O Nacionalismo nos primórdios do futebol algarvio

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Em 1924 o Algarve tornou-se no centro das atenções do futebol nacional. Contra todas as previsões o Olhanense sagrara-se campeão nacional, ao vencer o FC Porto por 4-2, tendo como goleador Raúl Figueiredo, conhecido por «Tamanqueiro». Era um jovem marítimo, que se transformou num atleta de eleição, cujo vigor físico e estilo de jogo impressionou, e revolucionou, o futebol português.

O escritor algarvio, Manuel Teixeira Gomes, nos anos em que foi embaixador em Londres, tornou-se num fervoroso adepto de futebol. Quando regressou à pátria, para assumir a Presidência da República, não perdia um jogo no velho estádio do Campo Grande, mítica casa do Sporting.

Causava transtorno nas bancadas a presença do Presidente da República, sujeito a ser incomodado por algum descontente da política. Então quando em campo estava uma equipa algarvia, esquecia-se do seu estatuto e ovacionava os atletas com a efusão de simples adepto.

Foi, aliás, Teixeira Gomes quem melhor descreveu o estilo de jogo do Tamanqueiro: «tem uma forma juvenilmente obstinada, caindo, erguendo-se, pulando, cheio de elasticidade, como se a terra lhe servisse de trampolim».

O famoso goleador algarvio seria transferido, no ano seguinte, para o Benfica, onde prosseguiu a sua carreira com sucesso.

Nessa altura, para incentivar a prática do futebol realizavam-se pequenos torneios que ajudaram a manter viva a chama das competições desportivas em todo o país.

O próprio Presidente Teixeira Gomes chegou a patrocinar troféus que ele próprio se encarregava de entregar, cumprimentando os contendores com o seu britânico desportivismo.

No Algarve esses torneios disputavam-se nas alturas festivas, realizando-se até encontros internacionais, nomeadamente em Vila Real de Santo António, por ocasião do Natal ou pelas «Festas da Vila».

O Libertador Futebol Clube, e o Real Clube Recreativo, ambos de Huelva, dispunham-se ao confronto, acrescentando-se na década de trinta o Ayamonte Clube de Futebol.

O Luzitano de VRSA era o anfitrião, no qual jogava, o Norberto Cavém, pai do célebre Cavém, que viria a ser bicampeão europeu pelo Benfica.

A marcação de um penalti contra o Farense no estádio da S.ª da Saúde.

Os falsos amigos de Beja

Nos inícios do futebol, os clubes enviavam ofícios a desafiarem-se mutuamente para um confronto de forças, havendo sempre lugar ao pedido de desforra.

Uma dessas «cartas de desafio» foi enviada em 1917 de Beja, para o S.C. Farense, com promessa de pagamento das despesas de deslocação e alojamento.

O desafio era para disputarem dois jogos. Foi a primeira vez que os de Faro saíram para competir fora da região.

A imprensa local referiu que o campo estava cheio de público e que os algarvios no primeiro dia derrotaram o «Águias F.C.» por 3-1, tendo no dia seguinte esmagado por 13-0 a equipa dos «Onze Amigos».

O pior é que os bejenses, ofendidos pelo opróbrio da derrota, recusaram-se a pagar as prometidas despesas de deslocação. Os gloriosos leões de Faro tiveram de regressar a pé, por não terem dinheiro para a viagem de comboio.

A fundação da AFA

Os jogos realizavam-se em campos às vezes improvisados. Os árbitros nem sempre eram imparciais, suscitando divergências e até desacatos.

Os jornais não relatavam os desafios, raramente mencionavam os plantéis e o resultado final.

A prática do futebol não obedecia a um planeamento competitivo, nem à organização de uma escala regular de desafios. Não havia um corpo de juízes independentes dos clubes, e sobretudo, faltava organizar um campeonato.

Para isso havia que criar uma entidade reguladora da competição. Nasceu assim a Associação de Futebol do Algarve, fundada em 1917, registada em 1918, mas só oficializada pelo Governo Civil de Faro a 27-10-1924.

Nesse ano, a associação inscreveu-se na União Portuguesa de Football, que em 28-3-1926 passou a designar-se por Federação de Football Association.

Foi só em 3-12-1938 que esta agremiação adquiriu a atual denominação de Federação Portuguesa de Futebol (AFA).

A Taça Algarve e as seleções regionais

A nível distrital havia uma espécie de agenda regional de confrontos desportivos, que poderemos designar por torneios de futebol. O primeiro de que existe memória designou-se «Taça Sagres», e destinava-se aos clubes do Barlavento.

O seu crónico vencedor era o Portimonense S.C.

Quase ao mesmo tempo disputava-se a «Taça Algarve», uma espécie de campeonato regional, em que participavam os dez clubes inscritos na Associação de Futebol do Algarve, a saber: Sporting Club Farense, Sport Lisboa e Faro, Boxing Foot-ball Club, Sporting Club Olhanense, Luzitano Foot-ball Club, Esperança Foot-ball Club, Gloria Foot-ball Club, Portimonense Sporting Club, Sport Club União e Sport Club Os Leões Portimonenses.

Devido ao sucesso obtido em 1924, com o Olhanense a sagrar-se Campeão de Portugal, passaram a realizar-se outros desafios de carácter mais abrangente, com base em equipas constituídas pela escolha dos melhores atletas de cada distrito. Nasceram assim as seleções regionais.

Organizaram-se confrontos entre elas, com vista à formação de uma equipa nacional. Exemplo disso foram os torneios Lisboa-Algarve, que se iniciaram em 1924, quando os algarvios tinham uma equipa de eleição.

