Porque o Algarve glorioso que todos celebram, carrega também o peso das promessas não cumpridas.
O Algarve é, aos olhos do mundo, uma moldura dourada de praias infinitas, falésias dramáticas e um pôr-do-sol que parece pintar o céu de esperança.
Mas por trás deste postal perfeito, encontra-se uma região com desafios profundos e decisões adiadas, onde a beleza muitas vezes mascara a urgência de um novo rumo.
Se o presente do Algarve continua a ser brilhante para o turismo balnear, o seu futuro exigirá coragem, visão estratégica e, sobretudo, integração inteligente dos seus recursos: humanos, naturais e culturais.
A economia do mar surge como uma das áreas mais promissoras e, simultaneamente, subaproveitadas. O Algarve, com a sua costa extensa, não pode limitar-se a ser destino de lazer marítimo, deve posicionar-se como centro de inovação azul.
A construção de embarcações especializadas, tanto para pesca sustentável como para lazer e turismo náutico de qualidade, poderia não só criar emprego qualificado, mas também atrair investimento tecnológico e estaleiros de nova geração.
A proximidade com centros de conhecimento como a Universidade do Algarve (UAlg) é uma alavanca para desenvolver um cluster de excelência na engenharia naval e robótica marinha, áreas críticas para o futuro dos oceanos, maximizando com sistemas de Inteligência Artificial (IA).
A produção de bivalves, já um símbolo de identidade algarvia, enfrenta hoje ameaças ambientais e limitações legais. Mas com investimento em I&D (Investigação e Desenvolvimento), modernização dos sistemas de aquacultura e aposta em certificações de sustentabilidade, pode tornar-se um produto estrela exportador com enorme valor acrescentado.
Mais do que quantidade, o futuro passa pela qualidade e pela criação de marcas e estratégias de marketing contemporâneas de excelência ligadas ao valor marítimo único da Ria Formosa e da Costa Vicentina.
O segmento sénior, com poder de compra, tempo e procura por experiências autênticas e saudáveis, é uma oportunidade clara no seio da União Europeia e Estados Unidos da América.
Num contexto de envelhecimento da população, o Algarve pode tornar-se um destino de saúde e bem-estar para todas as estações do ano, integrando turismo médico, termalismo, natureza e vida cultural.
Este turismo sénior não é apenas uma tendência, é uma nova forma de viver a longevidade com qualidade, e o Algarve pode (e deve) ser o cenário de eleição.
O enoturismo, por sua vez, está ainda a sair da sombra das regiões vinícolas tradicionais, mas com enorme potencial. O terroir algarvio tem características únicas que, aliadas a práticas biodinâmicas e a uma narrativa de autenticidade (Negra Mole casta autóctone), podem criar vinhos distintos e experiências vínicas inesquecíveis.
A ligação entre vinho, gastronomia e paisagem é uma via de ouro para conquistar o turista cultural e sensorial, aquele que procura mais do que o óbvio e cria valor na economia circular e inclusiva.
Por fim, talvez o maior desafio, também a maior oportunidade, esteja na transformação do interior e na sua ligação harmoniosa ao litoral. A dicotomia entre um litoral desenvolvido e um interior despovoado não é sustentável.
É essencial criar corredores de mobilidade, incentivar a fixação de população jovem e empreendedora em territórios de baixa densidade, e valorizar os recursos locais, da agricultura regenerativa ao turismo de natureza, passando pelas artes e ofícios. A integração destes mundos, muitas vezes desconectados, será a chave para um Algarve coeso, resiliente e verdadeiramente sustentável.
Num futuro próximo, o Algarve pode ser mais do que um destino de férias. Pode ser uma região modelo de transição inteligente, energética, ecológica, económica e social.
Para isso, será preciso mais do que planos e discursos, será necessária ação coordenada, investimento com propósito e um novo pacto entre a comunidade e os seus líderes (esperemos que a classe política consiga renovar-se).
Porque o Algarve glorioso que todos celebram, carrega também o peso das promessas não cumpridas. Mas talvez, (só talvez) este seja o momento de as transformar em realidade.
André Oliveira | Chief strategy officer da ZION – Creative Artisans
Apaixonado pelo Algarve e pelo turismo. Estudou na Harvard Business School, London Business School, Wharton School e a Universidade do Algarve. Lidera uma marca de luxo turístico que representa o melhor de Portugal para o mundo.
Artigo publicado no âmbito dos 50 anos do jornal barlavento.
Foto: Bruno Filipe Pires