O que estamos a fazer com a criança e jovem autista?

  • Print Icon

A emergência de abordarmos o autismo, as funções executivas e a aprendizagem para a vida numa vertente neuroeducacional.

O autismo nas suas múltiplas formas em que se manifesta revela-se intrigante, desafiando e testando a todo o momento os nossos saberes, as nossas teorias e conhecimentos. Conviver com o autismo implica uma enorme sensibilidade, conhecimento, flexibilidade psico socioemocional e comportamental do profissional da saúde e da educação desenvolvendo outros olhares, outras formas de ver e sentir os outros e o mundo em que eles e nós nos inserimos.

Assim cada vez que me debruço sobre esta temática faço-o com uma nova abertura, com uma nova amplitude, flexibilidade de pensamento e capacidade de avaliar o nosso próprio entendimento sobre o desenvolvimento humano.

Esta postura, enquanto investigadora, psicóloga e docente é essencial já que nos possibilita cruzar conhecimentos e saberes, falar uma outra linguagem, ouvir todos os sinais e sons, mesmo que nos pareçam silenciosos.

Existem diversas teorias explicativas do desenvolvimento típico e atípico, mais especificamente no que concerne ao comprometimento social; assim como as mais variadas e diferentes abordagens, como a abordagem psicanalítica, a comportamental, a cognitivo-comportamental, as teorias sociocognitivas, a da linguagem, às teorias neuropsicológicas, que explicam as (ina)habilidades do autista, na tentativa de entender e retirar o significado do que percepciona, na focalização e divisão da atenção pelos vários estímulos que o envolvem, na capacidade de auto organizar-se de demostrar flexibilidade e capacidade para planificar e gerir as situações do dia a dia.

É aqui notório alguns comprometimentos mais ou menos agravados não só por uma questão neurológica, biológica, genética como também pela fraca desajustada e precária estimulação em casa, na escola e na clínica nas áreas que se possam visualizar como emergentes e necessárias para que estas crianças e jovens ao longo da vida desenvolvam habilidades que espontaneamente não estão presentes e são extremamente necessárias.

A maior evidência ocorre no plano executivo o que nos direciona para a atividade dos lobos frontais.

A Neuropsicologia surge então como uma ciência que incide sobre as disfunções cerebrais, do sujeito típico ou atípico, sejam elas causadas por lesão ou não, e os comportamentos manifestos.

Uma diversificada e correta avaliação neuropsicológica possibilita uma intervenção consciente e adequada a respeito da reabilitação neuropsicológica da pessoa autista, com o objetivo de melhorar as suas funcionalidades e assim promover nestas crianças, adolescentes e adultos uma melhor qualidade de vida.

A avaliação neuropsicológica surge como imprescindível para a compreensão do desenvolvimento da criança desde a infância já que nos possibilita auxiliar no diagnostico de determinadas patologias neurológicas e assim realizar a intervenção e o tratamento em problemas comportamentais, sócioemocionais, comunicacionais, assim como nos comprometimentos do foro psiquiátrico e psíquico, no geral, nos problemas de desenvolvimento infantil.

Abordar o autismo numa perspectiva neuropsicológica mas também numa visão de intersecção com a educação no que concerne às aprendizagens essenciais para a vida é cada vez mais uma necessidade de todos aqueles que diariamente se deparam com esta realidade em casa, na escola e na clínica.

Hoje temos ao nosso alcance por profissionais especializados a possibilidade de uma avaliação para uma intervenção na habilitação e reabilitação da pessoa com autismo, que nos permite refletir sobre as funcionalidades, potencialidades e capacidades executivas e cognitivas do sujeito com este espectro, abrindo-nos caminhos para um melhor entendimento sobre esta realidade nos dias de hoje, encarando as nossas escolas como inclusivas, assim como as nossas sociedades mais globalizadoras e multifacetadas nas quais nos encontramos.

O mundo do autista é o nosso mundo! Definir o autismo não é tarefa fácil visto que as fronteiras existentes entre as várias perturbações do espectro autista são muito ténues.

A palavra autismo traduz uma forma de estar de um determinado indivíduo que se encontra em si próprio, num estado ou condição em que alguém aparenta estar incomumente absorvido em si próprio (2000; Cavaco, N. 2010, 2014).

