Milhares de peixes criados em cativeiro na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) do IPMA, em Olhão, foram libertados ao largo da Armona e na Ria Formosa.
Uma manhã de bom tempo facilitou o trabalho dos investigadores da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em Olhão, na quinta-feira, dia 7 de dezembro.
A bordo de uma das embarcações de carga da empresa Tunipex, seguiu um carregamento especial com o triplo da densidade normal para estas entregas, com dourada (Sparus aurata), corvina (Argyrosomus regius) e robalo (Dicentrarchus labrax).
Segundo a bióloga Ana Isabel Mendes, «todos os anos fazemos uma a duas vezes este tipo de ações, com os peixes que produzimos para os diferentes ensaios, no âmbito dos vários projetos que decorrem na EPPO. Sobram sempre alguns juvenis, de maior ou menor tamanho, conforme os trabalhos que estão a decorrer, e tentamos sempre que alguns desses juvenis, que não têm outro fim, sirvam para manter algumas das populações nos recifes artificiais que o IPMA criou» ao largo da Armona, a cerca de duas milhas a sudeste (SE) do Cabo de Santa Maria na costa do Sotavento algarvio.

«É um número que consideramos suficiente para criar manter alguma população das espécies que também têm interesse para a economia local», acrescenta.
Ao longo do percurso, a equipa vai monitorizado a saturação de oxigénio nas dornas, uma tarefa a cargo de Bárbara Requeijo e Mafalda Rocha. Formadas em Peniche, vieram terminar os estudos na EPPO de Olhão e hoje são técnicas de aquacultura do laboratório Colaborativo S2AQUAcoLAB, cujo objetivo principal é transformar a aquacultura num sector mais sustentável e inteligente.
O papel de ambas a bordo, segundo Requeijo, é «sobretudo prático» e delicado, já que as dornas têm uma concentração de 150 quilos de peixe por metro cúbico (m3).
O transporte de peixe vivo é uma operação delicada. É preciso coordenar vários passos e equipamento pesado, neste caso, um camião e navio com grua. Primeiro é preciso transportar as dornas cheias deste a EPPO, junto ao Parque Natural da Ria Formosa, até ao Porto de Pesca de Olhão. Depois, no final da viagem, cada dorna é cuidadosamente içada e colocada no mar, de forma a que os peixes possam sair.
Na verdade, o trabalho de preparação começou quatro dias antes, no início da semana. «Não é apenas este dia que tudo acontece. É preciso colocar os peixes em jejum devido ao stresse» da mudança de ambiente.
Ambas estão envolvidas no projeto Vertical Algas e também no biobanco, que deverão ganhar um novo fôlego, de novos ensaios, no início de 2024.
Ana Mendes acrescenta que devido ao facto de terem nascido num habitat protegido «estes peixes são muito mais ingénuos do que os nascem selvagens. Estão habituados a estar confinados e a serem alimentados».
A bióloga estima que destes 10 mil peixes «se sobreviverem, 10 ou 20 por cento, já é algum sucesso» para os objetivos de recrutamento de mais recursos marinhos.
Ao contrário do que acontecia no passado, nenhum deste pescado tem chip para controlar a amostra ou o destino.
«Não, isso foram trabalhos feitos há 20 anos, quando começamos a libertação no recife artificial. Eram os chamados peixes de bandeirinha que os pescadores depois recolhiam. Tivemos bons resultados nos estudos e percebeu-se qual era a migração e também que havia alguma fixação no recife, portanto, hoje já não há um projeto direcionado nesse sentido. A informação recolhida foi suficiente e é por isso também que mantemos estas ações», justificou.
Em relação ao elevado número de peixes, a bióloga do IPMA explica que esta «era a última oportunidade para fazermos a libertação este ano. Contamos sempre com a colaboração da Tunipex, que nos ajuda com esta logística, pois o IPMA não tem embarcação» adequada para a tarefa, e «foi a agenda possível dentro da operação e da atividade da empresa. Era a janela de intervalo que tínhamos. Tentámos otimizar o transporte, aumentámos um bocadinho a carga, mas tudo dentro dos limites de segurança. As águas estão mais frias, portanto é mais fácil para o metabolismo dos peixes».
