Ruínas Romanas de Milreu, em Estoi, recebem obras financiadas pelo PRR, que renovam acessibilidades, percurso e valorizam elementos arquitetónicos do templo.
Os grandes blocos arquitetónicos do templo romano das Ruínas Romanas de Milreu, em Estoi, vão ser deslocados para uma nova localização, numa operação delicada que vai envolver levantamento tridimensional, conservação e restauro, cintagem das peças e recurso a uma grua de grande tonelagem.
Este é um dos detalhes mais sensíveis da intervenção que está em curso naquele monumento do concelho de Faro, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com o objetivo de melhorar as acessibilidades, as condições de trabalho da equipa e, sobretudo, a experiência dos visitantes, sobretudo daqueles com necessidades especiais ou mobilidade reduzida.
Segundo explicou hoje Fernando Santos, da empresa Engobe – Arqueologia e Património, Lda., durante uma visita aberta ao público para dar a conhecer o andamento dos trabalhos, os blocos resultam dos derrubes da estrutura original e «foram colocados aqui temporariamente há cerca de 40 anos».

«Na altura, com o apoio de uma grua do Exército, estes elementos foram removidos de onde tinham caído. Essa intervenção permitiu também alguma investigação arqueológica e a escavação de algumas sepulturas paleocristãs» que ocupavam uma zona em redor do templo.
Agora, «vão ser movidos» para abrir caminho ao renovado percurso expositivo e, ao mesmo tempo, para «valorizar a leitura destes elementos arquitetónicos».
À primeira vista, explicou o arqueólogo, parecem apenas «blocos de pedra. Mas são elementos fundamentais para a interpretação do monumento», frisou.
«Vamos tentar colocá-los numa posição correta para permitir ao visitante perceber a que parte do edifício pertenciam. É interessante ver que existem detalhes construtivos especializados. Não são apenas tijolos normais, alguns são biselados, e também é possível observar os arranques das abóbadas», explicou.

