Teixeira Gomes escreve aos portimonenses no seu 160º aniversário

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Carta imaginária de Teixeira Gomes aos portimonenses, ficcionada por João Ventura.

Bougie (actual Bejaia, Argélia), 27 de Maio de 2020

Caros portimonenses,

«Tenho sempre diligenciado manter certa aparência de ordem, na desordem da minha vida […], e se há regra que eu nunca transgredi é a que me impus, desde bastante novo, no expediente da minha correspondência» (1).

Por isso, neste dia em que festejo em Bejaia o meu 160º aniversário, pedi ao meu amigo João Ventura que, por várias vezes, me veio visitar aqui, que publicasse esta carta no jornal barlavento e, depois, a lesse no Facebook, para vos agradecer todos os encómios que me têm dedicado e, também, para vos dar conta da minha vontade «de dar a volta ao mundo», conforme, aliás, já havia confessado num bilhete postal que recentemente enviei ao meu amigo Câmara Reys.

«Acordei um dia envergonhado de o não ter ainda feito, sendo, como é, empresa de tão rápida execução. Ando a estudar o itinerário (com largada de Argel no começo da próxima Primavera [daqui a um ano, portanto, quando já não pairar no ar a ameaça do covid]) que aproveitará quanto possível os vapores de carga onde os passageiros, sempre em número reduzido, encontram, a preços mínimos, camarotes superiores aos mais luxuosos dos grandes transatlânticos. Mas tenciono – acho indispensável, obrigatório – passar pelo estreito de Magalhães» (2).

Prestarei, deste modo, tributo ao nosso compatriota Fernão de Magalhães, fazendo a viagem de circum-navegação que o nosso NRP Sagres, que largou de Lisboa a 5 de janeiro deste ano, não pôde terminar devido à pandemia.

«A miragem do anonimato sorri-me e atrai-me com o enlevo de outrora, e decidi voltar a correr mundo, abrindo o último capítulo da vida em termos de o tornar aprazível despido de todo o género de ambição e vaidade, mundana ou espiritual» (3). Levarei comigo «a minha mala grande […] a Never Break, sendo comodíssima, pela disposição interior, que permite, quando se abre, usar dela como se fosse um guarda-roupa de moderna construção» (4), o que me permitirá levar roupa adequada aos diversos climas que atravessarei. E, claro, do que for vendo vos contarei em bilhetes postais e cartas «escritas em viagem, ao correr da pena, sem outra pretensão além de entreter[-vos]» (5) e aos meus biógrafos futuros.

Mas hoje, aqui em «Bougie, espécie de Sintra à beira de água, porém muito mais acidentada e rica em passeios aprazíveis e perspectivas raras» (6), onde, enquanto vos escrevo, vou observando desde a janela do meu quarto no Hotel de l`Étoile, à minha direita, «o encanto do mar» e, no largo em frente, «o qual forma terraço todo aberto do lado do mar, a gente fina da terra e a forasteira, especialmente do sexo feminino» (7), o que me alegra é ter recebido um bilhete postal da minha querida neta, felicitando-me pelo meu aniversário e contando-me como sou muito lembrado em Portimão, de como o meu nome é nome de praça, de escola, da casa onde nasci e da biblioteca.

Tranquiliza-me saber que graças às medidas, primeiro, de confinamento caseiro, e agora de distanciamento social e uso de máscara, para além, claro, da elementar lavagem de mãos, a situação tem evoluído positivamente, e que, por via disso, o comércio, as escolas e os restaurantes já reabriram, embora, naturalmente, com cautelas e regras para protecção de todos.

Alegra-me também saber que biblioteca e o museu também reabriram, podendo, assim, os meus livros serem de novo consultados ou requisitados para empréstimo e o museu que expõe o meu espólio ser de novo visitado, devendo, para isso, todos cumprirem as normas de salvaguarda da saúde pública.