O autismo não é uma condição de pólos, ou extremos, ao contrário, é visto como um contínuo que vai do grau leve ao severo existindo uma grande associação entre autismo e deficite mental, sendo que considera-se que a gravidade do deficite intelectual não está necessariamente associada à gravidade do autismo.

Atualmente associada a diversas síndromes os sintomas/características e padrões comportamentais variam amplamente, o que explica por que atualmente refere-se ao autismo como um espectro de transtornos.

Dentro deste espectro encontramos sempre o conjunto de comprometimentos que confere uma característica comum a todos eles as dificuldades evidentes na comunicação social e nos comportamentos incluindo as atividades, os interesses específicos. Alguns são diagnosticados simplesmente como autismo, traços autísticos, entre outras denominações.

Além destes, existem diversas síndromes identificáveis geneticamente ou que apresentam quadros diagnósticos característicos, que também estão comórbidas ao espectro pelas características similares.

Precisamos no entanto perceber qual a patologia primária, a de base e posteriormente perceber o que realmente se manifesta para traçarmos uma intervenção psicoeducativa e de capacitação e/ou neuroreabilitação mais eficaz para cada caso.

O autismo é uma síndrome comportamental com etiologias múltiplas revelando um distúrbio do neurodesenvolvimento, revelando como característica sintomática a tendência ao isolamento. É importante referir que estes comprometimentos específicos e peculiares são visíveis muito cedo na criança, podemos dizer que são evidentes quando surgem as primeiras situações e manifestações sociais, visível na relação diádica com a mãe, pai, ou cuidador pelas ausências espontâneas de resposta comportamental ajustada às solicitações de quem com a criança interage.

Não me refiro unicamente à colocação do olhar (foco atencional) mas sobretudo à ausência de responsividade pela linguagem corporal que não está presente pelo menos da forma típica e normativa que a maioria das crianças dentro de um desenvolvimento equilibrado nos proporciona quando estimulados.

Surgem estes sinais de atipicidade nos primeiros três anos de vida da criança com incidência na comunicação e interação social, na imaginação e no comportamento. Não é algo que a criança possa contrair, não é causado pelos pais nem educadores mas uma condição, um estado, que acompanha a criança até à adolescência e idade adulta, prolongando-se ao longo da sua vida.

No entanto, as crianças com autismo continuarão a demonstrar progressos a nível desenvolvimental, o que vem evidenciar que muito se pode fazer para ajudar estas crianças a crescerem de uma forma mais harmoniosa e positiva. É importante referir que não existem padrões fixos para o aparecimento dos distúrbios do espectro do autismo, nem idade determinada para o aparecimento dos sintomas, estes tornam-se evidentes gradativamente, oscilando bastante considerando vários fatores considerados como barreiras e/ou facilitadores para uma maior ou menor manifestação das características autísticas (estimulação, idade, nível de gravidade).

Muitas crianças podem não apresentar todos os sintomas característicos da patologia até hoje identificados, podendo umas evitar completamente o contato visual, enquanto outras crianças podem apresentar dificuldades menos acentuadas e não tão perceptíveis.

O autismo é então um transtorno que afeta o desenvolvimento global da criança em muitos aspectos, nomeadamente a nível da interação social recíproca, com notório comprometimento acentuado nos comportamentos não verbais nomeadamente referentes ao contato através do olhar, o uso das expressões faciais para as diversas emoções ou situações, os gestos inadequados, assim como a postura corporal que se manifesta igualmente deficitária e desajustada.

Todos estes indicadores variam no seu grau, assumindo diferentes formas, considerando as idades em que se encontram e o entendimento/interesse que podem os autistas revelar, relativamente aos outros, implicando também, neste processo, a compreensão relativamente ao funcionamento social e às regras sociais.

É importante assim sensibilizar para estas questões, em que, muitas vezes as crianças com perturbação autística podem revelar desinteresse para com os outros nomeadamente com os próprios irmãos, com as outras crianças, demonstrando ausência de entendimento e percepção, sobre o que os outros estão sentindo, querendo, ou manifestando a nível das vontades, interesses ou motivações. Assim, estas crianças e jovens demonstram um enorme déficit, muitas vezes acentuado e persistente a nível das competências verbais e não verbais revelando uma falha significativa e explícita no que concerne à capacidade comunicativa.

