Escuto a ribeira do Alportel. Rumor de água. Corrente de vida. Seca no Verão, na sua passagem no Arimbo, de novo andante com a chuva do Outono em orgânica sonata.
Prelúdio
Intimamente feliz, caminho nesta tarde de domingo no Arimbo, a norte da vila de São Brás. Percorro colinas e vales. No cimo dos cerros, inspiro o ar, mais fresco no alto, nesta tarde demasiadamente amena para o primeiro dia de dezembro.
1.º andamento
Vivace
Como já todos (?) percebemos a Natureza anda muito zangada com tanta maldade que lhe têm feito. Então prolonga a seca, torna-a severa ou então manda chuva à bruta, qual dilúvio dos céus. Enregela o frio antes normal ou faz-nos suar com ondas de calor anormal.
Com a Mãe Natureza revoltada a gerar epifenómenos extremos poderia despertar uma mais alargada consciência ecológica. Mas não, entre a ignorância de uns, o não querer saber da maioria de nós, a irresponsabilidade de quem governa e a voragem predadora dos grandes interesses, caminhamos alegremente para o abismo.
No estado atual do clima, com o aquecimento global a gerar graves alterações climáticas resultantes da ação humana, as quais numa progressão crescente e constante ameaçam a vida e a biodiversidade do planeta, talvez pudéssemos aprender a mudar de mentalidade com alguns povos e culturas indígenas. Para os quais a Natureza é um ser vivo ao qual pertencem e estão ligados.
A palavra-chave é pertencer. Pertencemos à Natureza e não o contrário. Podíamos aprender a lição e deixarmos de olhar as florestas, os rios, as montanhas, os mares e a vida não domesticada, não apenas de modo utilitário e com objetivos de apropriação e exploração. Por exemplo, com alguns dos povos nativos da América a respeitar animais, árvores e cursos de água = fontes de subsistência e razão de existência.
Em Portugal, temos o triste exemplo da herdade da Torre Bela com o massacre de centenas de veados encurralados. Aliás, esta mesma herdade, tão mediática desde os idos da revolução de Abril, volta a ser notícia por ter sido totalmente despojada do seu coberto vegetal para dar lugar a uma gigantesca instalação de painéis de energia solar. O que é demonstrativo de quem não olha a meios para atingir fins, seja a explorar trabalhadores, a massacrar animais, a desmatar e desflorestar de modo igualmente predador recursos naturais, à conta de ser energia alternativa, ao melhor estilo do green capitalism, tão desapiedado com a Natureza quanto o outro.
Temos a resistência das gentes do Barroso, região de paisagem agrícola protegida, contra a prospeção e exploração de lítio, que seria o princípio do fim de uma terra onde a agricultura e a criação de gado ainda se entrelaçam e praticam em harmonia com a vida da comunidade.
2.º andamento
Grave
Mas e o nosso Algarve?… Com as muitas inércias e contradições a pedir decisões políticas esclarecidas e não o governar simplório de quem satisfaz pedidos. Se municípios há que já têm elaborados Planos de Combate às Alterações Climáticas (os quais no país deveriam ter estado todos aprovados até ao final de 2023 e mais de 180 municípios continuam em falta), não vemos no terreno efetivas medidas de florestação, mas somente algumas plantações esporádicas na serra, noticiadas com umas fotografias na comunicação social, as quais passado pouco tempo estão secas, pois não se cuidou do que se plantou nos primeiros tempos de vida.
O mesmo de modo absurdo e triste em jardins e parques municipais urbanos em que se plantaram (aplauda-se a iniciativa) um belo e diverso conjunto de árvores ornamentais, mas por não serem regadas, pelo menos no Verão, estão a morrer; ou devido à poupança de água que se justifica no caso dos relvados, mas é uma estupidez quando se deita a perder a arborização de novos espaços citadinos (vão passear na zona ribeirinha de Olhão e contem o número de árvores novas que morreram ou estão a definhar). Perdem-se as árvores e o dinheiro investido.
Isto para já não falar do contínuo decepar de árvores com as podas municipais. A árvore é símbolo de vida e quanto mais frondosa mais oxigenação produz. Mas como se governa tendo em vista o voto, se os moradores pedem para cortar, pois sentem-se incomodados com as folhas, as quais sujam a varanda, os carros e a rua, então corta-se a eito e por vezes até se abate; a última que ouvi é que as árvores podem cair, então faça-se a vontade aos eleitores. Já agora arranquem tudo o que são postes e cabos elétricos e podem também desmantelar as gruas, pois podem cair ou não?!…
3.º andamento
Andante ma non troppo
Sobre a ponte da ribeira do Alportel escuto o rumor da água. Rumor e corrente de vida. Os agricultores querem a água aprisionada. Pois acham um desperdício vê-la correr para o mar. Mas o mar e a ria também precisam dos nutrientes transportados pelas ribeiras e rios que alimentam a fauna e flora marinhas.
Como, felizmente, choveu bem, sobretudo a Sotavento, com inundações em Olhão e com o Gilão, em Tavira, a transbordar, com uma vistosa enxurrada, como não se via há muito tempo, vai daí e vem o disparate de se exigir uma barragem mais, desta vez na ribeira do Alportel. A mesma que contemplo agora e no Verão estava seca, sem caudal algum. Mais a nordeste, a Associação de Regantes defende uma barragem na ribeira da Foupana. E pressiona o governo central.
Mas no âmbito do Restauro da Natureza, um plano diretivo da Comissão Europeia propõe rios livres de barreiras, fluindo sem obstáculos da nascente à foz, de modo a tornar possível a recuperação da vida e da biodiversidade.
A Barlavento, a ribeira de Alcantarilha está praticamente seca. O Arade é hoje um rio que vê o seu leito, desde a foz em Portimão até Silves, alimentado ao contrário, ou seja, pelo mar e suas marés. Com a seca e a consequente escassez de água a montante, as ribeiras já dificilmente geram corrente, o rio vive dependente do mar.
A Águas do Algarve anuncia 800 mil euros para ações de sensibilização, teremos mais outdoors e folhetos nas caixas do correio. Quase um milhão de euros que numa ação concertada com autarquias poderia servir para limpar ribeiras e rios.
Na costa, o mar traz algas de origem asiática, da distante China e Japão, que se acumulam nas praias e chegam a perfazer 1 metro de altura no areal. É um espetáculo insólito. De difícil remoção, dada a quantidade absurda, representam igualmente uma despesa extra para autarquias. Entretanto, somos eleitos pelo terceiro ano consecutivo melhor destino de praia do mundo. Pergunto-me até quando?…
Parece-me evidente a emergência de uma consciência ecológica. E de políticas ambientais por parte de uma classe política que apenas navega à vista, sem opções claras, cada vez mais chata e consumida em picardias, só sabendo falar de reformas e pensões, de IRS e IRC, se sobe ou desce 1 ou por 2 por cento. Sem proferir uma única palavra sobre ordenamento do território e proteção do meio ambiente.
Paulo Penisga | Professor
