Guilhermo de Loulé, um algarvio na viagem de Fernão de Magalhães

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Por que razão, um rapaz com uma idade entre os 16 e os 20 anos de idade vai para o sul da Andaluzia e se alista numa nau, a qual incorporou outras quatro e inscreveu, sem se dar conta disso, o seu nome na História da Humanidade?

Comemora-se até 2020 (tanto em Portugal como em Espanha) o V Centenário da primeira viagem de Circum-navegação liderada por um homem do norte (Portugal), Fernão de Magalhães, que não a terminou e que teve o seu epílogo com um basco (Espanha), Juan Sebastían Elcano e dada a conhecer ao mundo, sobretudo por um jovem de Vicenza (Itália), António Pigafetta que tinha 28 anos quando ingressou na Armada.

Esta viagem constitui algo verdadeiramente surpreendente no panorama da História marítima mundial e propagada por toda a Humanidade a partir da segunda metade do século XVI.

Do número total de portugueses que se alistaram como tripulantes (pouco mais de 30 homens), apenas se conhecem, como oriundos de localidades bem precisas, o número de 17 tripulantes, desconhecendo-se, efetivamente, e de acordo com os mais recentes estudos, a localidade de origem de Fernão de Magalhães, sabendo-se apenas que seria da área geográfica compreendida entre Vila Nova de Gaia e a cidade do Porto.

Destes 17 homens, a maior parte tem origem no Alentejo e a terra portuguesa que contribuiu com maior número de homens foi Estremoz, onde se alistaram um pai (Álvaro Mesquita) e seu filho (Francisco Mesquita) e um outro natural desta vila alentejana, de seu nome Gonçalo Rodrigues.

Aliás, Álvaro Mesquita (integrando-se como sobressalente na nau Trinidad e mais tarde como capitão da nau San Antonio) viria a ter um protagonismo assinalável no decurso dos acontecimentos durante a viagem, tendo sido preso quando chegou a Espanha em 6 de maio de 1521, provindo da nau desertora – San Antonio, valendo-lhe o testemunho, e a sua liberdade, através de Elcano, quando este chegou a Sanlúcar de Barrameda, no dia 6 de setembro de 1522.

Porém, o seu infortúnio maior seria a perda do seu filho, Francisco Mesquita (que ingressara na nau Trinidad como Pajem de Fernão de Magalhães) e que falecera no dia 1 de maio de 1521, em Cebu, vítima da cilada perpetrada pelo chefe da ilha, que lhe ofertara (conjuntamente com mais de 25 companheiros) um banquete, no qual viria a tornar-se num morticínio.

Não sendo nosso intento caracterizar, neste espaço, o conjunto dos tripulantes portugueses (não só pela ausência de documentação, a qual que encontra no Arquivo das Índias (Sevilha), como também, porque a centralidade deste artigo se relaciona com o único homem algarvio que se alistou na Armada, convém não esquecer que, e atendendo à importância destas comemorações, as quais se estendem até 2022, a homenagem a estes portugueses que ingressaram como capitães, criados, despenseiros, ferreiros, grumetes, homens de armas, pajens e sobressalentes será algo que não podemos esquecer no decurso de cerca de ano e meio que nos falta para findar a efeméride, isto é o dia em que Juan Sebastían Elcano chegou a Espanha ou seja, 6 de setembro de 2022.

No caso do Algarve, pela singularidade de ser o único algarvio a incorporar a Armada, a homenagem a este homem, natural de Loulé não deverá ser esquecida.

Cremos que para tal, a organização de uma exposição centrada na Viagem de Circum-navegação; na tripulação portuguesa e na figura de Guilhermo de Loulé (por vezes a documentação indicia, sem ser explicita, o apelido de Afonso), deverá ser algo a consubstanciar-se ao longo de 2021, tanto mais que é o ano em que se comemoram os 500 anos do seu falecimento, tendo o mesmo perecido nas águas do rio da Prata, ao cair da nau Concépcion, no dia 25 de janeiro de 1521.

Curiosa e infortunada foi a sua morte, pois sendo um jovem do Reino do Algarve, não sabia nadar e ao cair da embarcação, afogou-se.

Este natural de Loulé teria entre os 16 e os 20 anos de idade, as idades associadas aos grumetes, pois, nessa qualidade incorporou a nau Concépcion.

Um seu irmão, de nome Rodrigo Afonso e também grumete, assim como um natural de Tavira, Diogo de Tavira, estiveram para o acompanhar, mas em virtude de serem muitos os portugueses que se alistaram nas várias naus, por determinação régia, não seguiram viagem.

Sobre os seus paradeiros nada sabemos, eventualmente aguardaram por nova possibilidade de se alistarem para outras viagens.

Se a viagem de Circum-navegação foi atribulada, não menos foi a sua preparação.

Entre desconfianças da parte de alguns castelhanos (estando Carlos I sempre ao seu lado) em relação ao capitão-mor Fernão de Magalhães; a dificuldade de se apetrechar as naus e conseguir o número desejado da tripulação para os barcos se fazerem ao mar, Fernão de Magalhães teve de ultrapassar vários obstáculos antes da partida da Armada no dia 20 de setembro de 1519.

Ao se alistar como grumete, uma vez que a sua idade não lhe permitiria outro cargo, Guilhermo de Loulé, sabia que, tal como os outros companheiros, que a longa viagem podia apenas ser de ida e sem retorno.