Podemos ainda constatar que a nível comunicacional, para aqueles que têm a componente verbal preservada, uma enorme dificuldade para iniciar e manter um discurso, uma conversa, evidenciando uma linguagem repetitiva, estereotipada, desajustada, revelando imaturidade gramatical e até mesmo metafórica. Assim, muitas vezes só aqueles que realmente entendem o sujeito em questão conseguem entender a linguagem utilizada ou os sujeitos que falam a mesma linguagem.

A nível do jogo também são evidentes as suas limitações, revelando ausência em alguns tipos de jogos como: o jogo realista espontâneo, o jogo diversificado, como também, a incapacidade em realizar e desenvolver jogos imaginários, jogos imitativos, de forma contextualizada e/ou consonantes com o seu estádio de desenvolvimento.

As crianças, jovens e adultos com perturbação autística revelam determinados padrões de comportamento, interesses e atividades repetitivos, estereotipados e restritos (DSM-V, 2014) assim como acentuadas restrições nos seus interesses e muitas vezes preocupação e até mesmo obsessão por um só foco de interesse que pode ser um objeto como cordões ou botões, ou outra situação como por exemplo, nas sequências, em datas, entre outros, podendo mesmo ficar fascinados e fixados por partes de determinados objetos, rituais e rotinas que se revelam para os mesmos, impossíveis de serem alterados ou eliminados do seu quotidiano provocando a desordem e o caos na organização diária dos sujeitos com perturbação do espectro autista.

Quando falamos de autismo ou perturbação autística, em grande parte dos casos associamos ao de diagnóstico de deficiência intelectual, podendo esta variar considerando a severidade da apresentação da perturbação.

O que também é significativo revelar é que constatamos que na maioria das vezes as aptidões cognitivas relativamente ao nível de inteligência não é igual, evidenciando-se uma discrepância entre as capacidades não verbais às capacidades verbais, por exemplo uma criança com fraco entendimento a nível do que significa determinado código linguístico, conseguir ler e decifrar esse mesmo código, de uma forma fluente, considerando a sua estimulação, a sua faixa etária e a sua maturidade desenvolvimental para o efeito.

Na apresentação deste quadro característico de perturbação, também podemos referir outras manifestações comportamentais e sintomatologias como a hiperatividade, défice de atenção ou redução do foco da atenção, auto e hetero-agressividade (auto-mutilação), impulsividade, posição, birras, assim como uma hipersensibilidade aos sons, cheiros, à dor e ao contacto físico.

Na perturbação autística podemos verificar também a ausência de medo e desajuste aos perigos nomeadamente aos perigos reais colocando muitas as vezes a vida em risco.

A avaliação neuropsicológica apresenta-se neste quadro pela importância de se refletir sobre aspectos muitas vezes abordados e efusivamente debatidos sobre a sustentabilidade da avaliação neuropsicológica ser realizada através de testes psicométricos validados ou a avaliação neuropsicológica ser sustentada por testes que surgem como instrumentos de suporte, de aplicação e apoio à investigação clínica desenvolvida pelo neuropsicólogo.

Considerando que a perturbação autística apresenta na sua generalidade um prejuízo significativo ao nível das suas funções intelectuais, entre outras, já mencionadas ao longo deste capítulo, este transtorno invasivo do desenvolvimento caracterizado por atrasos, limitações e desvios a nível das competências e habilidades sociais, comunicacionais e outras funcionalidades como a intelectual e executiva, a avaliação neuropsicológica incidindo na expressão comportamental das disfunções cerebrais permite, uma amplitude de recursos a testes específicos para avaliar as inúmeras funções executivas, permitindo um mapeamento cerebral que facilitando-nos o acesso a dados qualitativos e quantitativos e a um conhecimento e entendimento mais pormenorizado e específico para o delineamento de estratégias de intervenção, como a intervenção psicopedagógica e de reabilitação neuropsicológica, com o objetivo de trabalhar os aspectos cognitivos, comportamentais e emocionais (prejudicados e preservados) associados a quadros de lesões ou disfunções, no intuito de melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida das crianças e adolescentes permitindo que aprendam mais felizes, motivadas atingindo o que lhes é possível na funcionalidade.

