Projeto piloto de valorização de carne de ovelhas da raça churra algarvia começa a fornecer a restauração coletiva, a partir de maio, segundo o coordenador Manuel Serra.
É o culminar de dois anos de trabalho com «muita investigação, evoluções significativas, retrocessos e adaptações» para poder aproveitar ao máximo o potencial da ovelha churra algarvia em diferentes mesas, explicou ao barlavento Manuel Serra, investigador da Universidade do Algarve (UAlg).
O projeto piloto arranca com o lançamento da marca «Saborear o Algarve», apresentada na manhã de quarta-feira, dia 26 de fevereiro, nas instalações da ex-Direção Regional de Agricultura e Pescas, no Patacão, em Faro.
Arranca com «um produto inovador à base de carne de ovelha churra, neste caso borregos churros, e que queremos utilizar primeiramente no canal da restauração coletiva» – cantinas escolares, refeitórios de entidades públicas, empresas e associações e lares de idosos.
«A carne é ultracongelada e vai ser confeccionada nos locais onde será consumida. Dentro da rede de parceiros do projeto, vamos ter possibilidade de ir às cantinas e capacitar as pessoas para, de uma forma muito simples, poderem confeccionar o produto de forma saudável e associada aos princípios de Dieta Mediterrânea», refere.
Serra acredita que vai ser bem aceite. «Sim, temos bons indicadores, porque o produto tem sido testado tanto em eventos com provadores de várias faixas etárias e também com profissionais da área».
«Criámos formulações diferentes, adaptadas também à percepção do gosto por diferentes faixas etárias. Há as que apreciam mais o gosto característico da carne e outras que tendem a valorizar um gosto mais disfarçado», descreve.
Em relação à comercialização, «a legislação hoje já permite, a quem faz aquisições em grande quantidade, colocar nos calendários de encargos informação sobre as questões de proximidade e qualidade no abastecimento, e até em termos de circuitos curtos de abastecimento alimentar», referiu.
O projeto piloto envolve a Associação de Criadores de Gado do Algarve (ASCAL), a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, o produtor de enchidos tradicionais Feito no Zambujal (de Vaqueiros, Alcoutim) e ainda os serviços de Ação Social da UAlg, «que é onde vamos fazer o teste com o fornecimento de aproximadamente 600 refeições» aos estudantes.
«Esperamos, durante a segunda metade do mês de maio, ter tudo em funcionamento, e verificar os resultados», previu.
Enchidos e «Churritas»
Numa segunda fase, a ovelha churra algarvia terá também saída no canal Horeca, para a restauração tradicional, para nichos de catering e eventos, e ainda, o mercado gourmet.
«Dentro das várias peças que o animal disponibiliza, nem todas vão para a restauração coletiva. Trabalhamos a perna e a pá para a elaboração das Churritas, depois temos o peito, o pescoço e a cabeça, que podem ser utilizados na restauração tradicional» de nicho.
Uma criação inovadora é a «Churrita», um preparado de carne desenvolvido no âmbito do projeto Revitalgarve. «Não lhe queremos chamar almôndegas. É um processado de carne, com quatro ou cinco ingredientes naturais, sem conservantes. Já fizemos análises nutricionais e está pronto a ser consumido e comercializado», garante.
As «Churritas» são servidas em suculentos pedaços, cozinhados em lume brando até atingirem a perfeição, absorvendo uma combinação de aromáticas e especiarias que realçam o sabor natural. Podem ser acompanhadas, por exemplo, por molho de tomate.
No futuro, «quando estes produtos estiverem no mercado, terão uma rotulagem com os conceitos de preparação. Naturalmente que vamos querer chegar aos consumidores, numa relação comercial entre quem produz e quem consome», conclui
Cantinas vão «Saborear o Algarve»
A marca «Saborear o Algarve» tem por objetivo representar a Rede de Produtores Locais do Algarve (RPLA) e criar um selo de qualidade para a agricultura da região. Os produtores e transformadores interessados podem desde já aderir.
Ouvido pelo barlavento, Artur Gregório, antropólogo e especialista em Desenvolvimento Local Sustentável da Associação In Loco, explicou que a restauração coletiva é o público prioritário e inicial da marca, quer «pelo número de refeições» em causa, quer «pelo facto de serem suportadas pelo Orçamento de Estado e sobretudo, pelo facto de haver muitas fragilidades no sistema alimentar para o abastecimento das escolas»
Para isso, «estamos a construir uma proposta de ementas para todas as escolas da região, baseadas na Dieta Mediterrânica e na produção local e sazonal» da RPLA.
Por outro lado, em termos de visibilidade junto do público, «queremos que os produtores possam mostrar o nosso selo nos mercados locais» onde vendem, de forma a garantirem que se tratam de «produtos locais, regionais e que cumprem com os critérios e o regulamento da rede».
«O nosso objetivo não é acrescentar mais complexidade àquilo que já é exigido pela administração central. O que queremos é atestar confiança, a quem cumpre as regras de higiene sanitária, que os produtos são locais e sazonais, tal como está escrito no regulamento da marca», acrescenta.
Para já, a rede conta com mais de uma dúzia de aderentes, mas ainda é cedo para contabilizar, pois as inscrições apenas abriram há menos de uma semana.
Questionado sobre se há produção suficiente para chegar os diferentes canais, Artur Gregório, responde que sim e justifica.
«No projeto anterior a este, o Sistemas Alimentares Sustentáveis, que foi promovido pela AMAL, ficámos surpreendidos quando fizemos um inquérito a 160 explorações agrícolas do Algarve. Têm uma grande diversidade de produção e capacidade para a aumentar. Se nós, pela parte do consumo organizado, conseguirmos dar feedback aos produtores no seguimento das ementas escolares que estão a ser preparadas, os produtores podem não só aumentar a produção, como também reconverter algumas explorações para aquilo que efetivamente é necessário e produzir. Essa otimização é possível».
Para Artur Gregório, a ovelha churra é «um dos exemplos de produtos que têm um grande potencial de afirmação», tal como «a cavala e o figo. O canal Horeca tem grande apetência para este tipo de produtos diferenciados mas, de alguma forma, a alimentação escolar também pode ser um bom consumidor».
