Paisagem, memória e a eucaliptização de Portugal

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A paisagem guarda as transformações que o homem, ao longo das gerações, foi introduzindo no território.

A paisagem guarda as transformações que o homem, ao longo das gerações, foi introduzindo no território. Os seres superiores, aos quais Teilhard de Chardin atribuiu a condição de terem sido formados pela Evolução num processo da hominização que os levou a tomarem progressiva consciência de si e do meio que os rodeava, interagiram sempre sobre os ecossistemas no sentido de satisfazerem as suas necessidades – primeiro básicas como qualquer outro ser vivo e a pouco e pouco mais exigentes em termos de objetivos e de tomadas de consciência.

Muitas das paisagens que hoje apreciamos e achamos quase naturais são afinal depositárias de um vasto e antiquíssimo património cultural e foi algum abandono do seu uso que originou um retorno parcial a antigos facies; os êxitos e os fracassos dos grupos humanos ao dominarem os territórios estão ligados à forma como foram respeitados ou ultrapassados os limites de resposta e de renovação dos recursos que a natureza mantinha disponíveis, num ciclo de equilíbrios que serão sempre tanto mais garantidos quanto mais se aproximem do climácico.

O Algarve tem um povoamento antigo e sofreu as influências dos vários povos que por aqui passaram e por aqui se estabeleceram; também aqui as paisagens foram sendo modificadas mas mantiveram ao longo dos séculos um apreciável equilíbrio, tirando partido de espécies da vegetação de tipo mediterrânico que formam uma aliança que bordeja todo o sul da Europa, mas muitas das suas espécies encontram-se por todos os territórios, a norte e a sul, do Mare Nostrum.

Só quando na época contemporânea a política centralista e uma ciência agronómica equivocada se sobrepuseram ao conhecimento empírico das gentes e à sabedoria das autoridades locais é que se deu a grande transformação negativa para a região, como de resto para todo o sul de Portugal: a campanha do trigo do regime salazarista.

Além das graves consequências económicas e sociais que resultaram desta falsa ideia de ser autosuficiente «em pão» ficaram as consequências ecológicas desastrosas para a serra algarvia, com o abate de povoamentos de azinheira e outras formações vegetais e a mobilização dos solos paupérrimos para a cultura de cereais – erosão acelerada e destruição da biodiversidade.

Ficaram dessas campanhas, abandonadas poucos anos depois, as extensas manchas de esteva praticamente como única cobertura do solo pobre.

Mais tarde, já em pleno regime democrático, continuou-se com outra intervenção calamitosa – a eucaliptização do país, que no Algarve afetou zonas de serra mas sobretudo a região a norte da Serra de Monchique; toda a vegetação que cobria aquela vasta área foi sacrificada a um relatório de 1977, dum técnico da indústria da celulose que dizia ser aquela uma zona privilegiada para o eucalipto.

De nada valeu um excelente plano de reflorestação com espécies autóctones, elaborado em medos dos anos 1990, que foi pura e simplesmente metido na gaveta e nem se sabe onde pára agora…

A força e o poder do dinheiro e dos interesses alheios à região voltaram a triunfar. Incêndios sobre incêndios têm devastado aquela área e sacrificado até uma espécie rara, o Quercus canariensis, que em Portugal só ali se desenvolve naturalmente. Por isso, as paisagens em transformação no Algarve, para além da monolítica, irrecuperável e abusiva ocupação urbano-turística de todo o litoral (escapam raros trechos da costa), e o aumento da construção dispersa no barrocal para limites que já começam a ser excessivos, dizem respeito quer à instalação de equipamentos de produção energética alternativa quer a intervenções também excessivas, de novo, sobre os solos e a orografia (e nem se fala no consumo do recurso água…).

Em relação à produção de energia destacam-se as torres eólicas, pelo porte e, a que eu acrescentarei, uma certa elegância tecnológica; com elas certamente D. Quixote não tentaria espadeirar por estarem muito acima dos gigantes fantásticos que ele visionava nos moinhos.

O problema maior das torres será a sua colocação em locais de rotas dominantes do voo de aves, o que pode ser minimizado evitando erguê-las nesses locais e em certas paisagens de beleza muito fina, onde constituirão uma intrusão relevante.

O outro problema é o das áreas de painéis solares, e aqui acredito que a sensibilidade de muitas pessoas se sinta ferida ao contemplar aquele estendal de placas. Por mim confesso sinceramente que prefiro olhar para um parque solar, desde que instalado numa zona improdutiva, porque estarei a olhar para uma paisagem tecnológica do futuro.

Muito melhor do que olhar para um imenso eucaliptal que é uma paisagem do passado que desejaríamos ultrapassar.

Se queremos acabar com os combustíveis fósseis temos de entender as novas paisagens tecnológicas da energia do futuro. Estas áreas não afetam a biodiversidade nem são lesivas da fertilidade dos ecossistemas, embora não sejam isentas de algumas consequências.

Graves, em termos de atentado à diversidade biológica e à conservação do território, são, por um lado, as vastas plantações de eucaliptos nas encostas de onde toda a vegetação foi arrasada e as áreas aplanadas para criar novos pomares de culturas exigentes em água.

Já não basta a vasta área tradicional de citrinos para agora se estimularem outras culturas exigentes em rega. E os pomares de sequeiro, deixaram de interessar ? Estas é que são as grandes e graves transformações das paisagem do Algarve; as paisagens tecnológicas artificializam mas não destroem o fundo de fertilidade do território. Continua-se a subestimar o problema da água no Algarve; este não se resolve com mais barragens, pois se não chove nas que já existem também não cairá uma pinga nas novas.

Ninguém promove a experimentação de culturas de ciclo curto que exijam pouca água, como se faz em países do Mediterrâneo, pois a Direção Regional de Agricultura é hoje quase apenas uma repartição para passar subsídios e não faz a experimentação agrícola que chegou a ter apreciável expressão e com técnicos de muito valor.

Não se trata da reciclagem das águas e pode perguntar-se quantos campos de golfe algarvios reciclam a água que consomem – e deviam fazê-lo por imperativo nacional!

Ninguém investiga as perdas de água nas redes urbanas; ninguém fala do início do processo de dessalinização da água do mar para abastecer as populações urbanas, deixando a pouca água das barragens para o interior e para as culturas.

As paisagens tecnológicas, desde que planeadas com o cuidado de quem está a mexer na vida do planeta, são o começo da esperança de um mundo melhor, onde os milhões de Kw de energia hoje desperdiçada, que o sol e o vento nos enviam em cada dia, serão transformados em benefícios para a biodiversidade e para o Homem.

Fotos: Nuno de Santos Loureiro.