Todo o mundo é composto de mudança

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Paisagem, sendo palavra de uso comum e coisa clara que aparenta fácil compreensão, é, de facto, assunto de muitas e variadas controvérsias.

Paisagem, sendo palavra de uso comum e coisa clara que aparenta fácil compreensão, é, de facto, assunto de muitas e variadas controvérsias – a relação entre os factos e o entramado de assuntos que neles se suporta é instável, sujeita aos mais diversos processos de validação, não raro, contraditórios.

A paisagem é um suporte de representação do território, inexoravelmente influenciado pelos modos de ver, de dar a ver, e de compreender aquilo que se representa.

Neste jogo de espelhos é fácil confundir a realidade com a sua representação, tal como é difícil discernir – se isso não for explicitado – aquilo que encaminha a intencionalidade de quem representa e de quem interpreta essa representação. Assim são as imagens.

No contexto da desruralização (a desconstrução do Portugal rural pré-moderno), o Algarve é um caso especialmente disruptivo.

Com décadas de atraso face à emergência do turismo de veraneio na Europa mais desenvolvida, o Algarve vivia ainda o desmantelamento da sua base económica tradicional (agricultura e pesca), o principal motor de produção de paisagem que vinha de um tempo longo e lento por terras do litoral, do barrocal e da serra.

Dessa metamorfose rápida e tumultuosa abundam os relatos e os sinais.

O turismo, ou melhor, as múltiplas manifestações da fileira turística e das suas marcas na paisagem – hotéis, aldeamentos, golfes, resorts, casas na serra, aeroportos, marinas, urbanizações… substituiu a velha agricultura como maquinaria de construção de paisagem.

O dilúvio de imagens sobre o assunto é inesgotável e a cacofonia em volta do assunto é bem maior do que o esforço para entender essa mudança e a sua quase inevitabilidade.

As novidades destas imagens são outras.

No Algarve, como em qualquer outro lugar do planeta, assistimos a uma mudança acelerada no sector energético e na economia do denominado sector primário.

A velocidade das inovações tecnológicas prossegue imparável, seja na produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis, seja nos sistemas de produção vegetal e animal.

As paisagens que aqui se apresentam são, por isso, paisagens tecnológicas, paisagens que registam de forma quase literal o modo como visualmente se manifestam as novidades – os painéis solares são, como a oliveira, a alfarrobeira, a figueira ou a amendoeira, uma nova espécie sintética muito bem adaptada às horas de sol dos climas mediterrânicos; aquilo que dantes era a economia doméstica do pomar de sequeiro, é agora a economia global do sector energético e dos interesses poderosos que mobiliza.

Da incessante circulação de outras espécies espontâneas ou domesticadas, que cruzam o planeta desde há séculos, o eucalipto é, para todos os efeitos, um prodígio biológico de adaptação à secura, ao solo pedregoso e à ecologia do incêndio (renasce depois da queima).

Se não houvesse outras questões, bastaria esta para enquadrar a sua ocorrência em terrenos pobres, secos e montanhosos; a armação do terreno em micro patamares é a que melhor previne a erosão e a que favorece a manutenção mecanizada.

Tecnicamente, uma plantação de eucalipto é uma floresta, um sumidouro de carbono, um espaço verde e um repositório de biomassa; arde bastante bem e também é bom para fazer papel, etc.

Se a pesca desenfreada pôs em risco os ecossistemas marinhos, façam-se aquaculturas. Se a libertação de CO2 é nociva, instalem-se fotovoltaicas. Se as pragas e a inconstância climática aumentam, plante-se dentro de estufas.

Claro que tudo terá um preço; essa questão também não é nova. O que é novo é a intensa mercantilização de tudo ao nível global, e por isso se plantarão laranjais – árvore domesticada na China – se houver água, solo apropriado e retorno do investimento.

Quando a visão moderna do progresso entrou em colapso alguém inventou a sustentabilidade e disse que era possível associar competitividade, equilíbrio ambiental e justiça social – tinha reinventado o paraíso antes da serpente; o Planeta seria um jardim. Perdeu-se o manual de instruções. Estas são as paisagens que há.

A paisagem também já provou ser um dispositivo político de alta potência para se discutir como é que nos (des)entendemos coletivamente. O que menos me comove é o saudosismo das paisagens do tempo da miséria – pura estética sem pingo de sensibilidade social; o bode expiatório em vez da discussão sobre sistemas complexos; ou a fuga securizante para utopias e mundos perfeitos que a maldade do mundo não permite.

Fotos: Nuno de Santos Loureiro.