O desportivo mais importante da história do automóvel deve a sua posição de destaque a um elemento fundamental que sempre fez parte do modelo: a capacidade em adaptar-se à realidade e à evolução do mercado. Fomos até Tenerife, à apresentação mundial à imprensa da segunda vida da geração 991 para ver se os engenheiros alemães foram capazes de compreender e preservar essa capacidade no novo modelo. O 911 é o símbolo maior da Porsche. Um ícone da indústria automóvel e tem, desde que foi lançado em 1963, cultivado um clube de seguidores como nenhum outro automóvel conseguiu até hoje.
Em 2016, a marca alemã vai chegar ao milhão de unidades vendidas e o mais incrível de tudo é que 80 por cento de todos os 911 produzidos ainda estão a circular. Pequenas alterações são uma constante dentro da mesma geração. E mesmo de ano para ano, se a marca assim achar que faz sentido, mas o 991.2 traz uma profunda mudança de paradigma que já não se via desde que o 996 substituiu o 993 em 1998, alterando a refrigeração do motor de um sistema a ar para um a água. Os puristas gritaram «heresia», mas a qualidade inata do Porsche venceu tudo e todos.
A partir de agora, e muito provavelmente para todo o sempre, todos os 911 que não ostentem a sigla GT3 passarão a estar equipados com um novo motor turbo, neste caso de três litros de cilindrada.
Assim, o Carrera e Carrera S – e respetivas derivações – abandonam os antigos propulsores atmosféricos de 3.4 e 3.8 litros e seguem o caminho inevitável da sobrealimentação, a única forma de aumentar as performances e cumprir as cada vez mais apertadas leis ambientais. O novo bloco biturbo de 6 cilindros e 3000cc, código interno 9A2, mantém, no entanto, e como não poderia deixar de ser, a filosofia de cilindros opostos boxer que caracteriza o modelo. Até porque é a única forma de caber no compartimento do motor. O Carrera passa a debitar 370 cavalos, enquanto o Carrera S consegue uns já impressionantes 420 cavalos.
A Porsche mostrou o novo 911 aos jornalistas nas entrelaçadas estradas da ilha de Tenerife – por vezes fechando alguns troços para gáudio dos condutores – colocando à nossa disposição uma colorida frota de Carrera S e Carrera S Cabrio com diferentes níveis de equipamento e especificação, incluindo até algumas unidades munidas da peculiar caixa manual de sete velocidades – ainda que a excecional PDK de dupla embraiagem continue a ser a preferida da maioria dos clientes.
A nova coqueluche da Porsche mantém inalteradas as características únicas da condução de um automóvel com o motor em cima do eixo traseiro, mas a suavidade e a facilidade de utilização do 991.2 estão num patamar nunca antes visto no modelo.
A performance é superior em todos os aspetos ao 991.1, principalmente pelo maior binário disponibilizado pelo motor comprimido, que torna ainda o 911 mais acessível em qualquer regime e a adoção de ritmos elevados ainda mais fácil, até para condutores menos experientes.
O modo de explorar o 911 não mudou, sacrificando-se alguma velocidade de entrada em curva para depois se sair «a voar», com o carro a colocar toda a tração no chão assim que sente o pé direito no acelerador.
Um carro de motor central nunca conseguirá igualar o 911 neste aspeto e se um chassis com um layout de motor traseiro pode parecer antiquado, cinco minutos ao volante do novo 991.2 bastam para que passe a parecer o topo da engenharia automóvel.
Passei a maior parte do tempo ao volante de um Carrera S com caixa PDK e, se é inegável que nas últimas 500 rotações o motor turbo não tem a alma de um atmosférico, a verdade é só esta: e então? Então nada – o novo carro é superior em tudo o resto e ninguém compra um automóvel – ou deixa de o fazer – por causa das últimas 500 rotações.
A estética nunca poderia mudar muito, centrando-se as alterações nos novos para-choques dianteiros e traseiros, no novo spoiler traseiro e novos faróis à frente e atrás.
A geração 991 é das mais bonitas de sempre do emblemático 911 e, quando o design exibe tamanha harmonia, não há porque mudar muita coisa. O interior recebeu uma série de modificações importantes, como um novo sistema de infotainment que inclui um ecrã de 7 polegadas com Google Earth e Google Street View incorporados, conetividade WLAN e Apple CarPlay. A qualidade Porsche continua bem patente, com materiais de elevado nível e uma variada escolha de acabamentos que permite personalizar o 911 ao gosto de cada um.
Há 52 anos a marcar o ritmo da indústria, o Porsche 911 está a passar por mais uma revolução profunda, permanecendo exatamente na mesma. E é essa a sua maior vitória: conseguir desenhar o futuro, sem nunca esquecer o passado.