Rui Rio deu «medalha de latão» ao PS na Festa do Pontal em Monchique

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Acusações de nepotismo, oportunidades de governação perdidas e abandono da saúde pública marcaram as intervenções políticas na Festa do Pontal. Alvo de todas a críticas foi o Partido Socialista (PS) com Rui Rio a declarar guerra ao centralismo.

Um ocaso de tons laranja, já a marcar o final do verão, começava a descer para lá da Fóia enquanto os simpatizantes e militantes do Partido Social Democrata (PSD) esperavam as intervenções políticas na deslocalizada Festa do Pontal, no Largo do Mirante, em Monchique, no sábado, 31 de agosto.

Rui André, o autarca e anfitrião, abriu os discursos, lembrando o primeiro comício de Francisco Sá Carneiro no Algarve, naquele mesmo local, no ano quente de 1975. Recordar a efeméride foi também uma forma de homenagear «todos os que deram o seu empenho para que pessoas como eu, tivessem nascido já em democracia. Mas muitas vezes nos questionamos se não será necessário fazer tudo de novo. Os últimos tempos têm-nos mostrado que falta ainda muito para construir esta democracia», começou por criticar.

Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique.

Rui André, o primeiro a usar da palavra, reiterou a confiança no «homem que pode trazer ao nosso país uma nova esperança. Que pode pôr fim a este ciclo de cenários cor de rosa que nós só ouvimos na televisão, mas que no dia a dia, vemos que é tudo mentira e que não passa de uma grande propaganda», disse. E aproveitou para esclarecer que «a verdadeira razão da presença desta festa aqui, não é o partido querer mostrar solidariedade para com as pessoas de Monchique. Nós não gostamos que tenham pena de nós. Queremos é aquilo a que temos direito, que outros receberam e nós não. O PSD está a chamar a atenção para Monchique. São muitos os políticos, os governantes que vieram todos os dias aqui, mas que passado este tempo todo, parece que se esqueceram das promessas que fizeram», lembrou. «É sinal do que acontece na região. O Algarve é das regiões que mais contribui para o Orçamento de Estado. Em troca, recebemos nada ou muito pouco. A saúde é uma vergonha. As infraestruturas são uma vergonha, a rede viária é uma vergonha, a mobilidade está muito atrasada e depois queremos conquistar médicos e quadros superiores. Quem é que quer vir para uma região que tem sol e praia, mas que lhe falta isto tudo?», ironizou o autarca.

Luís Grade, presidente da concelhia do PSD Monchique.

Por sua vez, Luís Grade, presidente da concelhia do PSD Monchique, lembrou que «o interior do país, com a sua desertificação, não dá muitos votos e por isso é sistematicamente esquecido pelo poder central. Faço um apelo a Rui Rio que quando for primeiro-ministro olhe para o mundo rural de forma mais preocupada que o atual governo que se tem votado ao anúncio de medidas e intervenções que acabam por não ser concretizadas».

Bárbara do Amaral Correia, presidente da JSD Algarve, realçou que «a ordenação do território, o combate à desflorestação, a proteção do nosso património ecológico e o combate aos incêndios é um dever primordial num Estado. É um assunto que deve estar acima dos cortes orçamentais, das cativações e da restante trupe de desonestos malabarismos a que o PS nos tem habituado».

Bárbara do Amaral Correia, presidente da JSD Algarve.

Ao lado dos candidatos de todo o país, o cabeça de lista algarvio Cristóvão Norte, foi mais uma voz no coro de críticas ao PS, centrando a sua intervenção na problemática da saúde. «Aqueles que diziam que o investimento público era o Alfa e o Ómega da sua intervenção são aqueles que investem menos na saúde, não apenas no Algarve, mas em todo o país, cerca de menos 3 mil milhões de euros em comparação a 2015».

Cristóvão Norte centrou o discurso no tema da saúde.