Percorrer e entender o papel dos sistemas cerebrais específicos nas formas mais elaboradas e complexas da atividade mental é a função da neuropsicologia como ciência determinante na compreensão, avaliação e consequente intervenção nos processos mentais do ser humano permitindo os vários técnicos e a escola entender e saber agir sem violentar nem invadir o que é considerado uma condição (não opcional) mas «particular» de ser e estar na vida.

O uso de medidas com velocidade de precisão dos processos mentais veio em muito enriquecer os processos avaliativos tradicionais contribuindo para uma avaliação mais precisa, quantitativa mas também qualitativa na medida em que fatores como as características sociais e culturais do sujeito são tidas como essenciais, assim como, o estado situacional da criança ou sujeito em questão, ajustando-se a avaliação ao indivíduo no respeito pelas suas singularidades no momento da aplicação assim como pelo que é unicamente pretendido pela avaliação.

As características apresentadas pela criança autista são complexamente abordadas e explicitadas por diferentes teorias. Surgem então nestas abordagens teóricas sobre o autismo uma divisão entre o que é defendido como fruto de um desenvolvimento basilar do comportamento social e outras teorias que assentam que, na base desse desenvolvimento social deficitário existem fragilidades cognitivas e executivas que originam todos esse desajuste, nomeadamente a nível atencional e as suas mudanças, na capacidade de planificar e liderar a ação; explicando assim a rigidez comportamental das crianças autistas.

Segundo as diversas teorias sobre o autismo e as várias ciências que temos ao nosso alcance para um melhor entendimento sobre o funcionamento psicológico e neuropsicológico da criança autista permite-nos saber quais as relações do cérebro com as funções cognitivas e executivas e quais as mais afectadas nomeadamente a linguagem, a memória e a atenção, a capacidade de planificação e monitorização da ação.

O Espectro do Autismo engloba pelo menos quatro níveis de análise considerando o conjunto de teorias incidentes: o etiológico, das estruturas e dos processos cerebrais, do neuropsicológico e o de sintomas comportamentais. Nos últimos anos a neuropsicologia tem vindo a demarcar-se como ciência, no que concerne aos Transtornos do Espectro Autista, pelas evidências a nível dos diversos prejuízos cognitivos manifestados como a nível das competências e funções preservadas na criança que apresenta este transtorno.

A avaliação neuropsicológica é essencial e muito importante permitindo-nos assim perceber quais as funcionalidades e disfuncionalidades do sujeito com autismo ou perturbação do espectro possibilitando um delineamento da intervenção e tratamento nos mais diversos contextos da criança, nomeadamente a nível das práticas educativas.

As crianças e jovens com autismo apresentam fragilidades, falhas, a nível das funções executivas e isto constatou-se através de vários estudos efectuados no sentido de comparar as semelhanças e diferenças entre os comportamentos dos autistas com outros indivíduos que apresentavam disfunções a nível do córtex pré-frontal.

Estas constatações revelaram um quadro padronizado de inflexibilidade e perseverança comportamental assim como um descontrole inibitório.

A neuropsicologia como ciência estuda e investiga a expressão corporal das disfunções cerebrais, compreendendo o envolvimento do cérebro como um todo cujas áreas se interligam numa interdependência e interrelação únicas, com integração das suas componentes para que o seu funcionamento global surja harmonioso, equilibrado e perfeito, a que denominamos de sistema funcional.

Para a construção e desenvolvimento das habilidades intelectuais, que são processos básicos para que estas habilidades surjam harmoniosamente, as baterias neuropsicológicas possibilitam uma avaliação do desempenho cognitivo geral e global como também, a determinação das funções específicas da atenção, da linguagem, da memória e das funções executivas.

Estes instrumentos possibilitam-nos o acesso a resultados que podem ser extremamente importantes a nível de uma intervenção precoce, possibilitando uma detecção e prevenção no que concerne a qualquer distúrbio desenvovimental, nomeadamente dos distúrbios do espectro do autismo, contribuindo assim para um ganho significativo nesse processo de desenvolvimento da criança contribuindo em muito para o seu processo evolutivo específico.

As funções executivas estão associadas e interligadas às regiões frontais assumindo estas um papel crucial na execução de uma ou várias atividades.

O lobo frontal assume as funções executivas e domina uma parte significativa do nosso cérebro enquanto as suas componentes posteriores são responsáveis pelo ato motor propriamente dito, tendo a representação do corpo humano, numa vertente vertical de cima para baixo (cabeça para os pés), em que cada região comanda o movimento de uma parte do corpo.

