Com efeito, a cultura marítima portuguesa atravessou séculos de História, forjando um contexto socioeconómico que se mantém válido na atualidade. É no mar que o nosso país encontra ainda hoje alguns dos seus mais importantes recursos naturais, a partir dos quais se desenvolvem atividades de grande peso económico e social.
Não me refiro apenas às atividades mais tradicionais, como a pesca, o turismo, os transportes marítimos ou a gestão portuária. Refiro-me também às atividades mais recentes e que têm vindo a emergir com grande dinamismo, como a aquacultura, a biotecnologia marítima, a produção de algas, as energias renováveis, a preservação dos recursos marinhos, o ordenamento das regiões costeiras, a química ambiental ou as tecnologias de observação submarina.
Todas estas novas atividades da Fileira do Mar dependem eminentemente da investigação científica, do desenvolvimento tecnológico e da inovação empresarial. Isto significa que a Estratégia Nacional para o Mar tem de passar por centros de excelência capazes de criar, valorizar e transferir conhecimento especializado para as empresas, de modo a que estas possam desenvolver, comercializar e exportar bens e serviços inovadores.
Para vencer o desafio do mar, não basta a Portugal glorificar a epopeia oitocentista nem muito menos negociar nas altas instâncias internacionais o alargamento da plataforma continental, apesar do interesse que a expansão da nossa Zona Económica Exclusiva naturalmente encerra.
Do que Portugal necessita é de gerar massa crítica que promova o avanço das ciências aquáticas, que dinamize o cluster marítimo nacional, que fomente iniciativas de empreendedorismo tecnológico ligadas ao mar, que contribua para a preservação dos ecossistemas marinhos e que garanta apoio especializado no ordenamento da orla costeira. Massa crítica, essa, que deve resultar do cruzamento entre investigação científica, desenvolvimento tecnológico, inovação empresarial e empreendedorismo qualificado, onde a Universidade do Algarve e em particular o seu Centro de Ciências do Mar são um exemplo a aplaudir e um parceiro a considerar.
Temos perfeita noção de que há, ainda hoje, um longo caminho a percorrer na cooperação entre universidades e empresas. Muito do conhecimento produzido na comunidade científica não é ainda aplicado na qualificação das empresas, tendo em vista um reforço da sua competitividade a partir de fatores críticos como a inovação, a criatividade e a tecnologia, bem como as falhas na transferência de conhecimento decorrem, por um lado, das fragilidades do nosso tecido empresarial, designadamente ao nível da qualificação dos recursos humanos e da capacidade tecnológica instalada.
Neste sentido, urge consolidar o funcionamento em rede de empresas, universidades, centros de investigação e associações empresariais, tendo em vista a partilha de conhecimento especializado e a cooperação em atividades de Investigação, Desenvolvimento. Portugal e o Algarve devem criar um ecossistema que favoreça a conversão de conhecimento científico e tecnológico em valor económico, de forma a serem desenvolvidos produtos, serviços e tecnologias altamente sofisticados. Só assim será possível reforçar a competitividade do nosso tecido empresarial, que tanto necessita de bens e serviços transacionáveis no exterior e com elevada intensidade tecnológica.
Como Diretor da ANJE, aproveito estas linhas para afirmar a total disponibilidade desta Associação Empresarial para analisar e debater questões relevantes para a atividade empresarial. Hoje como ontem, estamos disponíveis para contribuir para a discussão dos grandes temas económicos nacionais e regionais com a experiência empresarial, o know how sobre empreendedorismo e a vivência associativa acumulados pela ANJE nos seus quase 30 anos de existência.
*Diretor Nacional – Algarve da ANJE