«Ainda sou o Rei da Rádio. Deixou de haver e eu ganhei o último. Queiram ou não, ainda sou e têm de me aturar. Fui o primeiro e o último», diz-nos António Calvário, entre gargalhadas sonoras e contagiantes. Este algarvio de gema, nascido por acaso em Moçambique, está à beira das 78 primaveras e de 60 anos de carreira, se considerar-mos que tudo começou em 1958, com a obtenção da carteira profissional e entrada na Emissora Nacional.
Carteira profissional? «Era obrigatório e necessárias referências para obtê-la. Quem não a tinha não podia cobrar. Passei à primeira no concurso para ingressão na Emissora Nacional, que não era fácil e que era a melhor referência. Mas ainda necessitei de outras, entre as quais a Hermínia Silva».

Quando foi estudar para Lisboa, continuou as aulas de canto com uma prima da sua avó, a famosa Corina Freire, artista de rádio e teatro e responsável por muitos êxitos musicais, na época. Foi essa preparação que lhe permitiu a entrada fácil na EN.
«Comecei a participar em programas com grandes orquestras e entrei no 1º Festival da Emissora Nacional, com a canção «O Regresso», que foi um êxito e me tornou conhecido. De seguida, gravei um disco que teria sido o meu primeiro de ouro, se já existisse essa prática».
António Calvário nunca mais parou. Foi o primeiro participante português no Festival da Eurovisão, com a «Oração», além da presença em inúmeros festivais internacionais, fez teatro, cinema e acumulou êxitos atrás de êxitos. Cantor versátil, também cantou fado-canção. «Ainda hoje, as pessoas esperam que eu cante os meus sucessos antigos e ficam desassossegadas, se não os canto de início».
O 25 de Abril de 1974 trouxe-lhe dissabores profissionais. «Sofri, nos primeiros anos. Eu e todos os que tínhamos uma linha criativa. Queriam que prevalecesse a canção de intervenção e até tentaram acabar com o fado. Nem na Rússia ou em Cuba acabaram com as canções românticas. Nunca deixei de cantar, embora o tivesse feito em locais que não me agradavam muito. Mas era a minha profissão e o meu meio de subsistência».
Sobre o panorama musical atual, disse-nos que «há muita gente a querer cantar e muitos concursos nas televisões, enchendo de ilusões as suas cabeças. Depois, não há campo de ação para todos. Quem ficou, de toda essa gente? A Sara Tavares e pouco mais. Os outros são os grandes vencedores dos ídolos, mas ficam pelo caminho. Se querem gravar, têm de o fazer por conta própria, porque as editoras só investem em casos excecionais, com garantia de retorno».
Sobre a pobreza dos poemas utilizados, diz que é preciso é haver pernas ao léu, um acordeão e arranjar uma frase que se repete do princípio ao fim, muitas vezes com malícia subentendida na frase. «Não poderia usar isso no meu repertório, porque seria ridículo. Prefiro a minha Chorona».
Calvário disse-nos ter muito cuidado com a alimentação, ter deixado e de fumar e beber moderadamente. Aliados a pilatos uma vez por semana e ginásio, além dos exercícios vocais, que considera imprescindíveis, estas regras mantêm-no saudável e ativo.
«Sinto-me feliz com a minha carreira, porque tenho trabalho, 
António Calvário e Maria José Valério são cabeças de cartaz num espetáculo «da revista ao musical», que vai acontecer, em outubro, no auditório da Câmara de Almada e, depois, percorrer o país. Será desta que Portimão encontra espaço para acolher em palco um cidadão honorário e um nome grande do nosso universo musical? Para já, confirma-se a intenção do Grupo de Amigos do Museu de Portimão quer prestar-lhe homenagem, com uma exposição de fotos, troféus e demais material alusivo à sua carreira.