As componentes anteriores ao lobo frontal denominam-se pré-frontais e são responsáveis pelo planeamento, coordenação entre a percepção recebida e a organização dos diferentes movimentos, assumindo assim a função de supervisora de um grupo ou equipa, planificando ações complexas, oferecendo respostas rápidas às situações e problemas colocados pelos contextos e ambientes, pelos interesses e motivações, organizando também e promovendo respostas motoras. Tudo isto a partir das informações recebidas que podem ser emotivas, da atenção, e mnemónicas, provindas do cerebelo e sistema límbico, assim como das regiões posteriores sensoriais.

Consideradas as funções executivas um constructo abrangente estas englobam processos cognitivos elaborados, complexos e responsáveis pelo controle, integração, organização e manutenção de diversas habilidades cognitivas.

Quando falamos em processamento executivo falamos da atenção e focalização da atenção em informações significativas, a inibição de processos e informações irrelevantes ou competitivas, a programação de processamentos complexos, planeamento de tarefas e subtarefas sequenciais e a monitorização do desempenho ou adequado funcionamento das habilidades supervisionadas pelas funções executivas num encadeamento comportamental adaptativo, auto organizado, equilibrado, harmonioso com vista a atingir um fim a alcançar uma meta A pessoa com autismo revela as suas habilidades prejudicadas ao contrário dos indivíduos que apresentam um desenvolvimento normativo ou típico.

Estes últimos manifestam uma funcionalidade cognitiva que lhes permite aos contrário dos sujeitos com transtorno do espectro, desenvolver estratégias de representação mental, comportamentos, capacidade mnemónica e de planificação que evidencia uma flexibilidade cognitiva ausente nos sujeitos autistas. Estes pelo contrário revelam comportamentos inflexíveis, rígidos com dificuldades severas a nível da comunicação e da interação social.

Não existe ainda uma fundamentação teórica consolidada sobre quais os componentes executivos mais afetados e quais os que se encontrariam mais consolidados e preservados no entanto é lugar comum que mesmo os sujeitos com Transtorno do Espectro Autista com quociente de inteligência preservado podem apresentar fragilidades nas áreas da interação social, da comunicação de cariz pragmático, assim como comportamentos ritualísticos, repetitivos e estereotipados.

As manifestações autísticas revelam uma enorme complexidade, assim como, a diversidade entre sujeitos com o transtorno do espectro, o que implica uma visão complexa, profunda e alargada sobre a problemática, conduzindo a um conhecimento e leitura do cérebro nas suas funções e subfunções com recurso a uma avaliação neuropsicológica de carácter quantitativo e qualitativo que nos possibilite ler o ser humano na sua especificidade permitindo através da existências de instrumentos de rastreio cognitivo e de fácil aplicação diferenciar uma situação normativa da patológica.

Estes recursos de cariz neurológico permite-nos enquanto técnicos e investigadores da área conhecer, de uma forma mais profunda o cérebro autista, possibilitando uma intervenção como um processo ativo capacitante para sujeitos com défice cognitivo, mais ajustada e centrada nos distúrbios apresentados, de forma a minimizar, prevenir e estimular cada vez mais, e precocemente estas crianças, que apesar de revelarem uma problemática de carácter permanente, não é estanque, linear, nem insuperável e dessa forma susceptível de ser tratada no sentido de ser alcançado um bom nível de funcionamento social, físico e psíquico, através das mais variadas abordagens sejam elas educacionais, terapias comportamentais, psicoterapêuticas e psicofarmacológicas.

Com base numa vertente biopsicossocial e baseada na plasticidade neuronal de capacitação do cérebro em auto regenerar-se, a adaptação morfológica e a reabilitação neuropsicológica, relativamente a algumas disfunções e fragilidades nas diversas áreas desenvolvimentais permite-nos uma intervenção que visa a recuperação, a compensação ou substituição comportamental.

É emergente que as nossas escolas tenham este conhecimento no sentido de existir uma maior capacitação e treino dos nossos docentes para saberem identificar o que mais comprometido a criança em sala de aula revela e ajustar um plano educativo individual, tranquilamente solicitando o apoio necessário, com base na lei em vigor para o efeito.

