José Mora, um artista portimonense quase ignorado

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Nos finais do século XIX, princípios do seguinte, era Lisboa, então como hoje, não só a capital do Império, como também o fulcro da cultura e da criação artística nacional.
Razão pela qual se transformara num autêntico magnete de sedução e aliciamento para os novos e mais promissores talentos nacionais.

O jovem algarvio José Mora, foi mais um dos que emigraram para a capital à procura de uma oportunidade de vida e do tão almejado sucesso. Alcançou-o, embora vagamente, no teatro.

Os primeiros passos na Arte de Talma iniciou-os no Teatro de São Camilo, que abria portas aos domingos nas instalações do Grémio Familiar, sediado na Rua Direita da sua terra natal, a sempre próspera, mas então quase ignorada Vila Nova de Portimão.

Era nessa altura o centro portuário de maior projeção regional, pelo qual se escoavam muitas toneladas de conservas de peixe, de figo, amêndoa, azeite, vinhos e aguardentes, cortiça, esparto, e uma miríade de outras produções locais, de entre as quais se distinguiam os citrinos de Silves.

Várias foram as famílias que beneficiaram das potencialidades daquele porto, sem o qual não teriam desfrutado do empreendedorismo com que enriqueceram, mercê do volume de negócios efetuados para a Europa, Brasil e América do Norte.

Ficaram na memória dos portimonenses as famílias Bivar e Vilarinho, fomentadoras da indústria corticeira, os Júdice Fialho e os Feus, magnatas da indústria transformadora das pescas, sem esquecer nos primórdios do século passado a família Teixeira Gomes, que se dedicou com enorme sucesso à exportação de frutos secos, vinhos, aguardentes, esparto, canas, cordas e toda a casta de produtos regionais.

O mais notável descendente dessa cepa mercantil, foi Manuel Teixeira Gomes, um jovem dotado de grande inteligência, muito sensível à criação artística e provido de enorme talento para as letras.

Com o evoluir do tempo, e sobretudo na esteira da implantação da República, viria a distinguir-se na política, chegando à mais alta magistratura nacional.

Como romancista e dramaturgo, escreveu algumas das melhores obras da literatura portuguesa do século XX, razão pela qual conserva um lugar de destaque entre os nossos maiores escritores.

José Mora, em breve, deixaria o seu grupo de amadores e os improvisados tablados, que a muito sacrifício se erguiam nas associações operárias, para tentar a sua sorte na companhia do Teatro Lethes, em Faro.

Antiga gravura do Teatro Lethes, em Faro, nos finais do séc. XIX.

Distinguiu-se logo pelo fulgor histriónico da sua voz, e pela estampa física, tenteando o êxito em pequenos monólogos poéticos e depois em peças mais exigentes de autores consagrados.

A família Cúmano, sustentava o palco e a Companhia do Lethes, com a ampla generosidade da sua avultada fortuna, que apesar de tudo não conseguiu resistir à morte do seu principal promotor, nem à crise provocada pelo célebre Ultimatum, que no fim de século exauriu as finanças públicas e mergulhou o país num ciclo de privação e austeridade.

Perante a realidade, dura e crua, não restava ao jovem José Mora outra solução senão rumar à capital, para onde, aliás, se costumavam dirigir os que nesse tempo dessem provas de talento e de competência profissional.

Mercê das suas capacidades naturais de inteligência para se adaptar à interpretação, e da sua prodigiosa memória para decorar rapidamente os papéis de cena, em breve arranjaria trabalho. Estreou-se, ao que parece, no Teatro Avenida, do conceituado empresário Luiz Galhardo, a 7 de agosto de 1914 .

Mas um amigo, reconhecendo-lhe as qualidades, levou-o para a Companhia Taveira, no Teatro da Trindade, que aliás já o conheciam aqui do Lethes.

Pouco depois foi para o Teatro Gymnasio, do célebre Actor Valle – que também já tinha vindo a Faro – e dali não tardou a ir para o Teatro D. Amélia, cujo empresário, o ilustre Visconde de S. Luiz Braga, pontificava pela descoberta dos melhores talentos na Arte de Talma, que dali seguiam quase todos para os glorificados palcos do S. Carlos e D. Maria.

Os principais Teatros de Lisboa nos inícios de 1900.

Com que pena, à distância de mais de um século, avaliamos hoje a carreira de José Mora, uma grande promessa do teatro na capital, em cujos tablados, e eram muitos, se representavam diferentes géneros, da tragédia à comédia, com particular relevo para a interpretação das peças de grandes vultos da dramaturgia nacional, desde Garrett, Herculano, Pinheiro Chagas, Mendes Leal, D. João da Câmara, Lopes de Mendonça, Marcelino Mesquita até ao jovem Júlio Dantas.

Tivesse ele mais juízo e mais cuidado na escolha das suas amizades, e certamente estaríamos hoje a falar de uma grande figura do tablado artístico nacional.

Deixou-se seduzir pela estúrdia da vida noturna, misturando a bebida com os amores mercenários, confundindo as exigências do trabalho com o laxismo da boémia.

Em breve começou a dar sinais de decadência. Faltava aos ensaios, embriagava-se com a malta da estiva, contraiu doenças, desempregou-se, enfim… apressou a morte, quando os traços da juventude ainda ornavam o seu rosto de Apolo.

Perdeu-se um talento que dera sinais de grande exuberância no papel do Romão Alquilador, nessa imortal peça «A Severa» de Júlio Dantas, que depois se transformaria num dos romances de maior sucesso na literatura portuguesa.

Antiga Rua Direita, em Vila Nova de Portimão, cerca de 1900.

Na opinião dos melhores críticos de teatro, com assento na imprensa do início de século, foi José Mora muito elogiado, não só na «Severa» como ainda nos dramas de «Maria Antonieta», na «Morgadinha de Valflor», de Pinheiro Chagas, na comédia «Negócios são Negócios», e em muitas outras, a que já não chegaria senão a papéis secundários.

Nasceu este desafortunado rapaz na então Vila Nova de Portimão, em 12 de agosto de 1879 e faleceu em Lisboa a 29 de janeiro de 1928, com 48 anos de idade. É assim a vida artística, por vezes o caminho do êxito e da fama torna-se tão sinuoso e labiríntico, que pode conduzir os incautos à caverna de Minotauro.