Ou seja, «é com base nestes pequenos detalhes que se chega à forma clássica do templo. Não basta ler o tratado de Vitrúvio e assumir que era tudo igual» na arquitetura romana, e muito menos em Milreu.
O arqueólogo revelou que esta será «uma operação muito delicada». Antes disso, a equipa fará um levantamento 3D de cada uma das peças para garantir que, «se algo correr mal — e é sempre possível que corra — toda a informação fique salvaguardada».
«Depois, com calma, procederemos à elevação e deslocação» para o novo ponto, a oeste do templo romano. «Ainda estamos a estudar se será necessário colocar alguma estrutura por baixo, mas provavelmente ficarão diretamente sobre o terreno», revelou.
«O objetivo é alinhá-los para que, ao percorrer este circuito, seja possível observá-los e interpretá-los sem necessidade de entrar na área arqueológica. Devem ser acompanhados por uma placa explicativa que identifique a parte do templo a que pertencem», acrescentou.
Pedra vulcânica: de onde veio?
Santos apontou ainda para uma particularidade relacionada com os materiais de construção do templo de Milreu, ainda hoje bem preservados.
«Na época romana utilizava-se aquilo a que chamamos opus caementicium, material com grande capacidade de presa e elevada resistência. Os romanos começaram a experimentar estas argamassas com a incorporação de cinzas vulcânicas, cuja presença de pozzolana reforça significativamente a sua integridade», explicou.
O curioso é que «um colega nosso começou a notar a presença de pequenos elementos que se conseguem observar a olho nu, pequenas partículas avermelhadas».
Depois de analisadas, os resultados indicaram tratar-se de pedra vulcânica, inexistente nas redondezas de Faro. «É um dado muito curioso porque levanta várias questões. De facto, houve um empenho tão grande nesta construção que alguns materiais foram trazidos de fora», afirmou.
«Sabemos que existem pedras desta natureza na Andaluzia e talvez seja a explicação mais simples, pois será mais difícil acreditar que viessem da Península Itálica. Mas não deixa de ser um dado importante para compreender o empenho e a mestria investidos na construção deste templo que, ainda hoje, apesar de muito destruído, continua a ser uma obra de arte. E mostra que existe aqui muita engenharia e materiais de enorme qualidade. É algo verdadeiramente impressionante», considerou.
Rampa inclinada: erro, acaso ou achado escondido?
Apesar da particularidade do sítio, a equipa da Engobe está a tratar a intervenção em Milreu como qualquer outra operação de acompanhamento arqueológico, para que a obra possa ocorrer com o mínimo possível de danos no património.
«Ou então, quando não há outra hipótese senão destruir, que isso seja feito depois de existir todo o registo necessário para memória futura. Isto é uma responsabilidade social e é a nossa obrigação cívica preservar esta memória que é coletiva», explicou Fernando Santos.
Resumindo: «o que está a acontecer faz parte de um projeto que tenta criar um percurso adaptado para pessoas com mobilidade reduzida e também melhorar um pouco as instalações, o centro de acolhimento e a própria envolvente. Há também aqui um projeto de paisagismo que vai permitir melhorar um pouco a leitura do que era a flora em época romana», revelou.
A obra pretende criar duas rampas. Uma vai permitir ao público aceder à parte exterior do recinto no final da visita. A outra será uma rampa de serviço, de acesso para viaturas.
«Às vezes é preciso entrar aqui para limpar, carregar coisas, montar palcos. Quando foi construída, em 1999, a rampa ficou com uma inclinação que não é a mais adequada. Havia uma dúvida: será porque existia ali alguma estrutura arqueológica que não podia ser desmontada ou tinha sido apenas um erro de projeto? Agora achamos que é mais a segunda hipótese», afirmou.
Em ambos os casos, as sondagens permitiram perceber que está tudo bem e deu luz verde», até porque o projeto foi «muito ponderado para ser o menos intrusivo possível».
«Existem estas duas rampas, que têm alguma profundidade, e, fora isso, não há mais nenhuma estrutura que obrigue a qualquer escavação», acrescentou.
A intervenção inclui também um novo pavimento, colocado junto ao original, que em certas zonas «vai tentar igualar o mais possível os níveis originais de circulação, permitindo compreender as altimetrias e distinguir aquilo que é original daquilo que foi agora acrescentado».
«Haverá alguns locais de descanso e contemplação, materializados em pequenos bancos colocados ao longo do percurso. E sim, acho que a experiência do visitante vai melhorar bastante», afirmou.

Milreu ainda tem muito por contar
A equipa já tinha informação sobre aquilo que tinha acontecido no local nos últimos anos.
Na zona do centro interpretativo, «foi escavada uma necrópole paleocristã em 1999 e, portanto, sabíamos que podíamos encontrar alguns vestígios». Mas não aconteceu.
«O que encontrámos foi aquilo que já esperávamos, também com base nas informações do professor João Pedro Bernardes (da Universidade do Algarve), que é consultor deste projeto e acompanhou as soluções escolhidas. Existiriam alguns depósitos resultantes das muitas escavações realizadas ao longo do século XX. E foi isso que encontrámos», esclareceu Fernando Santos.
«Encontrámos coisas recentes, as valas de fundação associadas à construção do edifício de apoio e aquilo que, em arqueologia, chamamos depósitos secundários – materiais que foram alterados recentemente», explicou.
Ainda assim, o investigador não descarta surpresas. «É sempre possível encontrar alguma coisa que não se esteja à espera», afirmou, mesmo em contexto preventivo, até porque em Milreu, o interesse científico está longe de estar esgotado. «Quanto ao subsolo, ainda há muita coisa por descobrir», disse.
Sobre novas escavações, «o professor João Pedro Bernardes (da Universidade do Algarve) tem programadas algumas campanhas cirúrgicas este verão», à semelhança do que tem vindo a ser feito ao longo dos últimos anos.

