltar à Palestina e criar um projeto para pôr as crianças a olhar o céu, ou seja, olhar para lá das bombas, olhar para as estrelas», acrescentou, salientando que «este foi um pouco o ponto de partida» da obra.
Com texto dramatúrgico de Miguel Castro Caldas, a peça inclui música de David Bowie que já tinha aparecido nas pesquisas dos bailarinos e do próprio dramaturgo e que, de alguma forma, «se tinha preparado para a sua morte», produzindo trabalhos como «Lazarus» ou «Black Starr», assinalou.
«Também tem a ver com a nossa morte, as diferentes mortes, as diferentes quedas, as diferentes superações e a comunicação ou a conciliação com aquilo que é o outro lado, seja mais neste contexto atual e realista, do outro lado do muro, do outro lado da luta, mas também em relação à transcendência, à morte e ao que vem depois», disse Marlene Vilhena.
A bailarina sublinhou que a obra anda «à volta desses temas» e «não é linear, mas reflete sobre a existência, sobre o conflito, sobre a pacificação, a resistência, a resiliência».
A carta escrita pelo médico Mark Taubert ao cantor britânico após a sua morte, e que foi lida num festival, também estará presente na parte final do espetáculo, com uma leitura acompanhada por imagens do filme «Supernatural», «e neste contexto aborda-se claramente a questão da preparação da morte», referiu.
José Laginha sublinhou, contudo, que é «importante» os espetadores não se focarem apenas na morte e centrar-se «nesta ideia de olhar para lá das bombas, para as estrelas».
«Quando se fala de morte, não é propriamente um assunto muito feliz e, portanto, se deixarmos que a peça seja introduzida como uma peça que fala sobre a morte só, é pouco, é redutor e não é aquilo que irá acontecer», argumentou.
«e vi o céu» tem criação e interpretação de José Laginha e Marlene Vilhena, com texto dramatúrgico de Miguel Castro Caldas, direção técnica de António Martins e produção executiva de Ana Margarida Rodrigues.
A estreia está marcada para as 21h00 de 05 de outubro, no Cineteatro Louletano.
Em 2022, o par trabalhou junto na peça original «um pedido, por favor dê-me um exemplar de deus», citação de um poema do «Livro da Dança» de Gonçalo M. Tavares, e livremente inspirada na obra de Amália Rodrigues. O trabalho também se inspirava em acontecimentos chave do século XX, que se cruzava com uma busca pessoal pelo sentido da dança, segundo contaram ao barlavento.
Fotos: Luís da Cruz