«Este governo recebeu ventos favoráveis do ponto de vista internacional, uma economia a recuperar, as finanças públicas a caminhar para estarem em ordem. É sob este quadro que se deve proceder a um exame deste exercício de governação dos últimos quatro anos. Para o Algarve é absolutamente trágico», disse.

«A hemorragia não estanca, agrava-se. Aqueles que não podem ir ao privado ficam sem saúde e ficam com as suas vidas arruinadas. O Algarve era a segunda prioridade a nível nacional, mas por força de um arranjo político-partidário, foi desconsiderado, ficou para trás, ficou esquecido» em benefício de outras regiões.

«Hoje temos maternidades que em 50 dias, estão 30 fechadas. As mulheres e os bebés do Algarve estão em perigo, têm de percorrer mais de 300 quilómetros. Temos os piores dados de oferta assistencial. A saúde não chega, as macas voltaram, o investimento sumiu-se», apontou o cabeça de lista pelo Algarve.

Norte tocou ainda na requalificação da EN125. «Juraram em 2016. Insistiram em 2017. Prometeram em 2018. Garantiram em 2019. Foram ultrapassados todos os calendários e ainda hoje não temos nada. Aqueles que diziam que havia um governo que não queria fazer, são aqueles que fazem muito menos que um governo que tinha condições mais difíceis vieram a fazer. E isso tem um nome: é engano, é encenação, é uma marosca».

Estava assim aberto o caminho para Rio Rio disparar uma salva de diatribes, ou melhor, explicar «porque é o que PS não merece ganhar as eleições».

«A primeira razão é aquela em todos sabemos. Sempre assim foi no passado da governação do PS. Mas desta vez exageraram. É o facto de utilizarem o Estado para servir o próprio Partido Socialista e as suas próprias famílias. O PS sempre olhou para o Estado como dono e quando chega ao poder aproveita para se servir a si próprio. Mas este governo atingiu, talvez o máximo, que nunca tínhamos visto. Os ministros e os secretários de Estado a nomearem de forma cruzada as irmãs, os primos, as mulheres e os cunhados. É algo que não é tolerável em democracia. Como não é tolerável em democracia, os negócios que essas mesmas famílias vão fazendo também com o aparelho do Estado, seja ao nível das Câmaras Municipais, seja ao nível da administração central», criticou.

A segunda razão «é que o PS não soube e não quis aproveitar a conjuntura para relançar a economia e a confiança do país», acusou.

«A outra razão é que o PS bateu o recorde nacional da cobrança de impostos. Nunca os portugueses pagaram tantos impostos como agora. Baixou o IRS, é verdade, mas subiu muitos outros, sobretudo impostos indiretos que são mais cegos em relação aos rendimento de cada um». Um mérito que para Rui Rio merece «uma medalha de latão» e «um balde plástico» como prémio.

As propostas de governo ficaram para o fim, com uma declaração de guerra ao centralismo. «Temos um país profundamente injusto do ponto de vista territorial. Algo que, permitam-me o termo, já toca a estupidez. Tendemos a concentrarmo-nos mais na área metropolitana de Lisboa e, em parte, na do Porto, e a desertificar ainda mais o interior. E agora já não é só o interior, mas as outras partes do país que não fazem parte daquelas zonas. É uma estupidez e tem de acabar. Isto passa pela descentralização e pela desconcentração», assinalou.

«Por isso, vamos assinar aqui um contrato. Daqueles que eu até gosto. Vamos comprar um guerra. Daquelas que eu até gosto. Comprar uma guerra pela descentralização e pela desconcentração. Vamos afrontar os interesses instalados em nome de um país mais equilibrado» prometeu.

Rui Rio levou para casa uma tradicional cadeira de tesoura de Monchique.

David Santos, presidente do PSD Algarve, ofereceu uma histórica fotografia do comício de 1975 a José Boa Ventura Duarte e Armando Cereja, ambos retratados junto a uma Citröen Dyane, ao lado do fundador do PSD. E como manda a tradição, Rui Rio levou para casa uma cadeira de tesoura, artesanato tradicional de Monchique. Uma nova «cadeira do Poder», brincou David Santos.