«Além da investigação realizada através de novas escavações, existe a baseada nos materiais que daqui saíram, não só em Portugal, mas também no estrangeiro. Há muitos estudantes de mestrado que continuam a pegar neste tema para o estudar», apontou.
A nascente do perímetro, na zona do Laranjal, existe um pomar de laranjas com cerca de 5000 metros quadrados. Fernando Santos confirmou que se sabe da existência de mais estruturas nessa zona, algumas já intervencionadas há vários anos.
Quanto a uma possível expansão do perímetro, «de momento não existe nada em cima da mesa, mas isso não quer dizer que, no futuro, não se possa pensar nessa possibilidade», admitiu. Ainda assim, o arqueólogo defende que a prioridade deve ser outra.
Santos lembra que a manutenção dos sítios arqueológicos é o grande desafio.
«Considero mais urgente conservar a área que já está descoberta do que tentar abrir novas áreas que, por muito interessantes que sejam, implicam sempre uma responsabilidade de manutenção e conservação», rematou.
«Era ótimo existirem PRR todos os anos para a financiar, mas existem apenas para objetivos específicos», disse. Por isso, «acabam por existir poucos recursos para manter aquilo que foi feito».
«Sempre que se coloca alguma coisa a descoberto ou se musealiza um espaço para visita, é preciso perceber que isso vai implicar trabalhos permanentes de conservação e manutenção. É por isso que muitas vezes é necessário escavar, registar e voltar a tapar», acrescentou.
«Obra muito importante» para Milreu
A requalificação do monumento, financiada pelo PRR, tem como objetivo oficial melhorar as condições de acolhimento e acessibilidade nas Ruínas Romanas de Milreu, que se encontram temporariamente encerradas desde 27 de abril.
A empreitada representa um investimento de 993.820,09 euros, acrescido de IVA, e tem um prazo previsto de execução de 120 dias.
No âmbito das Jornadas Europeias da Arqueologia, realizou-se uma visita aos trabalhos em curso nas Ruínas Romanas de Milreu, de acordo com o tema deste ano, «Arqueologia a Acontecer», esta sexta-feira, dia 12 de junho.
Isabel Pinto, chefe da Divisão Teodemirvs – Tesouros da Herança Cultural Portuguesa – Divisão de Projeto, do Património Cultural, instituto público que agora tutela o monumento algarvio, disse ao barlavento que «é uma intervenção muito importante» com duas ações em desenvolvimento.
Uma das quais está centrada no centro de acolhimento de visitantes. «Vamos reformular toda essa área, as instalações sanitárias e também os gabinetes de trabalho dos funcionários. As melhorias serão feitas não só ao nível dos acessos, mas também das condições de temperatura e humidade».

A segunda frente de obra está centrada no espaço exterior, «sobretudo na acessibilidade. Um dos grandes problemas relacionados com a circulação dos visitantes era a forma como podiam fazer a visita e percorrer o espaço arqueológico. Tínhamos um percurso sinalizado, mas já não correspondia às necessidades atuais. Por isso, foi pensada uma intervenção pouco intrusiva, procurando perceber de que forma poderíamos melhorar» e torná-lo acessível a «utilizadores de cadeiras de rodas, visitantes de idade mais avançada ou pessoas que necessitam de recorrer a muletas».
Isabel Pinto diz que este monumento é bastante procurado sobretudo por visitantes estrangeiros: «Milreu é uma grande joia e quem vem cá, sabe ao que vem. Espera encontrar um grande espaço patrimonial».

«A procura pelo património por parte dos visitantes nacionais é uma questão que sentimos em muitos outros monumentos e não apenas em sítios arqueológicos. Estou a falar também de mosteiros, conventos e castelos. Neste momento, temos muito interesse e muita procura por parte de estrangeiros não residentes em Portugal e, em segundo lugar, de portugueses. Portanto, esse é um trabalho que o Ministério da Cultura tem consciência de que necessita de ser feito», concluiu.
A sessão contou ainda com a presença de Bruno Inácio, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve; Frederico Tatá Regala, diretor de serviço da Unidade de Cultura da CCDR Algarve; Luís Barriga, presidente da Junta de Freguesia de Estoi; e de representantes da Nobislux Engenharia.
A evolução dos trabalhos poderá ser acompanhada nas redes sociais e está prevista mais uma visita aberta ao público aquando da conclusão.


