Pedro Pousão, responsável da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) defende o cultivo do mar para colmatar a seca e os problemas da agricultura convencional.
Para o diretor da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o sector português da aquacultura está ao nível do que de melhor se faz no mundo, e em alguns casos, é até bastante superior.
«Qualquer uma das nossas empresas é de topo. Seja na produção de microalgas, na produção de rações, na produção de peixes em mar ou em terra, são todas de alta tecnologia. Diria que estamos até num nível superior, na produção e investigação. O problema é que são poucas. Precisamos de as multiplicar por 10, no mínimo», disse o responsável ao barlavento, à margem de uma ação de libertação de pescado
excedentário da EPPO, ao largo da Ilha da Armona, na quinta-feira, dia 7 de dezembro.
«Os grandes projetos em que agora estamos envolvidos são os do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para alavancar a aquacultura e as empresas portuguesas. Estão também agora a iniciar os projetos financiados pelo Mar 2030» que também vão manter a EPPO em pleno funcionamento.
Neste momento, «o grande interesse é a produção de micro e macroalgas para incorporar os seus compostos bioativos nas rações de peixes, de forma a torná-los mais resistentes a doenças e ao stress. Por exemplo, através de suplementos nutricionais. Esse é um dos grandes focos. Mas também a produção de macroalgas associadas a jaulas de peixes offshore, como temos aqui no Sotavento algarvio, com o grupo Jerónimo Martins, para já», revela.
Neste caso, a ideia é que «os nutrientes que saem das jaulas dos peixes sejam reutilizados para a produção de macroalgas. É um ensaio que está a começar agora, e com grande interesse. Somos um dos parceiros do projeto, e no nosso caso concreto, colaboramos na produção das algas em terra que depois são colocadas em cordas no mar» junto às unidades offshore. «Depois, fazemos os ensaios onde se experimenta a incorporação dessas algas nas rações». Pousão sublinha que «são tudo algas da nossa costa, aqui apenas há um aproveitamento».

Defensor da aquacultura enquanto questão de soberania alimentar, Pedro Pousão sugere que o mar pode e deve ser uma alternativa aos problemas da agricultura convencional. «Temos de começar a cultivar no mar, onde não temos os problemas de falta de água que hoje todos discutem. Em vez de alface da terra, podemos começar a comer alface do mar. Temos, cada vez mais, de pensar na aquacultura marinha que usa água salgada e não água doce, como uma fonte de alimentação», sugere.
«Todos os nossos projetos são nesse sentido, seja para produzir ouriços do mar, sardinha, corvina, temos sempre em primeiro lugar a segurança alimentar do país e o consumo humano. E há subprodutos que depois podem ser reaproveitados para outras indústrias, com muitos focos de utilização, da indústria farmacêutica à cosmética. Mas no cômputo geral da aquacultura em Portugal, o consumo humano é o principal objetivo. E precisamos que continue a ser, porque importamos mais de 70 cento do que comemos. A nossa aquacultura representa 3 por cento no consumo nacional de pescado. Portanto, temos de crescer muito».
«A população vai aumentar. O espaço e a água doce disponível vai continuar a diminuir. Temos de começar a complementar a nossa alimentação com produtos do mar. Não estamos a inventar a roda. Estamos, quanto muito, a adaptá-la às condições do nosso país». E acredita que sim. «As pessoas quando vão aos restaurantes asiáticos estão habituadas a comer algas. Não é da nossa gastronomia, mas tem de começar a ser também».
Aquacultura precisa de espaço em terra
Ao avistar uma área de concessão offshore com sinais de abandono ao largo da Armona, Pousão reflete sobre boas-práticas que devem ser adotadas.
«É impossível fazer uma aquacultura de sucesso e competitiva colocando peixe no mar vindo diretamente da maternidade, quando pesa apenas três a quatro gramas. Isto é, o peixe deve ir para as estruturas offshore quando atinge 40 ou 50 gramas, quanto tem um tempo de crescimento razoável para que a competição entre os indivíduos seja menor. Não vale a pena pôr jaulas por todo o lado no mar, se não houver espaço em terra produzir e engordar os peixes ou os bivalves», sublinha.
«Temos correntes fortes na nossa costa e um peixe pequeno que pesa 2 a 4 gramas vê-se um pouco aflito a nadar. E com isso começa a haver uma dispersão de tamanhos dentro das jaulas. Ou seja, poderá até haver muito peixe com o tamanho comercial adequado, mas também haverá muito que não está» apto a ser vendido em banca.
«Os noruegueses levam peixe de meio quilo para o mar. Aqui não diria tanto, mas falo, por exemplo, em douradas com 40 a 50 gramas. Caso contrário, o sucesso será muito mais limitado», recomenda.
A equação, contudo, não é simples de resolver. «A solução é ter espaço em terra para se fazer a maternidade onde os peixes nascem e fazem a pré-engorda, durante dois a três meses antes de irem para as jaulas offshore. Não temos fiordes, nem zonas abrigadas. As nossas condições de mar obrigam a que o peixe tenha já alguma dimensão para que cresça efetivamente» dentro dos padrões standard do mercado.
«Quando colocamos peixe muito pequeno nas jaulas somos obrigados a usar redes de malha muito apertada que são mais vulneráveis e sujeitas aos efeitos das tempestades. Não faz sentido nenhum. É evidente que os piscicultores o fazem, mas isso penaliza-os em termos comerciais, e em termos de ciclos de crescimento».
Dito isto, a questão é saber se os novos players do mercado estão sensíveis a implementar estas estratégias. «Sim, e estão a tentar resolver. Mas em Portugal tudo é um caminho longo. Tudo leva 10 vezes mais tempo que em qualquer outro sítio. Também é interessante o facto que são as empresas de retalho que estão a fazer grandes investimentos, porque precisam para fornecer os seus supermercados».
«É uma questão de espaço. Uma empresa de aquacultura precisa de 20 a 30 hectares em terra. O espaço disponível em terra ou é reserva agrícola, em vez de ser reserva alimentar (um conceito que seria interessante) ou então, são zonas protegidas ou supostamente protegidas em que ninguém sabe, às vezes, o que é que anda a proteger. Ficou assim há 20 anos e pronto», critica.
Hub Azul do Algarve será realidade em 2025
Pedro Pousão preside também a direção do S2AQUAcoLAB, um laboratório colaborativo, fundado em Olhão, em 2021, que junta instituições de investigação e desenvolvimento experimental, várias empresas, o município de Olhão e uma cooperativa do sector da aquacultura.
Do ponto de vista formal, o S2AQUAcoLAB é uma associação sem fins lucrativos cujo objetivo é alavancar a inovação, facilitar a transferência de conhecimento e tecnologia e a criação de novos produtos. E ainda, aumentar a produção em 25 mil toneladas até 2030.
«Acho que está pujante e começamos a ter bastante trabalho. Quando tivermos o Hub Azul do Algarve construído no porto de pesca Olhão, poderemos dar uma resposta ainda melhor. Mas neste momento, temos uma série de projetos com empresas em marcha».

A infraestrutura «tem de estar pronta em 2025. O projeto está feito e entregue. A Câmara Municipal de Olhão está a terminar a parte burocrática, pois necessita de autorizações para iniciar a obra», e está garantido o financiamento do PRR de 4 milhões de euros.
Pousão não teme a instabilidade política. «O PPR está em marcha em Olhão ou qualquer outra parte do país. Tenha caído ou não o governo, continuo a trabalhar todos os dias. E o próximo executivo não vai mudar completamente a filosofia do país, até porque estamos a falar de fundos aprovados pela Europa».