Ainda assim, a diferença de temperatura foi cerca de 2°C. Nos tanques em terra, por causa do arrefecimento noturno, a temperatura da água ronda os 15,5°C e o mar estava a cerca de 17°C.
Mesmo para peixes deste porte «é problemático porque se trata de uma mudança abrupta e contínua. Mas nós fizemos a devida adaptação e, portanto, correu tudo bem», considerou.
A libertação anterior a esta teve lugar no final de agosto, de forma a contribuir para o aumento dos efetivos no recrutamento anual de espécies que devido ao seu elevado valor económico, sofrem uma grande pressão piscatória, à qual se acrescenta, nos meses de veraneio, a pesca amadora.
A próxima ação será em 2024, «até porque agora começa a época da reprodução dos peixes. Talvez na primavera ou verão é que teremos peixe com tamanho suficiente» para ser largado na natureza.
Entretanto, a EPPO está a fervilhar de atividade. «Continuamos a fazer de tudo um pouco. No que toca à aquacultura, mantemos os projetos que estão a decorrer dentro daquilo que se considera importante desenvolver para a área. Temos de estar sempre um passo à frente do que a indústria pretende e do que se pensa que seja o futuro. Há essa necessidade de estar sempre a antecipar o que é que o mercado pretende e, portanto, ajudar a desenvolver a aquacultura nesse sentido, ver quais são as necessidades e os problemas que irão surgir se quisermos desenvolver uma determinada atividade. É sempre nesse sentido que tentamos trabalhar, aumentando o conhecimento para reduzir as dificuldades».
Questionada sobre o projeto de reprodução de sardinha (Sardina pilchardus) em cativeiro, que tanta tinta fez correr, Ana Mendes, confidencia que «estamos contentes em poder dizer que foi mais fácil daquilo que pensávamos. Porque sendo a sardinha, um peixe muito sensível e com uma grande perda de escama, estávamos um bocadinho assustados, no sentido em que havia uma pressão muito grande a nível da tutela de obter rapidamente resultados. E, em ciências, os resultados não são obtidos rapidamente porque é preciso tempo. Todos os estudos levam o seu tempo para terem dados válidos para se interpretar. E qualquer trabalho com organismos vivos, precisamos de respeitar os seus ritmos».
E ainda por cima tratando-se de uma espécie «que nunca tínhamos feito reprodução, havia essa dificuldade acrescida. A verdade é que se conseguiu fechar o ciclo e algumas das sardinhas capturadas ainda estão vivas».
Na sexta-feira, 4 de maio de 2018, a embarcação «Aragão» da Tunipex e vários colaboradores da empresa (que nesta altura do ano já estava em atividade na armação do atum ao largo da Armona), a tripulação da traineira «Samuelito» e três cientistas da EPPO capturaram cerca de 2000 sardinhas e trouxeram-nas vivas para terra com o objetivo de dar um impulso ao estudo da produção de sardinha em cativeiro, investigação que já decorria desde 2016.
«Sim, a diferença é que em comparação com outras espécies com que trabalhamos, as sardinhas têm diferentes ciclos. E por isso tivemos de adaptar os nossos tanques e toda a parte técnica. Mas, fechámos o ciclo de vida, já temos bisnetos». Algumas das sardinhas capturadas há cinco anos, ainda estão vivas.
Em terra, junto à comporta de entrada de água da EPPO, uma outra equipa liderada por Marisa Barata fazia um trabalho coordenado para libertar o peixe que não se conseguiu levar a bordo. Com recurso a camaroeiros e a força braçal, o pescado passou de mão em mão para ser libertado na Ria Formosa, segundo Barata, um complemento também importante para a atividade piscatória local.

