Animada disputa de bola, com o atacante algarvio a cabecear a bola.

A seleção do Algarve contra Lisboa

Os primeiros confrontos entre seleções regionais foram promovidos em parceria pelas Associações de Futebol de Lisboa e do Algarve.

Nasceram assim os primeiros torneios regionais, à margem do Campeonato de Portugal de Futebol, que nesse ano havia consagrado o Sporting Clube Olhanense como Campeão Nacional.

Realizaram-se, vários confrontos entre Lisboa-Algarve, superados em geral pelo team da capital.

Curiosamente a seleção do Algarve era constituída, única e exclusivamente, por jogadores do S. C. Farense e do S. C. Olhanense, ficando dela excluídos os atletas dos restantes clubes algarvios, a saber: Sport Faro e Benfica, Ginásio Clube Olhanense, Glória F.C. e Luzitano F. C. (ambos de VRSA), Glória ou Morte Portimonense, Sport Lisboa e Lagos, S.C. Portimonense, Silves F.C., C.F. Esperança de Lagos, Marítimo Olhanense e Imortal Desportivo Clube (de Albufeira).

A exclusão destes clubes da seleção do Algarve era uma injustiça. Mas a verdade é que só aqueles possuíam meios de sustentabilidade para garantir a regular atividade desportiva. Todos os outros eram amadores, carentes de meios logísticos e financeiros para poderem competir .


O primeiro desafio do «II Lisboa-Algarve» disputou-se no campo de Palhavã (estádio emprestado ao Benfica pelo Império Lisboa Clube), onde os lisboetas venceram os algarvios por 3-0. Diz a crítica que o árbitro ajudou os da casa a construir o resultado. Era o nacionalismo a dar mostras da sua ascensão ao poder, e a evidenciar a supremacia centralista de Lisboa.

O intruso estrangeiro

O pior é quando se mistura a política com o desporto. Foi o que aconteceu. O público assistiu, ainda antes do jogo se iniciar, a um gesto de xenofobia, demonstrativo da contaminação ideológica do desporto.

Os atletas algarvios, talvez influenciados pelo espírito nacionalista que já então intoxicava o país, recusaram-se a jogar capitaneados por um estrangeiro. O tumulto foi visível em campo.

O público apoiou a desunião, e o jogo só se iniciou com a destituição do tal estrangeiro, «insultuosamente infiltrado» nas hostes algarvias.

Na verdade, a seleção do Algarve apresentou-se em campo capitaneada por um cidadão suíço, de nome Leiber. Consta que seria um bom jogador, a ponto das críticas publicadas no «Sul Desportivo» (órgão de Faro), o considerarem o melhor player da Taça Algarve.

Mas quando as equipas se dispunham a entrar em campo os algarvios geraram um tumulto nos cabines, ameaçando a realização do encontro.

Discordavam da nomeação do atleta suíço para capitão da seleção algarvia. Gerou-se um alvoroço que só acalmou com a destituição do intruso estrangeiro, cuja presença, diziam, insultava a honra patriótica dos algarvios.

Este procedimento xenófobo, dizem que foi «soprado» pelos lisboetas, que assim desuniram o seu adversário.

A prova disso é que o «Diário de Notícias» refere-se ao caso com o reproche do patriotismo ideológico: «Um facto notamos na seleção algarvia que nos desagradou e que é mister pôr em relevo, para que não se repita (…) O cargo de capitão foi entregue ao suíço Leiber. Reconhecemos no citado jogador qualidades excelentes que o tornam um valioso elemento como técnico de foot-ball (…). Mas tenhamos as coisas na devida conta, é mau sistema dar a um jogador estrangeiro a chefia duma equipa portuguesa». Em todo o caso, no III Lisboa-Algarve, aprazado para 26 de março de 1925, o suíço Leiber aparecia escalado como capitão da seleção algarvia!!!

A vitória algarvia e a arbitragem

A desforra teve lugar no Estádio Atlético da Senhora da Saúde, em Faro, construído de raiz para fins desportivos, em 1923, tendo os algarvios vencido os lisboetas por 3-2.

O árbitro, um tal Rogério Peres, tinha sido nomeado para dirigir o jogo com rigor e imparcialidade. Terminado o encontro, os jogadores visitantes quiseram tirar desforço do árbitro, porque alguém lhes disse que o juiz prometera nas cabines «que o onze da AFA sairia vitorioso».

Os lisboetas não se contiveram nos insultos ao árbitro, que aguentou a borrasca sem expulsar ninguém.

Aproveitamos o ensejo para esclarecer que até à década de quarenta foi este estádio o palco desportivo do Sporting Clube Farense e do Sport Faro e Benfica.

Nessa altura a Câmara de Faro comprou o antigo Santo Stadium, na zona de São Luís, que estava inativo por falência da sociedade promotora que o edificou na década de vinte. É esse o espaço do atual Estádio São Luís, em Faro.

O terreno do antigo Estádio Atlético da Senhora da Saúde foi vendido ao Estado nos finais da década de cinquenta, nele se implantando o Emissor Regional do Sul.

Aí funcionou a Rádio Algarve, até aos nossos dias.

Porém, foi agora vendido, o imóvel e o terreno do antigo estádio, a um consórcio imobiliário para aí se construir um condomínio de luxo.

É o fruto dos tempos. Mas também é o fruto do desinteresse dos algarvios pelo seu passado. E quando se perdem as referências e se despreza a história, deixa-se simplesmente de existir…