«O Medo»

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Numa recente entrevista dada a um jornal, afirmava o filósofo José Gil: «em Portugal não temos crítica por muitas razões, mas fundamentalmente por medo. Nós não queremos entrar em conflito. É um medo disseminado que condiciona as reações».

É verdade, antes do 25 de Abril, havia o medo da PIDE, hoje, «democraticamente», há um medo menos concentrado e mais diversificado: num tempo de precariedade de emprego, o medo do protesto ou da reivindicação, por mais justos, não vá a entidade patronal deixar de renovar o contrato a prazo; o medo de se exigir ao senhorio uma pequena reparação que seja na casa arrendada, não vá ele, igualmente, não renovar o contrato de curta duração; o medo de se não cair na «simpatia» do diretor dum qualquer serviço público e se ver, por via disso, discriminadamente desclassificado profissionalmente e não promovido; o medo, num tempo de crise financeira, em particular, dos pequenos órgãos de comunicação social, de se publicar algo que possa vir a desagradar a um qualquer anunciante e ser-se penalizado com o corte de publicidade por parte do mesmo; o medo de se exprimir livremente algo que não agrade à «nomenclatura» do partido e ver-se marginalizado pela dita…

E onde há medo, como se não bastasse, a par da perda de solidariedade para com o outro, surgem com facilidade, por sua vez e como acontecia no tempo da PIDE, os «bufos» e os acríticos «lambe-botas», na procura de serem prendados pelo patrão com uma «promoçãozita» precoce, pelo diretor com uma qualquer chefia em «regime de substituição» e/ou «generosa» classificação de serviço, pela «nomenclatura» do partido com um qualquer «cargozito» no poder, por este, entretanto, conquistado…

Sucede, porém, como escreveu um dia o poeta Alexandre O’Neill, «o que o medo quer é que tenhamos medo», enquanto Bob Marley, por sua vez, nos dizia que «mais vale a lágrima da derrota, do que a vergonha de não ter lutado».

Que no novo ano e em particular no que diga respeito à juventude, já que o futuro a ela pertencerá, se saiba, pois, enfrentar o medo que o medo quer que dele se tenha, não se sentindo a vergonha de contra ele não se ter lutado!

O mundo só pula e avança sem medo!

Luís Ganhão | Jurista