Torna-se majestoso, numa pequena cidade de província, onde não será fácil preencher os 900 lugares do Centro de Congressos Arade. Mas, se levarmos em conta que o espetáculo esgotou os mil e quinhentos lugares da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, já não nos parece tão difícil.
O «barlavento» ouviu Armando Mota, maestro, pianista, compositor, professor de música e, também, o responsável pela programação da música erudita da autarquia, que nos disse que o seu «orçamento para programação é microscópico».
«Logo, tive de tirar, não um coelho, mas um hipopótamo da cartola. É um espetáculo que custa entre 25 e 30 mil euros e nem um terço disso a autarquia vai gastar», revelou. Para tal, segundo ele, contou muito a sua antiga ligação à banda da Força Aérea, onde trocou o piano pelo fagote, durante o serviço militar, para fugir à guerra colonial.
barlavento – E como se consegue trazer um espetáculo destes por valores acessíveis?
Armando Mota – Não é tanto uma questão de dinheiro, mas saber fazer, o «saber da poda». Os políticos, quando são eleitos, tornam-se todos iluminados. Quem é que vai para diretora da cultura? É uma senhora do partido que andou lá a ajeitar a bandeira. E são pessoas que não entendem nada de um espetáculo, nunca puseram os pés num palco, nunca tocaram um instrumento, não fazem parte de um coro… são pessoas completamente dissociadas.
Para nos demonstrar a importância que a cultura tem na sociedade, até em termos económicos, deu-nos o exemplo do Festival de Avignon, em França, que esgota os quartos dos hotéis em redor, durante um mês. E defende que se deve dar a quem efetivamente percebe do assunto a possibilidade de o fazer.
AM – O secretário de estado está muito preocupado, porque o Pinamonte, coitadinho, está em Espanha. Em Portugal, há 50 pessoas que podem fazer o lugar do Pinamonte, 10 vezes melhor do que ele. Nas autarquias, se temos o azar de ter um presidente ou um vereador da cultura que não se interesse por isso, é um problema, pela falta de um interlocutor à altura. Eu costumava dizer, na brincadeira, que o meu maior sonho era ser o diretor do Hospital de Santa Maria. Quando me perguntavam porquê, eu respondia que o diretor da orquestra sinfónica portuguesa era um médico. Nas cabeças das pessoas, não faz confusão que um médico seja diretor de uma orquestra sinfónica; mas faz confusão que um maestro seja diretor de um hospital.
O maestro Armando Mota gosta de promover, acima de tudo, os portugueses. E não é por xenofobia, mas disse-nos que viveu vinte e tal anos no estrangeiro, nomeadamente na Áustria, e os austríacos, entre escolher um português e um austríaco, escolhem o austríaco.
E acrescentou que os portugueses gostam pouco de si próprios e também gostam pouco dos seus artistas. Não é por acaso que todos os grandes artistas de música erudita vivem no estrangeiro.
Assim, em maio, apresentará o pianista algarvio João Rosa. Depois, o também algarvio Gonçalo Pescada, para quem o nosso interlocutor escreveu um concerto para acordeão. O pianista António Rosado virá tocar Rachmaninoff. O próprio Armando Mota tocará Rhapsody Blue com a orquestra filarmónica da Universidade da Beira Alta. Em dezembro, será apresentada uma obra para crianças, encomendada ao compositor Jorge Salgueiro.
Embora não queira falar em números, acabou por dizer ao «barlavento»:
AM – Um concerto com a Mariza pagava isto tudo e ainda sobrava dinheiro. Isto é a prova provada de que com muito pouco dinheiro se consegue fazer coisas interessantes, desde que se saiba da poda.