Isabel Martins Avó licenciou-se em Estudos Portugueses, com o sonho de se tornar escritora. Só mais tarde se apercebeu de que é muito difícil viver dos livros. Sempre gostou de arte, mas não existia essa vertente na Escola Secundária de Silves, cidade onde viveu quase toda a sua vida. Andou um pouco à deriva, frequentou biologia tecnológica, mas a sua paixão de sempre pela ilustração e pela literatura ajudaram-na a encontrar o rumo certo. Em 2013, desenvolveu um projeto pedagógico e didático intitulado «Os Gatos arco-íris», para ensinar as cores e os números em inglês, publicado pela Arandis. Em 2015, estreou-se numa parceria com a escritora Lucília Silva, ilustrando a «A Menina-partilha».
barlavento – Fale-nos um pouco sobre o seu percurso…
Isabel Avó: Comecei por dar aulas de inglês a crianças dos 3 aos 9 anos. Nesse contacto diário com a pequenada, o meu público-alvo, vi que poderia enveredar pela ilustração mais a sério. Nunca me revi nos métodos tradicionais de ensino e sempre procurei encontrar uma estratégia que me permitisse chegar mais profundamente às crianças. Isso levou-me a criar projetos pedagógicos relacionados com o ensino através da arte. Em 2012, escrevi e publiquei o meu primeiro livro, «O Caminho para a Lâmpada Mágica». Foi uma jornada feita em conjunto com os meus alunos de Atividades de Tempos Livres (ATL), ao longo de um ano letivo, com o objetivo de representar uma peça de teatro. Acabei por transformá-la numa história e publicá-la como tal, com textos e ilustrações minhas, através da Chiado Editora, de Lisboa.
Porquê livros infantis? Têm maior saída comercial?
É quase um resgatar da minha própria infância. É algo de que gosto mesmo de fazer. Quando produzo um conteúdo para este público, não penso se vai vender, se dará lucros. Faço-o porque me dá gosto e acaba por ser uma terapia.
Sabemos que tem um projeto com o Sérgio Brito, no qual haverá também ilustrações do seu filho, de apenas 9 anos?
Sim, é verdade. O Sérgio apresentou-me um projeto para um livro para crianças. A ideia é usar palavras tipicamente algarvias. Principalmente as que são usadas para designar animais. Numa reunião entre nós, o Sérgio achou que seria interessante o Gonçalo participar. Ele concordou, apertaram a mão e consolidaram o contrato (risos). Está muito entusiasmado, sentindo-se uma criança especial, porque vai participar e ter também o nome e os devidos créditos no livro.
Assume-se como ilustradora, escritora, ou ambas?
Penso que sou mais ilustradora, embora também adore escrever.
Continua ligada ao ensino?
Fiquei desempregada e foi por isso que me dediquei mais à ilustração. Neste momento, arranjei trabalho em algo que não tem nada a ver com o ensino, na área dos desportos náuticos e passeios turísticos. Mas, seja qual for o trabalho que tenha, vou sempre desenvolver em paralelo a parte criativa.
Usa ferramentas digitais para criar ou ilustra à moda antiga?
Não faço nada a nível digital, o que torna tudo mais difícil. Até na ligação com os clientes, pois se me pedem uma alteração, tenho de começar de raiz. Mas prefiro assim. Inevitavelmente, o processo chegará à informática. Mas sou conservadora e, quando tal acontecer, desejo manter a essência do manual no desenho, pelo menos a nível dos contornos, apenas colorindo digitalmente.
Ambiciona um dia viver da apenas da ilustração?
Acho que é muito difícil… não estou confiante de que possa acontecer para breve.
Pratica paraquedismo como hobby. O que a atrai?
Sempre fui muito ansiosa, muito nervosa. Um dia, decidi que tinha de combater esse problema, mas sem recurso a medicamentos. Tirar o curso de paraquedismo foi o maior desafio mental que superei em toda a minha vida. Mas é uma situação transformadora. Existe uma mudança interior, um novo modo de olhar a vida e um sentir acrescido de força e de autoestima. Subir aquela altitude, dependendo apenas de nós para viver, é indescritível. É uma experiência espiritual e influenciou muito positivamente a minha criatividade.