Quem ainda não teve oportunidade de visitar a sétima Mostra de Livros de Autores de Lagos, no Armazém Regimental, na Praça do Infante, ainda pode fazê-lo até 15 de agosto. É uma oportunidade para conhecer alguns dos escritores locais, trocar ideias sobre a importância da leitura e até, quem sabe, descobrir uma vocação escondida.
O «barlavento» falou com dois dos participantes nesta iniciativa, José Vieira Calado e Timo Dillner, que explicaram, enquanto escritores, a importância do evento, organizado pela Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos com o apoio da Câmara Municipal local, criado para dar a conhecer a comunidade literária do concelho.
Vieira Calado, natural de Lagos, considera que esta mostra coloca em destaque «autores lacobrigenses com pouco curriculum literário, e que, de outra maneira, quase não teriam possibilidades de dizer o que escrevem. A ideia é mostrar aos visitantes do certame, que qualquer um pode também iniciar-se na escrita, porque terá uma porta aberta para prosseguir. E mostrar aos visitantes vindos doutras paragens, as obras dos muitos autores da cidade».
Este autor, já agraciado pela Câmara Municipal de Lagos com um Louvor Público Municipal, tem, «em nome individual, umas trinta [obras publicadas], em Portugal e no Brasil». A nível «coletivo, antologias ou afins, [contam] cerca de cinquenta participações, também em Portugal e no Brasil», contabilizou.
«A maior parte é poesia, mas também tenho publicado contos, ficção científica, teatro, e divulgação científica. Referirei apenas, em poesia, Lagos Ontem (2ª edição), Algarve Ontem, e em prosa, Merdock – um cão em Faro, anos 1950, em 3ª edição (esgotada)», enumerou ainda.
Por outro lado, Tilmo Dinner, um escritor de nacionalidade alemã que escolheu Lagos para viver há vários anos, acredita que, desta forma, se sente incluído numa sociedada qual gosta imenso. Tem três livros publicados, que escreveu em conjunto com a mãe, entre 2001 e 2003.
São títulos publicados por «grandes editoras alemãs (Verlag Neues Leben, Berlin) e austríacas (Carl Ueberreuter Verlag, Wien). A partir de 2004, foram publicados 15 livros por mim e pela minha mulher, aqui em Portugal», explicou.
Entre alguns exemplos contam o catálogo Não farás para ti imagem – Du sollst dir kein Bild machen, publicado pela Câmara Municipal de Lagos, em 2009, bem como nove livros, que são «bilíngues ou que existem em duas versões (português e alemã)», adiantou ainda.
Este escritor que se apaixonou por Lagos deu à estampa A praia… e outras lendas do Algarve e O dragão de Sagres… e outros contos do Algarve, com versões em português, inglês e alemão tendo ainda «quatro livros apenas em alemão. Quase todos são ilustrados por mim», afirmou, pois Tilmo Dinner também é artista e tem feito um percurso nas artes plásticas.
Ambos se iniciaram na escrita durante a juventude. Tilmo Dillner conta que começou a escrever poemas, quando ainda frequentava a escola. «Gostei de brincar com palavras, de experimentar, de inventar histórias», uma capacidade que foi apurando, mais tarde, tal como a pintura. O autor alemão inspira-se no «ser humano», na «vida» e na «filosofia».
José Vieira Calado admite que é difícil dizer o que o inspira. «Geralmente, escrevo sobre tudo. Não tenho um modelo único. Procuro sempre inventar novos modelos. A chamada inspiração leva–me a escrever livros distintos».
Além de dar voz aos autores locais, esta mostra evidencia outra questão relevante. «Não é fácil ser autor em pequenas cidades, longe dos grandes centros culturais. As relações interpessoais são um grande estímulo e um meio seguro de divulgação junto dos agentes culturais, para quem se dedique a qualquer arte. E no Algarve, estamos longe dos grandes centros de decisão», refere José Vieira Calado.
E se o desafio é grande para um autor local português, será maior para alguém cuja língua mãe não é a portuguesa. «Para mim, como estrangeiro, é sempre um desafio mostrar-me como um escritor do Algarve ao público. Estou feliz por fazer parte dos autores de Lagos», sublinhou ainda Timo Dillner, que ambiciona um dia dominar «a língua portuguesa» como sua.
No entanto, diz que pode «ler Fernando Pessoa até ao final dos dias, sem aprender o português. Graças a Deus que a minha filha é uma tradutora profissional, fluente nas duas línguas», como se fossem ambas as maternas, e que «faz poesia própria», concluiu o escritor.
Esta quinta-feira, dia 4, às 21h30, José Vieira Calado lança na mostra de autores Lagos Ontem, uma compilação de poemas em CD, voltando a apresentar ao público, no dia 13, às 21h30, o livro
Marenostrum. Já Timo Dillner estará em destaque no dia 14 de agosto, às 21h30, com
Contos da Oficina.
Ebook poderá ser futuro para chegar às gerações mais novas
As novas tecnologias podem dissuadir a leitura, mas também abrem oportunidade para estimular e até fomentá-la. Numa altura, em que, cada vez mais jovens, utilizam suportes digitais, o «barlavento» questionou dois autores de Lagos sobre o tema.
José Vieira Calado argumenta que «as notícias, por vezes, são contraditórias. Em alguns países desenvolvidos, parece que as vendas do livro em papel, continuam a subir. É certo que os mais jovens preferem os meios informáticos. O futuro passa pelo ebook, cuja expansão é muito forte».
Tilmo Dillner considera que «ainda muita gente compra e lê livros em papel. Talvez, mais do que no passado, inspirados por novas tecnologias. Mas o nível da qualidade literária, no geral, está a baixar. Cada um pode desenhar uma letra, chamar-se autor e publicar. Muita literatura, hoje em dia, apresenta-se como um prato light para ser digerido com a máxima facilidade. Isso vende. Mas quem gosta de ler», repete o mesmo livro duas ou mais vezes. «A verdadeira literatura funciona assim», defende.
Viagens com o Infante D. Henrique
Viagens à descoberta do Algarve com o Infante D. Henrique (1415-1460) é a mais recente publicação do investigador local José António Martins. Vai ser apresentada domingo, 7 de agosto, às 21h30, no âmbito da sétima Mostra de Livros de Autores de Lagos, promovida pela Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos.
Esta publicação em seis idiomas pretende preencher uma lacuna no panorama literário do Algarve, onde escasseiam suportes multilingues destinados aos turistas e visitantes internacionais.