E fico também contente por saber que as nossas praias vão abrir em 6 de Junho. Os meus amigos têm o privilégio de viver «nesse mesmo abençoado trecho da costa do Algarve, tantas vezes por mim encarecido, que abre da Ponta do Altar à Ponta da Piedade, isto é, da barra de Portimão ao extremo da baía de Lagos, numa sucessão de praias de areia finíssima e doirada, fechadas e semeadas de rochedos multicolores, que se vão lentamente esboroando, e afeiçoando em composições pitorescas, onde parece que entrou a mão de algum artista ao mesmo tempo delicado e poderoso» (8).

Ora, agora que vêm aí os dias de calor e o apelo do mar, para que possam desfrutar dessa bênção que a natureza concedeu à nossa terra, quero pedir-vos, encarecidamente, que cumpram as instruções do Município fazendo cada um a sua parte para protecção de todos.

Já vai longa esta carta, mas isso deve-se à minha felicidade, por hoje, em dia do meu aniversário, e depois dos muitos dias em que, também eu, estive em confinamento no meu quarto de hotel, poder fazer chegar até vós esta minha carta.

Daqui a pouco, por volta das «duas e meia, saio para ir ao correio» (9) pôr esta carta, que, por magia de afectos, há-de chegar-vos no próprio dia, no Barlavento digital e no dia seguinte no Barlavento em papel.

No regresso, passarei, primeiro pela farmácia para comprar um pacote de máscaras que, por aqui, tal como aí, são obrigatórias usar em espaços fechados, e, depois, pela pastelaria À la Corbeille Fleurie para comprar uns doces de amêndoa que também por aqui se confeccionam e que, ao entardecer, hei-de gulosamente saborear na companhia do casal Berg, meus anfitriões e proprietários do hotel onde habito, e do meu fiel amigo Amoukrane, numa pequena festa de anos que darei no meu quarto.

Para expressar o meu apreço por tudo o que têm feito em Portimão para manter viva a minha memória, pedi ao meu amigo João Ventura que vos entregasse da minha parte um cesto com estrelas de figo e uma garrafinha de medronho de Monchique para que não se confinem à condição de meros  espectadores da minha felicidade neste meu 160º aniversário.

«Sempre saudoso daquelas intermináveis e inocentes [brincadeiras], dos tempos […] da nossa infância […], e esperançado em poder renová-los, ainda que seja de aqui a alguns lustros”, desejo-[vos] muita saúde, com felicidades de toda a sorte…» (10)

«Eu continuo forte e intrépido como rocha ambulante» (11).

Vosso muito dedicado conterrâneo,

Manuel Teixeira Gomes

[Carta ficcionada por João Ventura, a partir das obras de Manuel Teixeira Gomes citadas]

  1. Miscelânea, Seara Nova, 1ª ed.,1937. p. 57.
  2. «Postal de Manuel Teixeira Gomes para Câmara Reys», reproduzido em Rodrigues, Urbano Tavares. O Discurso do Desejo. Lisboa: Edições 70, 1982. P. 401-402.
  3. Miscelânea. Portugália Editora, 1ª ed. 1937. pp. 146-147.
  4. Miscelânea, Portugália Editora, 1ª ed. 1937. pp. 35-36.
  5. Cartas a Columbano, Portugália Editora, 2ª ed. p.219.
  6. O Exilado de Bougie: perfil de Teixeira Gomes. Norberto Lopes. Parceria A. M. Pereira, 1942, p.  281.
  7. Ibidem.
  8. “Uma Cena Grega”, in Agosto Azul. Seara Nova, 2ª ed., 1930. p. 201-202.
  9. O Exilado de Bougie: perfil de Teixeira Gomes. Norberto Lopes. Parceria A. M. Pereira, 1942, p.240.
  10. Miscelânea, Seara Nova, 1ª ed. 1937. p. 218.
  11. Miscelânea, Seara Nova. 1ª ed. 1937. p. 189.