Autor, ator, encenador, relações públicas, diretor comercial e financeiro, descobridor de talentos, o nosso convidado começa por dizer-nos que «o talento tem um bocadinho a ver com a oportunidade que surge na vida das pessoas». E assegura que foi o que aconteceu no seu caso.
Filho de gente humilde, gostava muito de ir aos bailes do Boa Esperança, em Portimão, mas a coletividade apresentava-se como o fruto proibido. A sua mãe fora operária conserveira, a única razão escrita nos regulamentos para a não-aceitação automática de uma candidatura a associado.
Mas Carlos Pacheco nunca foi de desistir e encontrou uma lacuna no sistema: tornou-se atleta do clube e viu as portas serem-lhe franqueadas. Entretanto, já fazia alguns números teatrais à roda da fogueira, nos acampamentos escutistas. Ainda nos escuteiros, em conjunto com o chefe João Cercas e outro colega, o João Porfírio, fizeram um número de palhaços para as crianças, agradaram e continuaram. Mas atuavam quase exclusivamente na altura do Natal e o Carlos necessitava de mais. Quisemos saber como tudo aconteceu.
Carlos Pacheco – O Boa Esperança fazia a Revista de Carnaval, só com homens. Embora fosse muito amador, era o que existia na altura e foi o que me chamou a atenção. Eu via-os a ensaiar e o bichinho roía-me. Um dia, estava a ver os ensaios e a rir, porque um deles não conseguia fazer o papel em condições. Então, olharam para mim e disseram: «Estás para aí a rir, anda cá. Faz lá tu». Eu fiz e fiquei espantado, quando fui escolhido para fazer o número. Era uma participação pequena, mas foi a oportunidade para mostrar o talento, se é que já existia, e caminhar cada vez mais alto. A veia artística estava cá dentro, mas necessitei de alguém que me abrisse a porta e apostasse em mim. Esse alguém foi o Ilídio Poucochinho. Um dia, consegui ir a um programa de televisão, ser visto por uma pessoa que trabalhava na RTP e surgiu a oportunidade de tirar a carteira profissional, uma coisa impensável, na altura. Eu estava ligado ao turismo e a representação era um hobby, embora sonhasse viver, um dia, só do espetáculo, ter a minha própria empresa. Mas tinha uma família a sustentar e necessitava de trabalhar. Tive de trabalhar em turismo até quase aos 38 anos, mas consegui criar a minha empresa e, hoje, considero-me uma pessoa bem-sucedida.
Quando chegou ao teatro do Boa Esperança, com 13 anos, a revista era feita por um grupo de empresários de sucesso que, depois, iam buscar algumas pessoas com características especiais, os chamados «cromos». Ensaiavam numa semana, em cima do joelho, e faziam três ou quatro espetáculos. Era para rir e divertia.
Mas desejava mais?
Recordo-me de ir ver os espetáculos de revista ao Maria Vitória e a outros teatros lisboetas, com as pessoas que estavam à frente do grupo de teatro. Vinha de lá desolado, pensando: «Um dia, gostaria de fazer isto». Ficava triste, porque o que aqui fazíamos era muito pobre. E fui eu quem sempre lutou para passarmos da Revista de Carnaval para a Revista à Portuguesa, integrando uma fadista, bailarinas, etc.
Carlos Pacheco e Ilídio Poucochinho acabaram por fazer uma proposta à Direção para transformar o grupo, que só tinha homens em cena, para fazer mudanças. Como era o mais novo, calhavam-lhe sempre os papéis de mulher e já estava farto. Foi recusada, porque, segundo os diretores, tudo terceira idade, «iria descaracterizar o que era o costume da casa».
O que aconteceu depois?
Então, combinámos fazer um espetáculo no Carnaval, mas a seguir arranjarmos outra revista, com novos ingredientes. Foi aceite. Foi difícil de fazer, porque éramos só os dois a escrever a revista e não era fácil arranjar matéria para fazer dois espetáculos num ano. Faltava-nos a técnica e uma série de outras coisas. Os diretores estavam contra e tivemos de ensaiar às escondidas. Quando apresentámos o produto final, ficaram boquiabertos e viram que funcionava. Passámos logo para oito sessões, depois para dez e assim, gradualmente, fomos prosseguindo.
Mas não era suficiente para o nosso interlocutor, que queria fazer mais e melhor. Lisboa já não lhe chegava e, à falta de cursos académicos, cidades começou a viajar para aprender com os melhores. Londres, Nova Iorque, Madrid, Paris e demais onde houvesse bons espetáculos em cena eram o seu destino.
Absorvia os espetáculos na verdadeira essência técnica. E foi uma mais-valia para aqui. É lógico que temos uma sala pequena e um palco reduzido, mas isso também me fez crescer, puxando à criatividade para podermos desenvolver um trabalho profissional. Depois, começou a vir público de fora, os jornalistas interessaram-se pelo nosso trabalho, fomos convidados para vários programas de televisão, fomos crescendo e, hoje em dia, tenho muito orgulho em cá estar com estes espetáculos. Somo um cartão-de-visita da cidade, atraindo público de vários pontos a sul do Tejo.
Em determinada altura, deu-se a rutura entre a direção que estava a terminar o mandato e o grupo de teatro. Carlos Pacheco encabeçou uma lista opositora e venceu as eleições. Desde aí, também é o presidente da única coletividade portimonense com dinamismo, várias atividades programadas e uma situação económica estável, tendo alargado o seu património imobiliário.
O que aconteceu nessa altura?
Essa direção queria acabar com este grupo de teatro, substituindo-o por outro. Foi quase uma obrigação agarrar a presidência da coletividade. Foi o Ilídio, uma vez mais, quem me lançou. Eu já tinha experiência a liderar pessoas, pois estava há vários anos à frente do grupo de teatro, mas presidir a uma coletividade com quinhentos e tal sócios assustou-me um bocadinho, na altura. Mas tinha gente a dar-me apoio. Hoje, estou dedicado ao Boa Esperança a cem por cento e transformei-o num local aprazível, onde já vem muita gente. É uma referência na cidade.
Embora se sinta realizado, também se sente cansado, mas os seus colaboradores dão-lhe a força para continuar a investir num espetáculo que não é barato, num momento em que os subsídios já são passado e dificilmente regressarão. Mas a sua realização maior foi transformar o Boa Esperança numa escola de talentos.
A questão do ensino tem sido uma aposta?
Estou a dar aos jovens a oportunidade que me deram. E quero continuar a ajudar as pessoas que tenham o sonho de pisar o palco. Sinto-me gratificado, porque algumas pessoas daqui já são uma referência nacional. O Ivo Fonte, que chegou à gala final no «Achas que sabes dançar?» e que já dançou no espetáculo do Filipe La Féria. O Martim, que está em Londres no musical «Mama Mia» e outros valores que partiram daqui e me permitem ter alguma vaidade. Tivemos o campeão nacional de danças de salão, durante vários anos. Na escola de fado, já temos algumas vozes a dar nas vistas, nomeadamente o João Leote. Ao fim e ao cabo, foi mudar uma coletividade tradicional numa escola de artes cénicas. Porque há muitas escolas, mas as pessoas não conseguem lá chegar, pelos preços elevados que praticam. E nós damos a oportunidade a preços irrisórios.