Edgar Canelas, a voz do Algarve na Antena1

  • Print Icon

Os ouvintes conhecem bem a sua voz, que empresta ao sketch humorístico diário «A mosca» de Luís Afonso e de coisas mais sérias, como o programa de comunicação de ciência «Os dias do Futuro», emitido aos sábados desde há 11 anos. Agora, o que talvez não saibam é que Edgar Canelas é algarvio e veio trazer uma nova dinâmica ao estúdio de Faro da RTP, que já assegura com regularidade uma parte da emissão nacional. Em termos de antena, Canelas assina ainda «As vozes da Lusofonia» (emitido aos domingos às 9h00) e «Alma Lusa» (que vai para o ar nas madrugadas de domingo para segunda). «No primeiro, o conceito é pegar num músico lusófono do triângulo Portugal/África/Brasil e sentar-me à conversa sobre um disco novo, acabado de lançar», descreve, «enquanto que no outro a minha intervenção é passar duas horas de fado com conversa q.b pelo meio. E claro, se for chamado para uma emissão especial, vou fazer», como a cobertura de um festival, ou outro evento de destaque.

E o que o traz para sul? «A proposta de vir para cá foi minha, por questões familiares. Senti que em termos profissionais não seria prejudicado em nada ao vir para o Algarve. Foi também uma decisão muito pessoal. Costumo dizer, meio a brincar, que vim tomar posse das minhas raízes, pois sou algarvio de pleno direito. Nasci em Lagos, fiz o Liceu em Portimão, a minha família é do Rogil, Aljezur, e agora trabalho em Faro e vivo em Olhão. Geograficamente, estou bem distribuído no Algarve», descreve.

Depois de uma primeira vistoria técnica, em setembro de 2017, percebeu que teria todas as condições para deixar para trás os estúdios de Lisboa. Em relação ao seu trabalho, explica que «um realizador concebe e apresenta programas. No fundo, faz tudo, desde a escolha da música aos convidados, até ao ponto em que é colocado no FM. E há muitas emissões, por exemplo, ao sábado e domingo, no período das 19h00 à 1h00, que são asseguradas a partir de Faro», explica. «Estamos a falar de emissão em direto, do sinal horário, da parte musical, do lançamento dos noticiários e das informações úteis», acresce. A sua ação não se esgota, contudo, atrás do microfone. «Desde que vim para cá, estamos a criar uma dinâmica e tentar retomar e reforçar a ligação aos agentes culturais» do Algarve.Exemplo é a parceria regular com o Cine-Teatro Louletano, onde apoiamos vários espetáculos e gravamos concertos para posterior transmissão. O facto de eu estar aqui torna mais fácil estabelecer estes laços institucionais que queremos alargar. Mais do que responder a pedidos de divulgação de espetáculos, queremos gravar concertos que depois passam à antena».

Como exemplos recentes, refere, por exemplo, a atuação da cantora de jazz Maria João com as Moçoilas, o espetáculo acústico dos Blind Zero, ou o dueto da cantora algarvia Ana Newton com o músico Tatanka. «Enquanto rádio pública queremos abrir portas a outras entidades e às autarquias. Estamos cá para dar total apoio a iniciativas culturais e a dar-lhes exposição nacional», reforça. A trabalhar na emissora pública desde 1992, Canelas, esclarece que «as emissões regionais acabaram há muito. Faz mais sentido fazer do regional, nacional. Tudo aquilo que se faça a partir de Faro tem exposição nacional e internacional. E de algum modo, o Algarve foi potenciado por ter cá agora alguém da área de programas, além da cobertura que já tinha dos meus colegas da informação. São campos complementares, mas abordagens diferentes».

