Os gamos são a principal atração da Mata Nacional da Conceição de Tavira e há quem os confunda com veados. Ao todo, são 24 os gamos a viver no perímetro florestal.
Entre a serra e o mar, numa área com 457 hectares de grande valor ecológico e ambiental, o Perímetro Florestal da Mata Nacional da Conceição de Tavira é um exemplo de preservação da natureza na região do Algarve, que atrai centenas de visitantes ao longo do ano.
Pinheiros, sobreiros, alfarrobeiras e medronheiros dão abrigo a diversas aves e sombra a vários mamíferos. Entre eles encontram-se os gamos (Cervus dama). Apesar de serem considerados animais selvagens, estes são bastante sociáveis e estão habituados à presença humana.
Arsénio Teixeira Pereira, 46 anos, é assistente operacional e considera-se o guardião da Mata desde 2019, ano em que começou a exercer funções e a lidar, pela primeira vez, com estes animais.
«Sou natural de Alcoutim e estive sempre ligado ao campo porque era o nosso meio de sobrevivência. Os supermercados eram poucos e ficavam longe. Éramos obrigados a trabalhar a terra porque não tínhamos mais nada. Cultivava, tratava dos animais e ajudava em casa. Quando era pequeno cuidava de vacas, cabras, porcos, galinhas, patos e cavalos. Ainda hoje tenho. Agora, veados ou gamos, nunca tinha tratado», começa por recordar ao barlavento.
Com a prática e o passar dos dias na Mata, criou uma relação especial com os gamos. Alimenta-os todos os dias, muitas vezes à mão, o que demonstra a confiança que partilham. E há um ritual de chamada que ele próprio criou: toca uma corneta e os gamos começam a surgir, em busca da ração, composta por cereais específicos para esta espécie.
Claro, «não percebem nada de música e eu também não, mas associam o som à guloseima. A primeira vez que soprei a corneta não vieram logo, mas comecei a dar-lhes comida depois de o fazer e assim passaram a associar as coisas. Além disso, aprendem uns com os outros. Não sei se comunicam entre si, mas já chegámos ao ponto em que basta tocar a corneta em qualquer lado do parque que lá vêm eles», conta.
É um momento especial que não deixa ninguém indiferente, sobretudo as crianças que «ficam eufóricas. Os gamos têm sido a maior atração do parque, dão-lhe muita vida», assegura.
E de acordo com o assistente operacional, lidar com estes mamíferos é tarefa fácil. «Para mim, não são muito diferentes das cabras. Passam muito tempo a dormir, principalmente nos dias de chuva e de vento. No verão escolhem sítios mais frescos e com sombras e no inverno escolhem outros» mais abrigados.
Além disso, têm alguns comportamentos específicos. «Camuflam-se muito e espalham-se consoante o macho líder. As fêmeas, quando vão ter as crias, desaparecem e ninguém as consegue ver durante algum tempo. Mas são animais muito calmos e pacíficos, mesmo quando há pessoas por perto. Às vezes aborrecem-se quando há crianças, mas quando isso acontece, vão-se simplesmente embora. Não são nada agressivos e dão muita alegria a quem visita o parque».
A cada dia, e quando não há visitantes, Teixeira Pereira toca a corneta apenas uma vez. «Porque o alimento principal deles é a erva, as folhas e as cascas das árvores. Embora já os tenha visto a comer de tudo: pão, carne assada e até batatas fritas», relata o guardião.
Além de gamos, no Perímetro Florestal da Mata da Conceição de Tavira podem observar-se javalis, raposas, coelhos, lebres, camaleões, patos, andorinhas, piscos e alguns animais rastejantes.
Na zona da lagoa vivem sapos, rãs, cágados e cobras. Apesar da grande variedade de espécies, Arsénio gostava de ter também cavalos e póneis. «Conseguia tomar conta deles», garante.
Para já, considera que a população residente de gamos é suficiente. «Não nos podemos esquecer que são animais bravos. Não são animais de estimação. Não podem estar numa gaiola e isto não é o circo. Os animais não fazem tudo o que queremos. E, acima de tudo, nós é que estamos na casa deles», sublinha.
As funções de Teixeira Pereira no parque passam ainda por fazer a manutenção de todo o espaço, assegurar a recolha do lixo, alguns trabalhos de pedreiro e pintura, abrir e fechar os portões, informar os visitantes das regras e arranjar «o que não está a funcionar», comenta.
Ana Paula Martins, presidente da Câmara Municipal de Tavira, considera este assistente operacional «um homem multifacetado. Foi ele que quis ir trabalhar para o Parque de Lazer da Mata», refere.
Já sobre a origem dos gamos naquele pulmão do seu concelho, a autarca não soube precisar datas, mas recordou o que aconteceu. «Pediram-nos [à Câmara Municipal] para lá abrigarmos um gamo que veio de outro local. Acedemos. Passado algum tempo, um dos vereadores, na altura com o pelouro do Ambiente, resolveu adquirir uma fêmea. Procriaram e deram origem aos animais que temos lá hoje. Inicialmente, os gamos que lá estavam eram mais selvagens».
