O suicídio da igual dignidade: o racismo político e ideológico volta à ribalta

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Existem demasiados racismos verdadeiros para nos pormos a inventar racismos imaginários.

Ora, o texto da historiadora Maria Fátima Bonifácio, publicado pelo «Público» evidenciou ainda mais o problema do racismo que afeta a nossa sociedade. Este mesmo texto peca por reunir num único ensaio a súmula dos horrores.
O artigo teve como propósito abordar a questão da introdução de quotas raciais para a Assembleia da República, mas como vimos a passagem preferiu dedicar a sua génese a uma outra questão.

O texto representa a base do discurso segregacionista, tipificado nas Leis de Jim Crow, e de que já não tínhamos memória, porque julgávamos que o assunto estava encerrado e ultrapassado nos anais da história.

O texto está integrado nas guerras sociais do multiculturalismo, materializadas com eleição de Trump nos EUA e Salvini em Itália, ou mesmo como o candidato André Ventura à Assembleia da República. Estes movimentos verteram um tipo de discurso que é anti-intelectual por definição e que se tem tornado eficaz no espaço público exatamente por causa disto. Em primeiro lugar o escrito centra a sua discriminação racional em duas etnias: africanos e ciganos.

O texto é um combinado de chorrilhos, contradições e disparates, uma vez que de acordo com autora os negros e ciganos colocam-se fora dos Direitos Universais do Homem. Ou seja, para o texto os Direitos Universais do Homem, inicialmente criado para toda a humanidade aplica-se apenas ao homem branco, sendo estas duas etnias, negros e ciganos que se colocam fora dos Direitos Universais.

Portanto a leitura é nítida, são os africanos e ciganos que se colocam fora da Carta do Direitos Universais, e não é para o texto, um certo grupo que tenta ao longo dos anos e de várias formas colocar africanos e ciganos fora dela.

Basta, conhecer a história e os princípios que tiveram por base a criação da declaração pelas Nações Unidas, para chegarmos a conclusão de que o argumento apresentado é falacioso e representa uma inverdade história e factual.

A seguir vem o argumento da Cristandade. Que na minha opinião é o argumento mais brilhante de todos. O racismo é o argumento menos cristão que existe, basta ler o Velho Testamento para perceber que Cristo, ficaria totalmente apavorado se lesse aquele texto. Discriminar alguém com base no fundamento racional é atentar contra a sua dignidade, uma vez que todos somos criados à semelhança de Deus (E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. – Gênesis 1:27) portanto para as escrituras sagradas, todos temos a mesma dignidade, porque fomos criados à imagem de Deus.

Qualquer, discriminação racial é profundamente contrária aos postulados cristãos, ao ponto de existir uma inconciliabilidade axiológica entre cristianismo e racismo. Nenhum cristão pode ser racista nem nenhum racista se pode dizer cristão. Para qualquer cristão isto é claro como água.

Em sentido complacente, ao texto temos homogeneidade em Nietzsche e nos seus seguidores um expoente máximo de defesa de uma raça dominante, ou de homens superiores e que foi a base do programa político e ideológico da Alemanha nazi, que originou a II Guerra Mundial. Basta rebuscar a história recente e verificar que o antissemitismo e o Apartheid na África da Sul em 1948, traduzem formas radicais de discriminação racial do século XX, onde nações tentaram rebuscar princípios platónicos gravados na obra a República, «indivíduos superiores» e «indivíduos inferiores» de Platão.

De facto, a xenofobia e o racismo, são um problema mundial e não só um problema especificamente português. Basta olhar para o que acontece diariamente nos USA, e onde de forma quase diária a comunidade de afro-americanos é tratada pelas forças policiais, constituídas maioritariamente por homens brancos. Nos dias atuais, não existe nenhuma base legal no ordenamento jurídico americano para legitimar a segregação racial, mas é um facto que impera na sociedade americana, apesar dos esforços dos governos estaduais e federal para combater este problema social.

Tudo isto, leva-nos a pensar, mas de facto devemos ter cuidado com os monstros do passado, porque eles podem sempre voltar. A História, infelizmente tem relatos disso mesmo e cabe a cada um de nós definir que mundo queremos.

Hélder de Sousa Semedo | Discente da Faculdade de Direito de Lisboa