Rádio nunca estará obsoleta

Edgar Canelas começou a abrir os microfones da Rádio Universitária de Coimbra, quando ainda era um centro experimental, a transmitir apenas para as cantinas. Viveu a luta de legalizar a então rádio pirata, e ainda por lá ficou alguns anos até entrar na rádio pública em 1992, onde começou a fazer emissão regional para toda a zona centro, no programa da manhã. Mais tarde, surgiu o convite para a antena nacional, onde ainda hoje trabalha. Questionado sobre se a rádio FM está condenada a desaparecer num mundo cada vez mais digital, o realizador mostra-se cético. «Essa é uma discussão recorrente. Eu acho que não, de forma alguma, e estes anos provam isso. Nós temos estudos e indicadores de audiências (não comparativos de canal para canal, mas do espectro de pessoas que ouvem rádio) que nos dizem que a rádio não vai morrer», justifica. «A rádio tem potencialidades diferentes da televisão. Não é tão absorvente» e não se esgota nas ondas hertzianas. «A nossa rádio é muito mais que o FM. Temos canais temáticos na internet e multimédia. Neste momento, temos a Antena1, Antena2, Antena3, RDP África, RDP internacional. Temos uma série de canais, até um para os mais jovens, chamado Zig Zag. É um projeto que estamos a acarinhar, dirigido a um público dos 6 aos 9 anos. Temos canais temáticos de fado e de jazz, numa lógica complementar ao FM», enumera. No entanto, «o FM, a comunicação instantânea com as pessoas não é a mesma coisa que ouvir um podcast e no nosso smartphone ou computador. O FM continua a ser muito importante pela proximidade. No futuro, é possível que haja outros meios de chegar às pessoas, mas a filosofia vai ser sempre esta: a rádio em direto, o fascínio da voz».

«Os Dias do Futuro» mostram a vanguarda do presente há 11 anos

Em novembro, o Prémio Ciência Viva Montepio Media 2018 distinguiu o realizador Edgar Canelas pela cobertura regular que tem feito sobre temas científicos da atualidade no magazine semanal «Os Dias do Futuro», emitido desde 2007 na Antena 1. Ouvido pelo «barlavento», o autor não esconde que foi surpreendido pela distinção. «Não me candidatei, o que ainda me deixa mais satisfeito e honrado. O programa foi uma ideia minha há 11 anos. Sempre me interessei pela ciência, embora na rádio, as pessoas me conheçam mais pela área da música, do fado, da música portuguesa, e pelas reportagens no terreno. Na altura, dei por mim a olhar para uma série de notícias, daquelas que não se repara logo à primeira vista, que por exemplo, há um investigador com uma ideia fantástica, alguém que deu cartas a nível mundial. E pensei: porque não se dá voz a esta gente que é a geração do futuro?».

Curiosamente, um dos temas em destaque no primeiro programa foi um trabalho com uma equipa da Universidade do Algarve que estava a fazer um projeto de replantação dos fundos marinhos do Portinho da Arrábida, em Setúbal. «Aprendi muito e continuo a aprender. Temos uma comunidade científica extraordinária, gente de primeiro plano a fazer ciência ao nível do que de melhor se faz no mundo. E quando digo ciência, não é num sentido restritivo. Interessa-me explorar inovação, criatividade, e novos projetos». Canelas nota que hoje «há mais mulheres na ciência e há uma nova geração com uma vontade e com ferramentas de comunicação muito mais eficazes do que há 10 anos. Isso nota-se muito, devido a entidades como a Ciência Viva e ao legado que o Mariano Gago deixou, sobre a importância de tirar a ciência de dentro dos laboratórios e trazê-la para junto dos cidadãos. Nota-se que esses muros caíram muito. Claro que há uma geração que comunica muito bem e isso para mim é também um dos segredos da longevidade do programa. Sinto o prazer que os investigadores têm em vir falar dos seus projetos de uma forma simples, mas sem perder o conteúdo científico», diz. «Há sempre coisas fascinantes. A quantidade de temas e de propostas que vão acontecendo todos os dias. Ao longo destes anos, nunca cheguei a meio de uma semana sem uma ideia para um programa. Não estou nada cansado, porque cada investigador que chega ao pé de mim, traz sempre algo novo», conclui.

Onda curta é «questão política»

Ainda falando da rádio, a emissão em onda curta «é uma questão muito discutida e é uma aposta que continua noutros países. Foi desligada por questões meramente económicas. Há quem defenda e quem lute pelo retomar da onda curta dentro da empresa pública. Eu acho que faz sentido retomá-la, assim surjam condições financeiras. O know-how técnico está cá dentro da RTP, estão cá as pessoas que sabem fazer. Isso é uma opção política que aponta sobretudo nos custos e no balanço que se possa fazer. É caro, os emissores são caros, mas isso é subjetivo, pois é um veículo importantíssimo de difusão. A BBC, por algum algum motivo continua a emitir, porque chega a sítios onde o FM não alcança. É uma questão política do país, de opção, de chegar a pontos onde o FM, a onda média e a internet não chegam».