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Richard Sharpley, reputado sociólogo britânico, escreveu um dia «o turismo é tudo para todas as pessoas», quando no seu livro definia o que é o turismo. Efetivamente, o turismo surge como tudo e mais alguma coisa no imaginário popular: setor económico, fonte de rendimento, diversão, entretenimento, férias, filas, trânsito, praia, festas, hotéis, restaurantes, experiências… o campo lexical da palavra turismo é surpreendentemente extenso.

Apesar da dimensão que o turismo enquanto atividade tem na economia nacional e, particularmente, regional, a forma como é discutido nem sempre é a desejável.

Se muitos abordam o turismo como se de uma ciência se tratasse, outros preferem antes tratá-lo quase como uma religião, uma de igreja universal do reino do turismo, com o turismo em si assumir o papel de omnipotência e os gestores e diretores de unidades hoteleiras o de sacerdotes, aos quais os crentes rezam e dirigem as suas preces sempre que uma crise se aproxima ou quando a economia vacila.

Ironias de lado, há, com efeito, uma obsessão para com o turismo, como se da panaceia para todos os males da economia se tratasse. E em triénios ou quadriénios de crescimento, facilmente identificamos o padrão sobejamente conhecido dos restaurantes, casas de tapas ou petiscos, marisqueiras, pubs irlandeses ou bares de praia a multiplicarem-se exponencialmente que nem cogumelos ao orvalho de outono. E em nenhuma outra região esta obsessão é mais notória que no Algarve, região fatidicamente destinada (ou condenada) a fazer do turismo a bitola da sua própria existência.

O turismo equipara-se à economia no seu estatuto de área sobre a qual mais previsões (ou profecias) são feitas. E isto sem falar dos relatórios – Ah! Os infames relatórios! Anuais, semestrais, trimestrais, mensais e, na época alta, quinzenais ou semanais, a roçar a periodicidade diária. Vêm de todas as cores e feitios. E tal como acontecia com as entranhas de animais que os adivinhos do mundo pagão sabiamente liam, nestes relatórios lê-se tudo e o seu contrário quando vamos para além das tendências mais óbvias.

O mundo tem destas coisas. A agricultura durante décadas foi assolada pelas monoculturas intensivas que destruíram o solo (e que estão mais populares que nunca em Portugal, ironicamente).

Já o Algarve vem sendo assolado pelo monopensamento turístico há sete ou oito décadas, ainda que, tal como sucede na agricultura, não falte base de conhecimento para motivar alternativas ao paradigma dominante que, assim como na monocultura intensiva, se pauta pela saturação. E este é um daqueles inúmeros casos em que a lógica de mercado não se faz notar, pois o Algarve continua condenado ao turismo de sol e praia.

Em bom rigor, o turismo no Algarve começou a diversificar-se, sobretudo após a crise financeira, em grande parte devido à perda de quota do mercado turístico para com outros destinos, como Turquia ou países do norte de África.

O turismo seguiu o ímpeto da economia azul, das sensibilidades ambientais e de um novo pendor cultural e patrimonial, investindo nas alternativas ao sol e praia. Mas este investimento veio de empurrão do Estado, pois como se diz, nenhuma boa ideia surge neste país que não provenha de Lisboa… E por entre programas culturais, fundos, eventos e festivais, o poder local seguiu o moto que, reconheça-se, foi bem aproveitado pela indústria turística.

Mas se esta absolvição lavou as mãos da indústria, não há perdão para pecados reiterados e ao mais pequeno sinal de retoma a indústria rapidamente correu no sentido do seu pecado original. E, uma vez mais, os sacerdotes da igreja universal do reino do turismo começam a sentir-se em pânico perante resultados abaixo do esperado (ou, dito antes, do desejado).

Os números apontam para um «abrandamento» da procura. Sim, abrandamento, porque fica mal dizer queda, quebra, redução ou retração, uma vez que são eufemismos mais agressivos e podem pôr em causa o evangelho que a igreja universal do reino do turismo propaga.

Ao que é possível apurar segundo dados divulgados há poucos minutos, e que me fazem sentir como um jornalista desportivo durante os últimos dias do mercado de transferências, os destinos da África do Norte e de leste estão novamente a popularizar-se depois de um período de desconfiança dos consumidores europeus, devido a questões relacionadas com a insegurança e instabilidade destas regiões.

Ora, um observador menos atento poderia até comentar que isto parece um mero ciclo de procura e oferta e que há anos melhores e piores. Mas essa explicação não tem graça nenhuma.

Já se dizia antigamente, para enterrar o corpo é preciso saber o que o matou. E aproveitando que ainda nem há funeral marcado, aventemos então o que se passará no magnífico reino do turismo.

É um facto que o turismo em Portugal tem gozado de um período bastante positivo nos últimos anos. Portugal chegou à crise de 2008 uns anos atrasado e, pela primeira vez na nossa história, beneficiámos de estarmos na cauda da Europa, pois quando atingimos o pico da crise em 2012/2013, algumas regiões e setores já estavam na retoma, pelo que entre a histeria da crise das dívidas europeias, Portugal lá foi abarcando os turistas do norte da Europa, que gostaram tanto disto que muitos ainda não voltaram ao seu país de origem.

