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  1. Fala-se, hoje, da crise do lugar do Ocidente no mundo como um dado adquirido. Desde o pós-guerra, no século XX, que as certezas muito sólidas, as ideologias duras, os desígnios colectivos que nos embalaram, começaram a fragmentar-se. No caso específico da Europa, o que nos resta é uma casa que treme à mínima sacudidela. Essas tremuras são estruturais, mentais e culturais, e, de cada vez que há eleições num país da União, a Europa entra em sobressalto. Ora, nesta atmosfera, silenciar as raízes da Europa enquanto entidade cultural e espiritual, antes de ser uma entidade geográfica, é não apenas erro mas amnésia. Porque não haveria Europa, tal como a conhecemos, se não tivesse havido Roma, Atenas e Jerusalém. Herdámos a filosofia grega, o direito romano e o Judeo-Cristianismo deu-nos aquilo que constitui o coração da Europa: a concepção de que cada ser humano é uma pessoa.
  2. Apesar disso, a pessoa, no trágico século XX, foi sacrificada aos sistemas totalitários: fascismos, nazismo, gulags, campos de concentração. E, depois de viver algumas décadas de utopia consumista (ter mais para consumir mais), tem vindo a ser sacrificada no altar do déficit, das taxas de juro e das novas catedrais em que se transformaram os bancos. O empobrecimento, o desemprego, a emigração, as migrações e os refugiados, assumiram estatuto de projetos político-ideológicos e têm constituído, desde há alguns anos, programas anti-pessoa liderados pelas direitas e extrema-direitas, um pouco por toda a parte.
  3. Por isso, se tornou obrigação ético-política recuperar, como grande desafio, a concepção de que cada pessoa deve ser considerada como ser humano, superando os egoísmos individuais ou os falsos nacionalismos. Em nome do futuro da Europa. Existe, por outro lado, um interlocutor indispensável: o Islão, que é também uma herança. De facto, nenhum muro impediu os fluxos de população. O que significa que a Europa vai ter de continuar a acolher pessoas que se reclamam de outra filosofia, de outra cultura, de outra religião. O mundo islâmico obriga a Europa a reconhecer a legítima expressão de diferentes mundividências e de diferentes convicções religiosas.
  4. Neste quadro, vem a propósito recordar os encontros inter-religiosos pela paz, de Assis (iniciados em 1986), que inauguraram o diálogo permanente sobre a alma da Europa. Num desses encontros, discutiu-se a necessidade de evitar o monopólio sobre a alma da Europa. Mas, dizia-se, em primeiro lugar «é preciso evitar uma Europa sem alma». Falar de alma significa evitar que a Europa seja confiscada por burocratas, tecnocratas e interesses financeiros. Ou seja, o problema é encontrar um diálogo europeu sobre a alma da Europa numa perspetiva humanista.
  5. Creio que a vocação da Europa hoje é forjar uma consciência europeia. Para isso, é preciso dar-lhe uma alma. Além de excelentes economistas em Bruxelas, é necessário ter homens e mulheres de cultura que se exprimam em Estrasburgo. Existe um património comum europeu que é a liberdade, palavra-chave da modernidade. É a palavra liberdade que define a linha de demarcação intransponível entre a democracia e tudo o resto que os Trumps de todo o mundo andam a querer impor-nos. Nesta base, a liberdade, foi construído o mundo da ciência e do conhecimento científico, mas também da literatura, da arte, da espiritualidade, das tradições religiosas, das culturas. E, julgo eu, é nesta base que se pode discutir hoje a identidade de uma Europa plural com graves problemas sociais por resolver. Para isso, é fundamental que os cidadãos europeus acreditem que vale a pena. Mas aqui é que a porca torce o rabo.

PS – Sem nostalgias, mas 45 anos é muito tempo passado num ápice. Mas valeu a pena viver aquele «dia inicial inteiro e limpo» (verso de Sophia), aprendendo que ninguém é dono de nenhuma verdade nem demasiado fiéis a qualquer disciplina, partidária ou outra. O 25 de Abril continua hoje a lembrar-nos que, apesar de tudo, o mundo não está perdido.

Manuel da Luz | Cidadão algarvio

Foto: Elisabete Maisão para a exposição «Paris HOJE» no âmbito da 4ª edição Festival encontros do DeVIR (2018).