Maço de notas

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Filho de um deus menor

Quando olhamos para o designado aparelho judiciário, não podemos deixar de ter sentimentos contraditórios. Por um lado, vemo-lo capaz de detetar e colher as ervas daninhas que nele próprio possam surgir; mas, por outro, não podemos deixar de nos surpreender com certo tipo dessas ervas, que nunca imaginaríamos viessem no seu seio a crescer.
Depois, para além das morosidades nele registadas, temos as sucessivas violações do segredo de justiça (ainda que tal violação nele não se esgote), transformando-o numa autêntica anedota nacional, levando aos sistemáticos julgamentos na praça pública, sem qualquer tipo de contraditório e garantia de defesa, em que quem nela é julgado, mesmo que inocentado, depois, no lugar próprio, ficará com a sua imagem marcada para todo o sempre.
Tudo isto, talvez, por o aparelho judiciário, pelos sucessivos governos, sempre ter sido visto como «filho de um deus menor», sem investimentos e rigores devidos na seleção dos seus membros, bastando-lhe dar resposta aos simples pilha-galinhas. Vá se lá saber porquê, embora, por vezes, desconfiemos das respetivas razões.

A «Nova» Banca

Não, não terá ocorrido no tempo dum BPN ou BES, mas ter-se-á registado agora. Segundo a Bastonária dos Contabilistas Certificados, terá havido na banca gestores de contas a sugerirem às empresas clientes que, junto dos respetivos contabilistas, conseguissem que estes passassem declarações falsas no respeitante à sua faturação, de forma a, assim, poderem ter acesso a linhas de crédito da COVID-19 com garantia do Estado. E que tendo havido contabilistas a recusar tal prática, não terão, contudo, faltado outros a prontificarem- se a fazê-lo, substituindo-os nas aludidas empresas.
A confirmarem-se tais fatos, imagine-se o regabofe que poderá vir aí quando começarem a chegar os «milhões» da UE, compreendendo-se, assim, que sondagens efetuadas indiquem toda uma desconfiança por parte da população na boa aplicação desse dinheiro.

Futebol

Dir-se-á que toda a modalidade desportiva terá a sua beleza, dai os respetivos adeptos e suas paixões.
Logo, o futebol não fugirá à regra, com a particularidade, até, de não ser uma modalidade de natureza individual, como se observa noutras, mas de carácter coletivo, exigindo dos membros de cada equipa em confronto todo um espírito de entreajuda, de colaboração entre si. Será, talvez, por isso que beneficia de tantos praticantes e simpatizantes por esse mundo fora. Sucede, porém, que o futebol ou certo dele, há muito que foi sendo, gradualmente, envolto por toda uma «nuvem tóxica», feita de corrupção, fugas ao fisco e traficâncias outras, a partir do momento em que se começou a tornar, cada vez mais, num negócio de milhões. E é essa «nuvem tóxica» que manipula e transforma massas de saudáveis paixões clubísticas em gente «gaseada», conduzida aos estádios entre polícias, como se de perigosa manada de gado se tratasse.

Dilemas

Com o surgimento da pandemia, o dilema começou por ser entre o morrer-se do mal ou da cura, que o mesmo era perguntar se deveríamos dar prioridade à saúde pública ou à economia. À medida que, entretanto, a pandemia foi avançando, outros dilemas foram surgindo, como o de saber-se se haverá o direito, como já há quem o questione*, de sacrificar-se a plenitude da vida dos jovens, no seio dos quais o risco associado ao vírus será mínimo, aos últimos anos de vida dos velhos, onde tal risco será máximo ou vice-versa. Que equilíbrios, que solidariedades possíveis entre gerações? Quem terá respostas fáceis para tais dilemas?

*«É justo sacrificar o futuro de uma geração para termos mais anos de vida noutra?» – perguntava, recentemente, Daniel Oliveira, no programa televisivo «Eixo do Mal».

Assim vai o mundo ocidental

No designado mundo ocidental, tido como vanguarda civilizacional do mundo todo, como se já não bastassem os negacionistas das alterações climáticas como um Trump ou Bolsonaro, tem-se, agora, também, o negacionista do direito internacional de seu nome Boris Jhonson, ao «mandar às urtigas» aquilo que o seu país havia começado, inicialmente, por acordar com a União Europeia no respeitante ao Brexit! Mundo ocidental, de resto, com sinais preocupantes de ter ensandecido: os EUA mais parecem um manicómio, onde Trump trata a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosa, como «louca» e esta o mimoseia como sendo um «obeso mórbido», enquanto se vai cavando todo um fosso entre os americanos. No Brasil, por sua vez, as mais diversas seitas religiosas tomaram conta do poder, servindo-se dum Bolsonaro que, entre outras virtudes, apresenta no seu «curriculum» o já ter passado, até hoje, por nove partidos!
Entretanto, cá por casa, na Europa, as negociações entre o Reino Unido e a UE, no âmbito do Brexit, mais parecem uma simples «telenovela» do que outra coisa, com o atrás referido Boris num dos papéis de ator principal. Que mais «espetáculos» virão a ser proporcionados pelo mundo ocidental ao resto do mundo, com, nomeadamente, um Xi Jinping e Putin na plateia, a baterem palmas divertidos?

Algarve e o seu peso eleitoral

Conhecido dirigente associativo do mundo empresarial algarvio, queixava-se, recentemente, da insuficiente atenção dispensada pelo poder central à região, justificando tal facto com o pouco peso eleitoral da mesma. Traduzindo por miúdos, o Algarve rendia poucos votos e os governantes olhariam, preferencialmente, para as regiões onde, em tempo de eleições, mais votos pudessem colher.
Admitindo-se tal premissa, há que reconhecer, contudo, que se o peso eleitoral do Algarve já não será muito, menos peso terá quando as suas «elites» não conseguem mobilizar os algarvios para o voto, como se verificou nas últimas eleições legislativas, em que mais de metade deles preferiu ficar «sentado no sofá em casa ou ir para a praia», como titulava na altura um jornal da própria região!

Sistema lixado

Nós, «Tugas», conforme economistas encartados e outros mais nos acusaram, andávamos a viver, com recurso ao crédito, acima das nossas possibilidades, gastando mais do que aquilo que ganhávamos.
Para pôr fim a tal regabofe e garantir aos nossos credores o recebimento daquilo que nos haviam emprestado, foi chamada a Troika.
Aprendida a lição com as «reguadas» que a dita Troika por nós se fartou de distribuir a torto e a direito, a que se juntou , agora, o aviso de que a crise vivida por força dum microscópico vírus , não só não terá data de término, como tenderá a agravar-se, começamos, pois, a poupar, dentro do possível.
– Qual quê! Tal não pode ser, porque sem consumo as fábricas não escoam a sua produção e são obrigadas a despedir, a encerrar! – gritam-nos os mesmos acusadores de ontem.
– Está bem, nós vamos, então, deixar de poupar. Mas já agora: e se aumentassem, um pouco só que fosse, o ordenado mínimo, para podermos consumir um pouco mais?
– Nem pensar, isso provocaria desemprego, encerramento das fábricas! Recorram ao crédito!
– ???!!!

Luís Ganhão | Jurista