A Mexilhoeira da Carregação é uma pequena aldeia do concelho de Lagoa, junto ao rio Arade e fora da rede viária nacional. A maioria dos turistas que nos visitam – e até os algarvios – nunca por lá passaram, limitando-se a vê-la de longe, quando atravessam a ponte.
Contudo, o seu Kayak Clube Castores do Arade (KCCA), fundado há 10 anos, tem nome feito a nível internacional, com vários títulos arrecadados. Tem cerca de quatro dezenas de praticantes, até de Portimão, porque os títulos obtidos são um incentivo aos que desejam iniciar-se ou progredir na modalidade.
O «barlavento» foi conversar com um dos vários campeões, o Diogo Lopes, atleta local com 19 anos. Entre outros títulos, é campeão europeu e vice-campeão mundial de K1, em 200 metros, a sua distância preferida.
Desde quando pratica a modalidade e porquê a escolha?
Diogo Lopes – Comecei com 12 anos e surgiu porque o meu tio já a praticava. Iniciei-me nas atividades de verão e fui ficando. Tive a vantagem de começar cedo e ter sempre pessoas competentes e dedicadas ao meu redor, que me ajudaram muito. Assim, fui conseguindo atingir os objetivos principais traçados. Desde logo, comecei a conquistar vários títulos nacionais, nas várias distâncias. Mas fui-me apurando e fiquei-me pela distância mais curta, os duzentos metros, que se adapta melhor às minhas características e que treino desde 2010, treinado e incentivado por Nuno Silva. Como cadete, integrei a equipa júnior, em 2011. Nesse ano, fiz a minha primeira prova internacional, K1-200, no europeu e no mundial.
É nesse ano que começam as vitórias internacionais?
Não. Foi em 2012 que fui terceiro, mas em K2. Em K1, fiz quinto. Mas ganhei uma prova internacional, em K1. Todas, na distância de 200 metros. Em 2013, fui campeão europeu, fiquei em quinto lugar na final B de seniores e sagrei-me vice-campeão mundial, no Canadá. E ainda ganhei mais uma prova internacional.
Mas parece que 2014 não foi tão bom em resultados. Porquê?
Foi um ano complicado, por causa da mudança de escalão e também por falta de motivação. Sentia-me psicologicamente cansado. Mas, este ano, já estou a recuperar e a conseguir voltar à minha forma.
Quantas horas treina um atleta de competição, por dia?
Depende dos períodos, mas, entre ginásio e água, uma média de 4 horas diárias, seis dias por semana. Mas somos atletas 24 horas por dia, com cuidados que vão da alimentação ao descanso, abdicando de imensos prazeres da vida. Quando se está numa modalidade olímpica, coloca-se a juventude de lado, para cumprir objetivos. Quando os conseguimos alcançar, compensa.
Um canoísta não consegue viver da modalidade, que é amadora. Há subsídios para os atletas de alta competição?
Trouxe 5 medalhas internacionais para Portugal e nunca recebi um cêntimo. Apenas a Câmara de Lagoa me dá um apoio fundamental em material, alojamento nas provas e nos transportes. Não usufruo de qualquer apoio monetário.
As provas nacionais são todas longe, não é?
Sim. Em Coimbra, Montemor-o-Velho, Porto. No sul, há uma pista em Mértola, mas ainda não foram lá feitas competições. E não existe nada no Algarve.
Vocês correm em espelhos de água, águas paradas. Mas têm de treinar no rio, sofrendo a influência das marés, com corrente fortes. Como é que isso os afeta?
É uma grande desvantagem, mas vamos treinando, umas vezes contra, outras a favor, porque não outras condições. Nas marés maiores, temos o fator dos remoinhos e do vento, que provocam lesões e maus jeitos. Há treinos que são muito complicados. Se as condições fossem melhores, as coisas seriam melhor feitas…
Quais são as suas habilitações literárias e profissionais?
Acabei, este ano, o 12º ano, via profissional, em Gestão Desportiva. Em 2012, estive fora de casa o ano inteiro, em estágios e provas internacionais e faltei algumas vezes, deixando módulos para trás. Em 2013, tive de recuperar e este ano fiquei a fazer alguns módulos que tinha deixado para trás.
E, agora, o que é que vai fazer?
Estou a tentar lançar um projeto marítimo-turístico-desportivo, passeios de canoa no rio para grupos de turistas. Que poderá ser alargado, numa fase posterior, ao mar. E a outras modalidades, no concelho.
Acha que há potencial de clientes para essa atividade?
Penso que sim, nos concelhos de Lagoa e Portimão. Mas, está a ser construída devagar, como segunda opção. A primeira é estudar para fazer o exame nacional de português e entrar na universidade.
Objetivos?
Este ano, tenho os europeus, onde quero estar ao melhor nível, para ir ao apuramento, em Milão, para os Jogos Olímpicos. Um apuramento traz logo apoios e patrocínios, o que o título europeu não me deu.