Hoje já não é assim. «Quando as pessoas vão fazer piqueniques, eles vão até lá para tentar comer. Às vezes temos reclamações pela proximidade excessiva. E a verdade é que os gamos vão-se aproximando de quem lá está todos os dias. Acaba por haver uma convivência», aponta.
Estragos do incêndio de 2021 continuam a ser sentidos
Em agosto de 2021 ocorreu um incêndio rural de grande dimensão, com início em Castro Marim e que acabou por afetar 2951 hectares (ha) do concelho, 257 deles no Perímetro Florestal da Mata da Conceição de Tavira.
Os 40 ha do Parque de Lazer foram totalmente afetados pelas chamas e o local ficou fechado ao público até junho de 2024.
Apesar do impacto na paisagem e no funcionamento dos ecossistemas, todos os animais se salvaram. O quiosque, assadores, as mesas de piquenique, tudo isso ardeu. Para Ana Paula Martins, «foi uma situação que me traumatizou», recorda.
Desde então, muito tem sido feito, desde a substituição de infraestruturas à instalação de um novo parque infantil e fogareiros com sombreamento. Também a sinalética foi melhorada e foram criados troços para caminhadas.
Segundo a autarca de Tavira, falta «trabalhar nas margens da lagoa. Vamos replantar árvores ao redor e criar melhores condições para a fauna. Vamos adquirir mais mesas de pedra e queremos criar condições para isolar os gamos quando houver essa necessidade. Por exemplo, quando um animal está doente ou quando as fêmeas estão na altura reprodutiva».
Ana Paula Martins afirma que «não queremos massificar aquele espaço. As pessoas usam-no muito, sobretudo no verão, e temos muitas associações que o visitam, tanto com crianças como com idosos. Agora estamos a apostar nos percursos pedestres porque queremos que os visitantes apreciem» melhor a paisagem, a fauna e a flora.
Quanto ao investimento pós-incêndio, «já deve andar perto dos 150 mil euros», estima.
Para o futuro, o objetivo passa por «termos também alguma programação cultural, recreativa e desportiva. Queremos que seja mais um espaço de visita para um turismo de natureza», ambiciona.
Uma ideia que agrada a Teixeira Pereira. «Há espaço para comer, descansar, brincar, respirar ar puro e em boas condições. Creio que é mais do que suficiente», opina.
Processo de reflorestação em curso
Até 19 de novembro do ano passado esteve em consulta pública o plano de florestação da Mata da Conceição de Tavira por parte do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
«Para a reflorestação daquele espaço, eles têm uma proposta e nós também. Já a submetemos. Numa fase mais antiga, quando se fez a intervenção após o incêndio de 2004, foram plantadas muitas acácias (Acacia Pycnantha), eucaliptos (Eucalyptus spp) e pinheiros mansos (Pinus pinea). Optaram-se por espécies de crescimento rápido, mas a acácia é invasora e estamos a rever isso», diz.
Por outro lado, a autarca de Tavira explica que, «face aos problemas de escassez de água na região, a realização de reflorestações intensivas sem possibilidade de rega no primeiro ano, pode resultar na morte prematura das árvores» recém-plantadas. Por isso, acrescentou, «estão a ser criadas condições para a instalação de um sistema de rega eficiente, com um método gota a gota. Um processo que será feito em parceria com o ICNF».
«A ideia passa ainda por escolher espécies que sejam mais adequadas ao clima do Algarve e resilientes à falta de água, como sobreiros e medronheiros. Isso tudo está a ser feito», garante Ana Paula Martins.
«Mais vale prevenir do que remediar»
Desde que Ana Paula Martins assumiu a presidência da Câmara Municipal de Tavira e, na sequência do fogo de 2021, têm sido vários os esforços da autarquia para a prevenção de fogos rurais.
«Já investimos cerca de 1 milhão de euros em limpezas de terrenos. No que toca às faixas de gestão de combustível, o ICNF tem feito a rede primária e nós asseguramos a secundária. À volta de quase todos os nossos aglomerados rurais também temos feito limpezas e intervenções. Temos o Programa Aldeias Seguras e os Condomínios da Aldeia. Há candidaturas para mudar um pouco a paisagem e o cultivo. Temos feito também charcas para armazenar água para o combate aos incêndios. Temos mais de 50 em todo o nosso território», aponta.
Ana Paula Martins adianta que a autarquia renovou o protocolo, para 2025, com a Federação de Caçadores do Algarve e 47 clubes de caça que operam no concelho, com vista à instalação e manutenção de pastagens anuais. Estes coletivos fazem a desmatação das zonas de caça com o apoio da autarquia, que disponibiliza sementes de espécies autóctones. Acrescentou ainda que, na Mata, será seguida a mesma estratégia, com a instalação de mais bebedouros e comedouros.
A sensibilização da comunidade para a necessidade da limpeza dos terrenos é outro dos trabalhos em curso. «Tentamos realmente apostar na máxima mais vale prevenir do que remediar», conclui a presidente.
Fotos: João Lázaro








