To Brexit, or not to Brexit? That is (not) the question!

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Inglaterra e Portugal, estão unidos pela mais antiga aliança do mundo, ainda em vigor há 633 anos, desde que, com Henrique II, nos ajudaram, na mais famosa batalha pela independência, em Aljubarrota, liderada pelo Mestre de Avis, que veio a ser o nosso D. João I.

Logo se arranjou um casamento, em que D. João casou com a D. Filipa de Lencastre (filha do Duque John de Gaunt), que nos deram uma linhagem de descendentes, hoje ainda celebrados, entre eles, o Infante D. Henrique (Prince the Navigator) «que deu Novos Mundos ao Mundo» agraciado com a maior Ordem Inglesa, a da Jarreteira.

Logo a seguir vieram «os primeiros turistas» britânicos. Guardamos memória do corsário Francis Drake, que, não fora a sua (bombástica) visita (a tiro de canhão) e não teríamos hoje o melhor mapa de como era a fortaleza de Sagres e da vila daquele Infante; assim como a do Conde de Essex, que, dez anos depois, em 1596, veio a Faro e levou, ao seu cuidado, a biblioteca do nosso Bispo para, estamos certos, garantir a sua melhor preservação no fundo inicial da Biblioteca de Oxford (só inaugurada em 1602).

Por isso soubemos que Faro, estava já na vanguarda e foi o berço da Imprensa em Portugal tendo dado ao mundo o Pentateuco de 1487, por Samuel Gacon, usando os tipos e a prensa de Gutemberg.

Foram 100 das mais valiosas obras e entre elas, também, aquele que constitui o primeiro manuscrito de todos os que viriam a ser parte do seu enorme acervo, «A Vida de S. João». Que olhos os terão lido e consciências terão formado já nestes mais de quatro séculos?…

Não fosse de tal forma e o destino deste tesouro poderia ter acabado com os de Castela, depois de terem sido forçados a abandonar a ocupação da coroa portuguesa, situação que motivara essas famosas «visitas» britânicas, ao tempo de Isabel I, e portanto, feito suspender o nosso velho Tratado de Windsor com a Inglaterra, pelo avanço, a partir do Tejo, da «Armada Invencível» (que… afinal foi vencida).

Mas também já o Conde de Essex queria então conhecer melhor o interior do Algarve e subiu até São Brás de Alportel, felizmente que os «moços» da terra, o acompanharam, em corrida, pelas encostas abaixo, até ao mar. Mas ficou em sua memória a mais bonita festa local das tochas floridas do Aleluia. Desde aí que guardam de nós a certeza que somos um povo acolhedor e bem-educado com quem nos visita.

Mais tarde, demos outras vez provas da nossa valia aos amigos britânicos, ajudando-os a salvar e a cuidar da sua população em Gibraltar, mantendo-o como território da Coroa Britânica, quando a partir de 1704, não podendo ser abastecidos por terra espanhola, os pescadores de Faro/Olhão e Tavira, cuidaram de levar mantimentos, médicos e guarnições para manter o rochedo e as «portas abertas» (desde o Infante de Sagres) do mar Mediterrâneo, quando perderam Tânger, que antes lhes havíamos doado no dote de D. Catarina (1662, também a possessão de Bombaim na Índia).

Ainda, a acreditar no esforço de pesquisa genealógico, mais um casamento houve, entre uma longínqua descendente de Faro, (da filha do governador local com o nosso Afonso III, há 770 anos), a Princesa Sofia Carlota e o Rei George III. Muitos anos depois e outro George se prepara agora na sucessão.

Sim, tem sido uma relação de grande empenho ao longo da história do Reino Unido com o Algarve. Já no século XX, o jumento «Pacífico» serviu como caddie para que Sir Henry Cotton desenhasse e jogasse o primeiro campo de golfe na Penina, em Portimão, que, com outros, faz o Algarve, ser repetidamente eleito, o Melhor Destino de Golfe do Mundo.

Não havia CEE, nem UE, nem Euro e já os súbditos de Sua Majestade, que nós tratávamos carinhosamente por «bifes», tinham descoberto as sardines e o melhor peixe do mundo, nas praias mais acolhedoras, à distância de menos de duas horas de avião.

Sir Cliff Richard; The Beatles, Sir Tom Jones, Bonnie Tyle, Bing Crosby, Bob Hope, Arnold Palmer, Jack Nicklaus, Tony Jacklin, Sean Connery, Lee Trevino, …, louvaram-se dessas delícias.

Muitos outros vieram para cá viver. Por isso somos mais algarvios a contar para a estatística portuguesa graças a tantos que residem connosco. E aprendemos a ter uma segunda língua, que usamos de modo próprio.

Entre nós nunca tivemos falta do Euro, até e porque gostamos muito da imagem de Sua Majestade, também impressa na sua moeda.

E enquanto houver boas sardines e outras iguarias da Dieta Mediterrânica, gostaremos de continuar a receber os nossos amigos britânicos neste Algarve, em que representam quase 70 por cento das receitas do total dos que do Reino Unido visitam Portugal em férias cada ano.

Assim como gostamos de pensar que, no passado, ali introduzimos, através da Rainha consorte portuguesa (D. Catarina, a católica, como a designaram), o costume do chá das 5, adivinhamos também que, agora, é com uma mini nas mãos que muitos se sentem verdadeiramente felizes entre nós.

Caso haja algum problema no futuro, temos a certeza que, como o famoso Almirante britânico Napier, a força da amizade regressará, fazendo valer o Tratado mais antigo do mundo, que não vai ser substituído. Mas vamos continuar a debater-nos feverosamente, pelas nossas cores, no campo, entre as nossas seleções de futebol que tanto nos animam. To Brexit or not to Brexit. That is (not) the question! Because FRIENDS WILL BE FRIENDS.

Paulo Neves | Círculo Teixeira Gomes. Artigo em honra ao nosso Embaixador (1911-18) que emprestou o seu charme cultural ajudando a decorar o gabinete oriental do Palácio de Buckingham (com a rainha consorte Alexandra).