Mestre Figueiras vem de uma época em que não passava pela cabeça de ninguém ser remunerado para aprender uma profissão num curso profissional. Pelo contrário, pagava-se, muitas vezes, para aprender. E assim, aos 13 anos, este artista, que já viu o calendário dar oitenta voltas, foi para a oficina do mestre José Pedro Martins aprender a arte de marceneiro. «Só ao fim de quatro anos de aprendizagem é que comecei a receber 50 escudos por dia», recorda.
Homem com grande sede de conhecimento, mestre Figueiras rumou a Lisboa, onde teve oportunidade de dedicar-se à talha e à pintura, ainda hoje o seu trabalho preferido. Há dois anos, restaurou um sacrário chapeado a ouro, da diocese de Évora.

Há uns anos que o seu filho Miguel trocou a carreira militar pela arte do pai e labora a seu lado, na pequena oficina meio escondida na Rua Nova, que muitos portimonenses nem sabem onde fica, embora se situe na zona antiga da cidade, perto do local onde o artista nasceu.
Embora o mestre Figueiras seja um homem muito reservado sobre quem conheceu e com quem privou, limitando-se a dizer que fez amizades com muitas pessoas, ao longo da sua vida, o «barlavento» conseguiu apurar que, no Algarve, fez muito trabalho no palacete da Infanta de Bragança, em Ferragudo, e na Quinta da Donalda, de D. Diogo de Azevedo Coutinho. Aliás, nesta última, desmontou toda a capela, que fora uma oferta do Vaticano a um antecessor dos atuais proprietários, restaurou e voltou a montar todas as peças.
«Veio alguém do Vaticano, no final, verificar se estava de acordo com o original», disse-nos, orgulhoso por não ter sido encontrada a mais pequena falha.
Para os leitores poderem ter uma ideia da meticulosidade e paciência requeridas nesta arte de restaurar peças antigas, o «barlavento» observou o Miguel, durante horas, a retirar cuidadosamente todo o verniz de um tampo, para o tornar homogéneo e conseguir eliminar um risco.
Descobrimos que, entre outros, visitaram o nosso entrevistado, na sua oficina, grandes nomes das artes, nomeadamente o fotógrafo Augusto Cabrita, o escritor Urbano Tavares Rodrigues e a pintora Stella de Brito. Aliás, o mestre Figueiras também se tem dedicado à escultura. Nos últimos anos, foi vendendo as obras, incluindo a sua maravilhosa coleção de Cristos. «Fiz duas exposições em dois hotéis de luxo locais e as peças foram todas adquiridas».
Mas conserva religiosamente um violino em madeira de amoreira, cravejado a madrepérola, que fez aos 19 anos. «O meu avô tocava violino e gostava de se entreter com os instrumentos. Eu, desde miúdo, tomei-lhe o gosto e decidi fazer um, que ainda aqui está», disse, mostrando orgulhosamente a sua obra.
Muito cuidadosos com a alimentação, pai e filho não dispensam uma infusão de chá verde em água trazida de Monchique, onde mestre Figueiras procura e encontra refúgio, ao fim de semana, no meio da natureza que tanto aprecia.