O Homem e o Livro

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  1. Uma noite destas, o meu amigo Zé saiu de casa, após o jantar, para a sua volta higiénica, como é seu hábito. Ao passar por uma Ilha Ecológica, um objeto volumoso atraiu a sua atenção. Aproximando-se, no meio da semi-obscuridade da rua, constatou, com grande surpresa, tratar-se de enorme caixa de papelão, retangular, cheia de livros. Largos segundos de expectativa depois, enquanto olhava a rua para norte e para sul, não fosse algum transeunte apanhá-lo em estranha operação, decidiu-se e pôs-se a folhear os livros, um a um, constatando que todos se encontravam em perfeitas condições. Tratava-se de clássicos da literatura mundial. Acabou por ser surpreendido por um vizinho que logo o interpelou: «a deitar livros para o lixo, doutor?» Que não senhor, era o contrário do que parecia, foi a resposta. Mas o outro também gostava de livros. De modo que negociaram a distribuição entre os dois. Daí ao acto de pegar na caixa e regressar a casa, foi um ápice. Nessa noite o Zé mal dormiu, com a trabalheira de acondicionar livros em espaços inventados mais a excitação daquele acaso. O meu amigo Zé adora livros e é leitor compulsivo.
  2. Os dados existentes sobre a relação do homem com o livro fornecem-nos a mais extensa e variada informação. A mais violenta forma de censura ao livro é a sua destruição física: o livro não é, nesse caso, apenas proibido, ou seja, retirado da circulação – é aniquilado, queimado, de preferência na praça pública, para exemplo e proveito. Os nazis não foram os primeiros a queimar livros, mas souberam fazê-lo com pompa e circunstância. Deram início às suas ações purificadoras, em 1933, quando uma parada de milhares de estudantes, munidos de tochas, deitou fogo a uma pilha de vinte mil livros, na Universidade de Berlim, perante o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, que, simultaneamente, proclamava: «a alma do povo alemão pode exprimir-se. Estas chamas (…) iluminam (…) o fim de uma era e acendem uma nova». Felizmente nem todos os seres humanos são igualmente inclinados à queima de livros. No outro extremo, poderíamos citar o filósofo Montaigne que, perguntado sobre o que faria se lhe dessem a escolher entre queimar os filhos e queimar os seus livros, respondeu candidamente que preferia queimar os filhos. Queimadores de livros houve em todos os tempos e de todos os formatos. O pior deles talvez tenha sido o primeiro imperador da China, Shi Huang Ti (250-210 a.C.), que mandou enterrar vivos 460 académicos e queimar todos os livros existentes no reino, excepto um exemplar de cada um, que mandou depositar na biblioteca real. Houve vários mártires célebres entre os autores de livros: desde Sócrates, que, aliás, não deixou um único livro, limitando-se a exprimir os seus pensamentos na praça pública, sendo, por isso, obrigado a morrer, tomando cicuta; Lucano, poeta romano, a quem Nero, ciumento da sua poesia, ordenou que se suicidasse; Amra Tarajara, poeta persa, enterrado vivo por ter escrito um poema em que criticava o rei; Alessandro Cagliostro, que apodreceu numa prisão romana por ter escrito obras consideradas heréticas; André Chénier, guilhotinado por ter escrito contra o Terror; Maksim Górki, que terá sido envenenado por ordem de Estaline; John Milton, autor de Paraíso Perdido, que escapou por pouco de subir ao cadafalso por ter escrito contra o direito divino dos reis (valeram-lhe alguns amigos); Boris Pasternak e Alexander Soljenitsin tiveram graves problemas com o poder russo por causa dos livros; Hemingway viu os seus livros queimados pelos nazis, mas «As Vinhas da Ira», de Steinbeck, não precisaram de sair dos Estados Unidos da América para sofrerem igual tratamento. Em 1939, o livro foi queimado pela Biblioteca Pública de St. Louis,
    no Missouri.
  3. Há poucos meses, o meu compadre Aniceto lançou um livro. Convidada, a nomenclatura local do seu partido justificou a ausência à sessão de lançamento com um comentário: «não vale a pena. Trata-se, mais uma vez, de política»! Antes de mais, não deixa de ser irónica a circunstância de indivíduos que praticam a atividade política como forma de se afirmarem na comunidade rejeitarem a sua presença ativa num acontecimento dito «político». Em segundo lugar, o juízo preconcebido (e desdenhoso?), sem conhecer a obra, revela um tipo de comportamento que lembra uma conhecida estratégia/propaganda para deixar deserto o lugar do outro – o tempo da censura e, mais tarde, do PREC deram-nos exemplos suficientes. Por fim, fica-nos a ideia de que tal ausência esconde uma forma subliminar de censura: não estar presente é uma forma purificadora de desejar que a coisa corra mal, que o livro não aconteça.
    Resta alertar o leitor: dizia Milton que quem destrói um livro destrói a própria Razão e mata a imagem de Deus. Há livros, alguns, pelo menos, que melhoram a alegria de viver.

Manuel da Luz | Cidadão algarvio