Nos meados de 1800, os edis de Lagos demoliram todas as antigas portas da muralha defensiva da cidade medieval. Era a ânsia de acompanhar os caminhos da modernidade de então, eliminando o que era considerado como barreiras ao progresso, no despontar da era da industrialização, de que chegavam notícias. Azar. Tudo continuou como antes, comunidade artesanal meio marítima, meio rural, e parada no tempo. No início do século XX, começou a batalha pela melhoria do porto e dos acessos terrestres. Resultou na construção do Cais Novo ou Molhe dos Ingleses e, nos anos 20, na chegada do caminho de ferro. Azar. Não resultou, Lagos ficou-se por tímidas industrias, embora significativas à escala e na alteração de mentalidades locais, pela melhoria de alguma frota piscatória e pretendeu-se a expansão urbana para norte, lenta e mal conseguida. A vida da cidade continuou cercada pelas muralhas. Em finais de 1950, o azar entrou em pleno. Por razões externas, sem nada que ver com o território e a cidade, o Governo decidiu intervir em grande, pela mão e autoridade de um ministro que morria de amores por Lagos. Destruiu toda a frente urbana e portuária, natural e genuína, atirou o porto para fora da vida da cidade e, invertendo artificialmente a estrutura urbana de Lagos, impôs-lhe o aterro fora de escala para uma variante à estrada nacional, a que chamou avenida marginal, a sua menina dos olhos. Anos 2000. Continuou o azar em escala industrial. Localmente, a dominante estreiteza de vistas nem corrige o sistema de acessos artificiais a Lagos, nem restabelece a riqueza da urbanidade original da cidade marítima. Por seu lado, o Governo, inculto e ignorante, viu a cidade de Lagos como terreno de caça, no que é sancionado pelos poderes da casa. O inefável secretário de Estado da Cultura, deu um aval alucinado à asneirada histórica, mantida pela Câmara Municipal, entre vários outros mimos culturais, de se chamar mercado de escravos a um edifício renascentista que foi Vedoria e Alfandega. Vá lá que este secretário de Estado conseguiu fazer a agulha dos delírios que assinou sobre o forte da Meia Praia, mas que continua abandonado e alegremente vandalizado. Do ministro do Ambiente, novo azar. Não se consegue entender o que ele entenderá por ambiente, pelo menos no que diz respeito à belíssima Costa d´Oiro, ex-libris natural e paisagístico da Baía de Lagos. Decidiu intervir ali para «garantir a segurança de pessoas e bens» e «proteção do património construído e natural» (sic) que descobriu, ou algum passarinho lhe segredou, estarem ameaçados. E não esteve com meias medidas. Avançou energicamente, sem dó nem piedade, sobre a praia da D. Ana, joia da coroa da Costa d´Oiro e merecedora da opinião, divulgada internacionalmente, de ser das mais belas praias do mundo. Conforme informou e a Câmara Municipal subscreve com entusiasmo, o nível da areia vai subir quatro metros e a estreita praia vai ser alargada com mais quarenta metros. Azar, o facto é que a segurança das pessoas, ficaria garantida com um acesso de peões adequado no lugar da pobre escadaria de madeira que lá está pelo meio de destroços e ruínas e com a supressão dos esgotos despejados sobre a praia. A proteção do património construído e natural, seria dada pela requalificação da zona envolvente do acesso à praia e pela consolidação das arribas friáveis, onde o mar nunca chegou, para evitar a erosão pelas chuvas. Nada disto está incluído na obra em curso. Mas o ministro veio ver as obras. Concordou e foi-se embora. É ministro. Em linguagem de bom senso, a praia da D. Ana, perdidas tanto a escala e relação ambiental com o sítio envolvente, como a beleza que a ação secular da natureza lhe conferira, vai entrar no rol dos banais amplos areais, onde se podem acumular molhadas de veraneantes durante a época alta, e ser uma vulgar praia de ambiente deserto durante os restantes 10 ou 11 meses do ano. Por enquanto, a praia está coberta por um tapete de grandes pedras onde circulam poderosas máquinas. A areia, dizem, virá depois. O que o mar fará, logo se vê. O encanto e maravilha da praia da D. Ana ficam nas fotografias para memória futura. Tal como aconteceu com a frente portuária urbana da cidade de Lagos e a ponte de D. Maria. Azares. *Arquiteto