Reflexões sobre a gravidade atual da COVID-19 no nosso país

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NOTA: os cálculos apresentados não pretendem ser dados estatísticos sofisticados, mas sim estar ao alcance de todos para que possam ter uma ideia global do que se passa.

Todos os dias a DGS nos fornece números sobre a evolução da pandemia. Porém, a maioria dos órgãos de comunicação social limitam-se a realçar infetados, mortos e, por obrigação, um pouco mais discretamente, lá nos dizem quantos são os curados. Numa publicação anterior sobre a percentagem de positivos no conjunto dos testes, cheguei a um número ridiculamente baixo que, extrapolado para a população portuguesa seria insignificante: cerca de 1,7 por cento são positivos, logo, 98,3 por cento da população portuguesa apresenta um teste negativo.

Alguém alegou que muitos desses testes seriam testes repetidos à mesma pessoa, o que, no entanto, não retira a validade da percentagem calculada. Porém, a DGS dá-nos o total de suspeitos e o total de «não confirmados»!

No passado dia 21 de agosto, tínhamos um total de 467868 suspeitos para um total de 412464 «Não Confirmados»; ou seja, 88,16 por cento dos suspeitos são negativos, o que está de acordo com os cerca de 11,5 por cento de positivos no grupo dos suspeitos. Se extrapolarmos para o total da população, e podemos fazê-lo porque o número de suspeitos é suficientemente grande, podemos dizer que 8992136 em 10200000 portugueses apresenta um teste negativo.

Mas esta população de suspeitos é uma população especial, que contactou alguém positivo…por isso eu tinha calculado, nos testes em geral, população mais aleatória que engloba por exemplo os rastreios, as pessoas que vão a um hospital para tratamentos como quimioterapia, diálise, e nunca interagiram com pessoas positivas. Nesta população aleatória, cerca de 97 por cento são negativos.

Extrapolando mais uma vez para a população portuguesa, dá-nos 9894000 pessoas com teste negativo…quase toda a população! Se fizermos estes mesmos cálculos entre o total de positivos (55981) e toda a população, encontramos 0,548 por cento de positivos, ou seja, 99,452 por cento de negativos! Tirem as vossas conclusões! Procurar um doente COVID é como procurar «agulha em palheiro».

Quanto aos óbitos, todos os dias, infelizmente, morrem cerca de 300 pessoas. De 14 para 15 de agosto perderam-se 241 vidas, três atribuídas à COVID. Dos restantes 238, ninguém fala… só comunicam as três pessoas, todas no grupo etário 80+, onde a maioria tem problemas cardiorrespiratórios e uma deficiente função de todos os órgãos, normal para a idade, tal como a imunidade deficiente, fazendo com que uma constipação possa levar a um edema pulmonar agudo (aqui falo na qualidade de cardiologista).

São pessoas muito frágeis e não devem ser tidas como modelo do risco que a população corre quando infetada pelo SARS-CoV-2. Assim, informações tendenciosas mantêm a população aterrorizada, tentando proteger-se, muitas vezes de modo desajeitado, contra um «inimigo invisível» que, neste momento, consegue «infetar» entre um e dois por cento dos portugueses, e mesmo assim nem é capaz de provocar sintomas e doença na maioria dos casos! Até muitos idosos já são «positivos assintomáticos». Aliás, ao falarem dos lares já se descaem a dizer «os testes efetuados permitiram descobrir…».

Parece que andam à pesca de casos positivos com um teste que a OMS já declarou duvidoso, a 9/7/2020: «The detection of RNA using reverse transcription polymerase chain reaction (RT-PCR) – based assays is not necessarily indicative of replication- and infection-competent (viable) virus that could be transmissible and capable of causing infection». Ou seja: «um teste RT-PCR positivo não indica necessariamente a presença de vírus viável que possa ser transmissível e causar infeção»! Não vou voltar a debater a especificidade dos testes, mas muitíssimo mais de 10 por cento de todos os positivos são, provavelmente, falsos!

Tudo isto para mostrar, por A+B, que a pandemia no nosso país já não deve meter medo, que podem estar confiantes com prudência. Os que estão a trabalhar, aproveitem o tempo perdido. Os que estão em férias, saboreiem o merecido descanso. Em março e abril, o panorama não era este.

Eu própria estava preocupada e sempre encorajei a ficar em casa para quebrar as cadeias de transmissão. Porém, as mutações reduziram o vírus a um estado de endemia, como disse o professor Pedro Simas e nunca o desmentiu, apesar de algumas últimas entrevistas interpretadas como controversas.

Mas, como o «seguro morreu de velho» e vem aí o período da gripe, mantenham a distância de segurança, uma higiene respiratória adequada (não tussam ou espirrem sem protegerem a boca e o nariz com um lenço ou nem que seja com o braço e nunca com as mãos). Lavem as mãos. Usem máscara em espaços fechados, onde não possam manter distância, mas não a guardem para outras utilizações.

Verão que vamos ter menos gripes com estas medidas, pois são profiláticas para qualquer infeção respiratória.

Lourdes Cerol Bandeira – Médica cardiologista, doenças vasculares, especialista em Medicina de Catástrofe pela Universidade de Paris.