Desconfiamos – atenção, que não passa duma mera desconfiança, num mundo político- financeiro cada vez mais transformado em «teatro de sombras» ou, se se quiser, onde uma coisa é o que se pretende fazer crer e outra o que realmente será – que o Presidente da República, o primeiro-ministro, a ministra das Finanças, o governador do Banco de Portugal e muitos mais personagens, terão sabido mais e mais cedo do grau de exposição do BES ao GES, do que aquilo que têm procurado fazer-nos acreditar.
Só que não se iria colocar em causa, sem mais, o principal banqueiro do regime ou o verdadeiro «dono disto tudo», com toda a teia de cumplicidades à volta dele construída e «favores» vários que tal tipo de teia sempre proporciona em diversos sentidos, sobretudo num tempo em que era preciso não manchar o «bom nome» do país, apresentado que era como um caso de «sucesso», enquanto «bom aluno» da política da «Troika».
Tudo isto para não falar-se na pretensa evitação dum «risco sistémico», essa coisa que hoje serve para justificar tudo e mais alguma coisa, de incompetências a comprometimentos incómodos.
Como consequência, foi-se empurrando, como se costuma dizer, com a barriga para a frente o problema do BES/GES, independentemente de todos os «danos colaterais» que daí pudessem advir, na esperança de que um qualquer «milagre de Fátima» o resolvesse, que para problema assim só um milagre de tal natureza, sobretudo quando se permitiu (o governador do Banco de Portugal ou as leis que suportam o «sistema») que uma apontada «raposa» continuasse a guardar o «galinheiro» (leia-se continuação do «dono disto tudo» à frente do BES, já depois do «caso» ter passado, abertamente, para o domínio público).
Sucede, porém, que findo o «resgate», publicitado como um «sucesso», a que o país foi submetido, as altíssimas instituições europeias, em particular o Banco Central Europeu, não continuassem a ser acusadas de pouco ou nada fazerem para combater os desmandos do mundo financeiro e que tanto têm custado aos contribuintes do velho continente, terão decidido mostrar algum serviço, transformando, para o efeito, o pequeno e subserviente Portugal num «laboratório» desse pretenso combate, impondo a solução (resolução) que é conhecida para o BES.
Resta saber, entretanto, se essa «solução» não se irá, ainda, transformar num imenso «problema», a entrar, mais uma vez, nos depauperados bolsos do «Zé-povinho», levando-lhe o resto que ainda possa ter, na eventualidade de a venda do Novo Banco, que ao velho BES sucedeu, não vier a render no «mercado» o que se espera, acrescido dos custos com litigâncias judiciais várias despoletadas pelos que vítimas do «caso» se sentirão e terminando tudo, afinal, sem culpados, que tudo terá sido, apenas, consequência da abstrata «crise» do nosso descontentamento.
*Advogado