O marketing turístico do Algarve continua a focar-se no sol e praia, ignorando o que os turistas europeus (e não europeus) procuram naquelas horas do dia em que não há sol, ou naqueles dias em que não dá para ir para a praia (esta última proposição é meramente académica.

Entre a nova oferta turística, um contexto favorável e a incerteza de destinos concorrentes, o Algarve e Portugal saíram em grande deste casamento de circunstâncias felizes.

E é factualmente correto dizermos que o turismo foi o motor que nos tirou da crise, ainda que politicamente esta explicação não agrade a todos. Então o que está mal nesta fotografia? Qual foi o problema?

Bem, ainda aventando, avanço com duas hipóteses: a primeira é a de que os três fatores acima referidos se alteraram. A oferta não desapareceu, mas não tem sido enfatizada como deveria.

O marketing turístico do Algarve continua a focar-se no sol e praia, ignorando o que os turistas europeus (e não europeus) procuram naquelas horas do dia em que não há sol, ou naqueles dias em que não dá para ir para a praia (esta última proposição é meramente académica. Segundo a doutrina do reino do turismo, o turista vai à praia 367 dias por ano se residir no Algarve).

Não foi a insulação nem tampouco a praia que contribuíram para a retoma do turismo no pós-crise, até porque sol, sempre o houve e as praias cada vez estão mais pequenas.

O turismo recuperou porque se reinventou e se adaptou quando confrontando com um contexto adverso, algo que é apenas expectável num quadro de referência racional assente na planificação e estratégia a longo prazo.

E esta dissonância discursiva entre o que os turistas procuram (sim, os turistas, pois não existe tal coisa como O Turista enquanto grupo homogéneo) e entre o que a indústria publicita, não destaca aquilo que diferencia o Algarve dos outros destinos do mediterrâneo, mas antes o que o torna igual.

Outro fator que, entretanto, se alterou foi o contexto. O panorama económico europeu já não favorece somente destinos na Europa do Sul. E atendendo ao pré-anunciado encerramento da base da Ryanair no Aeroporto de Faro já em janeiro, assim como ao fantasma do Brexit, sendo o Reino Unido o maior fornecedor desta bela matéria-prima que é O Turista, certamente não augura bonança no horizonte.

E se a isto aliarmos a estabilização das regiões da África do Norte e da Turquia, então o Algarve turístico poderá estar mesmo a entrar num ciclo negativo, o que é mais ou menos equiparável a um cenário pré-apocalíptico nos discursos dos operadores turísticos, que estão para a igreja universal do reino do turismo como as lojas de santos e terços estão para Fátima.

Já a outra hipótese é a de que tudo isto é irrelevante e nada do que a indústria faça terá grande impacto nos fluxos turísticos. Trata-se, antes, de uma questão cíclica que escapa à racionalidade e ilude qualquer tentativa estratégica de a indústria se reinventar ou reposicionar, pois é um jogo de xadrez jogado não entre dois jogadores, mas entre largas dezenas pela Europa e pelo mundo fora, sendo que sempre que um age, os demais reagem, compensando, contrapondo ou antecipando.

Devemos, ao invés, abordar o turismo e o estudo do turismo de forma científica. E talvez assim finalmente consigamos desconstruir todos os mitos e fábulas que assombram o setor, de modo a que este fuja ao monopensamento grupal que legitima a inépcia da promoção do sector e premeie o que de bom se faz a nível de oferta turística do Algarve e que felizmente é cada vez menos baseada na hotelaria e nas praias.

Esta perspetiva determinista e fatídica do turismo exonera os operadores e a indústria de responsabilidades, pois somente contempla a possibilidade de estes acompanharem as tendências, mas nunca ficarem à frente destas, pelo menos por um período de tempo minimamente expressivo, pois todo e qualquer avanço será prontamente anulado pela concorrência e um novo ponto de equilíbrio neste sistema será encontrado, preservando um status quo ligeiramente flutuante, salvo a interferência de alguma anomalia extrínseca a este sistema, como uma catástrofe, um desastre natural ou um conflito armado, por exemplo. Pessoalmente não deposito fé nesta explicação, mas até é bonita, pelo que também a considerei, não obstante.

Pode até dar-se o caso de ambas as hipóteses concorrerem para A Explicação. Quanto a isso não estou certo. Estou certo, isso sim, quanto à inutilidade de se pregar a doutrina do turismo enquanto religião. Mas também não encarem o turismo enquanto ciência, que isso também não o é.

Devemos, ao invés, abordar o turismo e o estudo do turismo de forma científica. E talvez assim finalmente consigamos desconstruir todos os mitos e fábulas que assombram o setor, de modo a que este fuja ao monopensamento grupal que legitima a inépcia da promoção do sector e premeie o que de bom se faz a nível de oferta turística do Algarve e que felizmente é cada vez menos baseada na hotelaria e nas praias.

J. André Guerreiro | Escritor e investigador social