Esta via transdisciplinar de conhecimentos e recursos (incluído a família), permite que todos sejamos mais eficazes na prática, no trabalho com todas as crianças que diretamente e indiretamente a estas estão ligados como dentro da sala de aula.

Assim é emergente entender o autismo, como um ser em desenvolvimento ao logo da vida, por isso capaz de aprender; e vislumbrá-lo como um ser aprendente, apesar de todas as barreiras e de todas as contrariedades, diferenças e limitações que possa manifestar.

Os pais e a família que estão mais próximos do sujeito com o transtorno do espectro são um dos recursos mais importantes e essenciais para todo o desenrolar do processo de reabilitação pelas informações e riqueza de conhecimento diário que detém sobre o mesmo; são eles que conhecem os interesses, quais as necessidades que revelam, como agem e se comportam nas situações diárias e em novas situações.

As estratégias de intervenção resultam assim, de uma diversidade componentes e recursos humanos e materiais, que juntamente com os resultados obtidos através do conjunto de testes neuropsicológicos utilizados permitirão um trabalho de reabilitação neuropsicológica, que se visa intensivo: a nível cognitivo, comportamental e emocional com a criança o sujeito autista.

Perceber quais as áreas e vertentes afetadas é de extrema importância, quais as consequências associadas a essas lesões ou disfunções para agirmos no sentido de melhorar e reabilitar as funcionalidades através da estimulação neuronal direcionada e planificada para o efeito.

A reabilitação neuropsicológica do autista implica um trabalho biopsicossocial intensivo e específico através de métodos quantitativos e qualitativos de tratamento. Através de exercícios que permitem a plasticidade neuronal, capacidade esta do cérebro de adaptação da sua própria morfologia, assim como de recuperação funcional e regeneração, várias intervenções podem ser realizadas para o reabilitação, com técnicas compensatórias, através de estratégias de substituição comportamental utilizando outros meios possíveis ao sujeito autista de aprender ou reaprender determinada competência que contribua para a aquisição da sua autonomia e bem estar.

Os treinos funcionais não são só aplicados a quem revela lesões cerebrais como as afasias ou hemiplegias, são possíveis de realizar na reabilitação neuropsicológica do sujeito autista através de graus de complexidade visando a reorganização funcional.

As características da personalidade do sujeito estão também associadas e influem em muito nas causas ou natureza da fragilidade cognitiva, esta não é fruto somente de uma lesão orgânica ou cerebral, assim como as reações psicológicas como a ansiedade.

O ambiente envolvente é igualmente importante e influente, como os estímulos, as condições de aprendizagem socioeducativas entre outros aspectos da vida humana. Existem programas bastante eficazes mas para que sejam funcionais e possíveis de aplicar é importante um treino educativo com todos os que interagem com o autista, para que estas metodologias reabilitativas se revelem positivas e dinâmicas é importante a sua aplicação nos diversos contextos que envolvem o sujeito com transtorno do desenvolvimento.

Uma observação atenta por parte dos intervenientes, com registo dos comportamentos e repostas explicitas e implícitas do sujeito em causa, às situações, ou a ausência dessas respostas pelo mesmo, devem ser interpretadas para uma intervenção e tratamento.

A disciplina, as regras, a adequação à realidade do autista, das suas vivências, devem existir, ser respeitadas e de uma forma intensiva, trabalhar para as aquisições, com reforços, eliminando as barreiras possíveis e detetadas.

As funções cognitivas comprometidas podem ser assim trabalhadas após detetadas através da avaliação neuropsicológica e mediante a aplicação de um treino cognitivo o processo cognitivo vai sofrer uma evolução e melhorias pela intensidade, e repetição dos exercícios, das tarefas e práticas.

As metas e as competências a desenvolver podem ser lentas mas graduais e devem ser organizadas e planificadas de uma forma crescente e hierárquica. Cada autista é um autista e o processo deve ser individualizado e personalizado no respeito pelas suas características e história de vida.

Todo este processo de reabilitação implica interajuda e cumplicidade dos pais, familiares e técnicos, em casa, na clinica e escola, para ser possível avaliar e entender os resultados e as melhorias. Os sucessos e os fracassos dependem de cada sujeito e da capacidade de resiliência de cada sujeito à situações para as quais é colocado, assim como com cada um de nós que trabalha com esta realidade do autismo.

Nora Cavaco | Ph.D. em Autismo