A Quinta dos Sentidos é uma vasta herdade algarvia que produz vinhos, azeite e uma variedade extraordinária de frutas, junto ao Arade, em Silves.
O que seria um hobby para muitos de nós, para Beat Buchmann e Charlotte Toubro transformou-se num projeto de vida. Reformados de carreiras empresariais de sucesso na Suíça, o casal suíço-dinamarquês mudou-se para o Algarve, onde embarcou numa aventura inesperada. Com poucos conhecimentos de agricultura, mas com muita determinação, criaram a Quinta dos Sentidos, uma propriedade vitivinícola única e com uma variedade de produtos frutícolas que deliciam todos os sentidos.
Em 2005, durante uma viagem ao Algarve, um terreno coberto de vegetação e com uma ruína, perto do Rio Arade, em Silves, chamou a atenção do casal.
No topo de uma colina rochosa com uma vista pitoresca sobre Monchique, este terreno de nove hectares revelou-se um verdadeiro diamante em bruto. Depois de limpo, escavado e ajardinado, o seu verdadeiro potencial foi revelado. O vinho não fazia parte do plano inicial.
No entanto, como amadores no ramo, a ideia surgiu organicamente. Apercebendo-se de que tinham terreno «de sobra», contactaram o enólogo consultor Alain Bramaz (da Quinta do Zambujeiro, no Alentejo) para pedir a sua ajuda nesta aventura. O enólogo suíço aceitou de bom grado o desafio, numa tentativa de «provar que é possível produzir vinho de qualidade no Algarve», recorda Charlotte. «Ele tem sido o nosso espírito orientador, concebeu a funcionalidade da adega e ajudou-nos a escolher as castas a plantar». Juntos, plantaram cerca de quatro hectares de vinha: os tintos – Touriga Nacional, Syrah, Tinta Caiada e Aragonez – em 2012, e os brancos – Arinto e Antão Vaz – em 2016.
As vinhas foram plantadas nas encostas viradas a sul, oeste e leste da propriedade, sendo a vinha virada a oeste a mais íngreme, fazendo lembrar a região vinícola de Mosel. Foi também aqui que Beat criou os seus projetos especiais: uma vinha experimental com 50 castas portuguesas para estudar o potencial de cada variedade e fazer micro-vinificações. E ao lado do Arinto e do Antão Vaz, foi plantada uma nova vinha com a casta suíça Petite Arvine, conhecida como a «diva» das castas suíças devido à sua natureza caprichosa, de difícil cultivo.
Em 2016, estavam prontos para vinificar o seu primeiro vinho, que foi lançado em 2018. O nome, Tato Tinto, surgiu intuitivamente. «O que realmente definiu os nossos primeiros dez anos aqui foram as pedras», exclama Charlotte.
«Tínhamos aqui milhares de pedras, das limpezas das vinhas e da escavação do terreno para construir a casa. Mas é lindo este grés vermelho de Silves, e pensámos: isto é o que realmente define este lugar». O Tato tornou-se, assim, no vinho emblemático da adega, com uma imagem das famosas pedras no rótulo.

O portifólio da herdade tem crescido exponencialmente e hoje apresenta vários «sentidos»: Tato, Paladar, Visão e Olfato, cada um deles vinificado de forma diferente e revelando individualmente a riqueza do terroir. Os vinhos de gama de entrada, o Paladar Branco 2023 (€12), um blanc de noir leve e fresco feito com as quatro castas tintas da propriedade, e o Paladar Tinto 2021 (€12), um blend estilo Pinot Noir de Tinta Caiada e Aragonez, são ambos vinhos fáceis de beber. Tal como o Visão Rosé 2022 (€15), um rosé com uma apresentação belíssima e muito seco, de cor rosa-salmão claro, com aromas a frutos vermelhos.
O Tato Branco 2022 (€24), um blend gastronómico de Arinto e Antão Vaz envelhecido em barricas de carvalho americano e francês, e o Tato Tinto 2020 (€32), um blend complexo de Touriga Nacional, Tinta Caiada e Syrah, com taninos muito suaves, vão envelhecer bem em garrafa.
Os vinhos premium da adega são o Quinta dos Sentidos 2018 (€50), feito totalmente com Touriga Nacional, lançado apenas em anos excecionais, «quando o vinho é extraordinário», diz Beat, e o Olfato Tinto 2021 (€37), feito totalmente com Syrah.
«De vez em quando, deparamo-nos com uma barrica que é de outro mundo e engarrafamo-la», a qual produz apenas 300 garrafas. Há ainda o Cru, uma nova gama de vinhos não filtrados que o enólogo residente André Palma tem vindo a desenvolver. O Cru Branco 2023 (€19), envelhecido em ânfora, é um blend de 70 por cento de Petite Arvine e 30 por cento de uma mistura de 30 castas da vinha experimental, e o Cru Tinto 2021 (€19) é um lote piloto de Tinta Caiada e Aragonez.
Entre os projetos complementares contam-se o Essência (€20), um tinto de colheita tardia feito totalmente com uvas Touriga Nacional, que combina lindamente com chocolate preto, e o Verjus (€11 e €17), feito a partir de uvas verdes e que é agora utilizado para fazer cocktails sem álcool, marinadas, molhos para saladas e deglacear molhos, «porque tem uma acidez muito neutra», explica Beat.
Para garantir a excelência dos seus vinhos, praticam um rigoroso desbaste da produção – um processo que envolve remover frutos extra da vinha para permitir que as uvas de qualidade superior absorvam mais nutrientes e intensifiquem os seus sabores – e fazem uma seleção meticulosa das uvas.
Com estas técnicas de reforço de qualidade, limitam a sua produção anual para entre 12 mil e 14 mil garrafas, metade das quais são exportadas para a Suíça e a Holanda.
Mas a Quinta dos Sentidos é muito mais do que uma adega. A sua coleção de árvores de fruto é inigualável na região. «Temos hoje cerca de 40 tipos de citrinos diferentes», sublinha Beat, incluindo espécies como a lima caviar, que têm despertado a curiosidade de vários chefs Michelin. Normalmente, além das espécies autóctones, «prosperam aqui frutos da África do Sul, do Sudeste Asiático e da Califórnia», explica Charlotte, como laranja bergamota, lima kaffir, yuzu, limão-cravo, carambola, lichias e sapotepreto (Diospyros Nigra).
Destacando os sabores mediterrânicos de excelência, as variedades de azeitona Galega, Maçanilha, Picual, Negrinha, Hojiblanca e Cobrançosa, que compõem o olival de 650 árvores, são prensadas na quinta para produzir azeites monovarietais sedosos (€17) e azeites de mistura (€11 e €17).
Enquanto Beat é um amante de árvores de fruto, a paixão de Charlotte reside no multicolorido jardim botânico, onde já plantou 238 espécies de flores, arbustos e árvores para encantar ainda mais os sentidos.







