João «Brek» Bracourt é um portimonense que nasceu na Figueira da Foz. Com 43 anos, simples e afável no trato, é uma referência mundial na fotografia de surf, com trabalhos publicados em livros e revistas da especialidade. O «barlavento» procurou saber como é que se atinge um patamar tão elevado, no meio da multidão de fotógrafos que seguem a modalidade.
Começou por dizer-nos que anda no mar desde os doze anos, tendo até praticado caça submarina. Depois, foi praticante de surf, tendo ganho alguns campeonatos a nível regional. Juntou os conhecimentos técnicos da fotografia aos da modalidade, o que lhe permite antecipar o movimento que o surfista vai efetuar e, assim, captar a foto perfeita.
João «Brek» Bracourt – O surf tem uma vertente espiritual. E é difícil encontrar um fotógrafo que compreenda isso. Nunca levei a modalidade muito a sério como praticante, mas interiorizei esse estado de alma que transmito nas imagens. Como comecei por fotografar dentro de água, tinha vantagem sobre os outros fotógrafos que não eram da área.
barlavento -Qual a vantagem de fotografar dentro de água?
João «Brek» Bracourt – É uma questão de enquadramento. Temos outra perspetiva. Se estiver a fotografar com uma objetiva «olho de peixe», por vezes estou a centímetros do motivo.
Há quem diga que você arrisca demasiado. É verdade?
É um risco calculado. Já tive alguns pequenos acidentes, mas nada de especial. Embora já tenha morrido um fotógrafo, no Havai. Bateu com a cabeça num coral, desmaiou e ninguém viu.
Como se deu a passagem do surf para a fotografia?
Em 2008, salvo erro, ganhei a Corrida Fotográfica de Portimão. Estava a ficar um pouco mais velho e achei que era o modo de «congelar» essas experiências do mar e de as passar para as gerações futuras. Quis mesmo ter sucesso naquilo que desejava fazer e levar a atividade a sério. Atingi o meu objetivo, que era publicar nas melhores revistas do mundo; só faltou a parte do Ferrari e do dinheiro (risos). Mas as revistas também estão em crise, isto mudou muito. Antigamente, ganhava-se muito dinheiro com a fotografia, mas o número crescente de fotógrafos e a Internet alteraram a situação. Ainda hoje estive numa tabacaria e não vi uma revista de surf. A malta mais jovem pode ver tudo na net, passadas poucas horas. Não está para esperar um mês por uma revista.
Mas os mais velhos ainda gostam de sentir o papel?
Sim. Há uma revista com que colaboro, a Surfers Journal, só para assinantes, edição Premium, que tem um nicho próprio de consumidores.
Mas teve de sair de Portugal para se afirmar?
Sim. O ponto de viragem importante foi quando decidi ir para a Indonésia. Já havia gente a ganhar dinheiro, fotografando as pessoas que lá iam surfar, nos chamados «surf camps». Havia pouco tempo que Portugal tinha reatado relações diplomáticas com a Indonésia e o povo português era um bocado desconhecido. Ainda se ia nos barcos de pescadores, rústicos, com algum perigo à mistura. Uma aventura que foi importante para mim, também como pessoa, para abrir um bocado a mente, conhecer outras pessoas, outra cultura. Até aprendi um bocadinho da língua. Mas o que adorei foi fotografar dentro de água, que era pouco usual. Os fotógrafos que cobriam essa atividade turística faziam-no de dentro de um barco, ou até de terra. Mas, ao fim e ao cabo, eu estava a fotografar para mim. O meu interesse não era tirar mil fotos a cada cliente; era tirar uma, mas boa.
E foi aí que teve contacto com os grandes surfers?
Sim, tive contacto com alguns campeões americanos e acabei por tirar boas fotos, também pelo local e pelas ondas, que são muito bonitas. Consegui publicar bastante, logo no primeiro ano. Fiz a capa de duas edições da Surf Portugal, a mais antiga revista portuguesa da modalidade. Escrevi vários artigos e comecei a publicar em revistas estrangeiras.
Como se deu a ascensão?
Fui subindo gradualmente, percorrendo as minhas etapas, publicando em revistas cada vez melhores. Fui o primeiro português a publicar em algumas estrangeiras e, durante cinco anos, fui para a Indonésia. Mas o mundo do surf de que eu falava já estava saturado dos mesmos sítios. Comecei a amadurecer a minha fotografia e a dedicar-me à costa vicentina, que é muito bonita e recortada. Comecei a publicar fotos que mostram mais o sítio, que são mais fotografias de paisagem.
É possível viver-se da atividade de fotógrafo?
Brek – É possível, trabalhando para muitas revistas, cobrindo os campeonatos, etc. Mas é difícil. Atualmente, já não faço isso. Estou dedicado a fazer um livro sobre a costa vicentina.
Que material é necessário para se fotografar surf?
Uma teleobjetiva, para fotografar fora de água e para fazer os enquadramentos com um motivo atrás, comprimindo. Para os retratos, as lentes de 50mm e, dentro de água, usa-se muito as ultra grandes angulares, conhecidas por olho de peixe, principalmente nas fotos dentro dos «tubos». Uma caixa estanque e barbatanas. E a máquina deve tirar, pelo menos, cinco fotos por segundo. Não uso material topo de gama, porque penso que não se justifica. O meu ponto forte é ter imaginação e não material caro.
E também não abusa na edução das suas fotos. Quando é para as revistas, os editores até as preferem em RAW, como saem da máquina. Para concursos ou exposições, edita, mas só usa curvas para dar contraste, como se fazia na câmara escura. Não emprega filtros na edição.
No futuro, João (Brek) Bracourt gostaria de trabalhar mais diretamente com o público, publicando alguns livros, dos quais o primeiro será sobre a costa vicentina, e fazendo algumas exposições, embora ainda não exista um grande mercado para fotografia, em Portugal. Está, neste momento, a preparar uma exposição para a Bélgica, onde já existem consumidores prontos a pagar os preços justos pelas obras de arte no campo da fotografia.