Bastante novo, deixara a sua terra natal e a sua família, sendo seu pai Tomé Vaz e sua mãe Catarina Martins. Não teria saído de casa sozinho, pois estava acompanhado pelo seu irmão.

A escolha de Guilhermo, um algarvio de Loulé, parece ter sido preferencial à do seu irmão, em virtude, porventura, de ter sido o primeiro a alistar-se.

Porém, não conhecemos, efetivamente, as razões que motivaram a escolha deste em detrimento do seu irmão.

Na verdade, conhecendo a coragem, destreza e experiência (no presente caso era muito novo para ter experiência de mar, estando lá para a conquistar), não encontramos muitos algarvios que se tivessem inscrito nesta Armada.

Pensamos que em virtude de não haver possibilidades de escolha e em número de outros homens (onde se integrariam, eventualmente os algarvios) por parte do capitão-mor, os recursos a estrangeiros para esta Armada (e o seu número é manifestamente enorme) foi uma das alternativas que Fernão de Magalhães teve para assegurar a tripulação das cinco naus.

Não devemos esquecer que Castela já tinha descoberto as chamadas Índias Ocidentais e todos os anos (de acordo com alguns estudos) seguiam nas suas embarcações um número superior aos 6000 homens, não só castelhanos como também estrangeiros.

Podemos dizer que a tripulação que integrou a Armada de Fernão de Magalhães, se não foi a desejada, foi a possível, considerando os pressupostos atribuídos à caracterização-tipo do número tripulantes necessários para este tipo de viagens, sendo a de Fernão de Magalhães atípica, tanto em relação ao destino (novo e desconhecido no trajeto), tanto em relação à liderança (um estrangeiro natural do vizinho reino fronteiriço); uma viagem que tinha a duração de pelo menos dois anos, atendendo ao apetrechamento dos víveres que entraram nas cinco naus e um conjunto de homens de várias geografias europeias e que hoje as integramos em nações e países.

Sobre o percurso de vida de Guilhermo de Loulé, pouco se sabe e, neste momento, aguardamos um conjunto de condições, sobretudo ao nível da investigação documental, para podermos saber um pouco mais do que até agora nos é dado a conhecer.

Por que razão, um rapaz com uma idade entre os 16 e os 20 anos de idade vai para o sul da Andaluzia e se alista numa nau, a qual incorporou outras quatro e inscreveu, sem se dar conta disso, o seu nome na História da Humanidade?

Terá fugido de casa? Terá saído da sua terra motivado por questões de um relacionamento deficiente com os seus progenitores?

E o seu irmão, que dizer de se ter também alistado, mas por razões já evidenciadas anteriormente teve de ficar em terra?

Será que não se incorporou, mais tarde, em outra nau?

Claro que ao conjunto destas questões, não obteremos a resposta desejada, mas ao podermos consultar as Cédulas dos tripulantes onde constam, para além do nome, do apelido (por vezes associado à terra natural e tantas vezes omitido para que pudesse ser mais um homem de Castela (ou de outra região do reino para assim conseguir uma entrada segura numa das naus), do soldo associado à sua categoria, isto é, e para o presente caso, menos de mil maravedis por mês, que lhe seriam adiantados alguns meses.

Guilhermo de Loulé incorporou-se como grumete-tendo a expectativa futura de ascender ao cargo seguinte de marinheiro- e a partir dessa categoria, outros sonhos poderiam ser concretizados, tanto em honras como em fortuna.

Porém, caso não conseguisse subir à categoria de marinheiro durante os próximos 20 anos e se, entretanto, não tivesse sofrido algum acidente durante a sua vida de homem de mar, a sua carreira como grumete estaria terminada muito próximo dos 40 anos de idade.

Cumprindo ordens dos marinheiros e dos oficiais, as funções que lhe estavam acometidas, assim como dos cerca 50 grumetes que incorporaram a Armada, eram as de subir aos mastros dos barcos, recolher as velas, remar os botes, descarregar as mercadorias e abastecimentos necessários para a vida a bordo, carregar a lenha e a agua, e se houvesse algum incêndio a bordo, competia-lhe apagá-lo com água.

Outro trabalho dos grumetes era acompanhar a passagem do tempo. Estavam encarregados de manusear uma ampulheta, gritando aos que iam na nau para os avisar.

Mais tarde, esses gritos seriam substituídos pelo uso de um sino que podia ser ouvido por todos a bordo, que marcava as horas e as meias horas, pelo som do badalo.

Retrato de Fernão de Magalhães, Kunsthistorisches Museum, Viena.

Uma viagem muito atribulada

No dia 20 de setembro do ano de 1519, cinco naus com mais de 240 tripulantes sob as orientações de cinco capitães, sendo um deles também o Capitão-mor, de nome Fernão de Magalhães, intentou na aventura de chegar às Molucas por Ocidente, tendo sido concluída a viagem por um basco com o nome de Juan Sebastian Elcano.

Seria uma viagem muito atribulada, a tal ponto de apenas uma das cinco naus, a nau Victória, com 18 homens (dos poucos mais de 240 que partiram do sul de Espanha em 20 de setembro de 1519) a bordo e sob o comando de um castelhano, o qual receberia as honras de ter sido o Primus circumdedisti me, isto é,«o primeiro a circundar-me», frase que se encontra no listel do seu brasão de Armas concebido por Carlos I de Espanha, chegaria ao ponto de partida daquele dia 20 de setembro de 1522, isto é, Sanlúcar de Barrameda.

A fome (chegou-se ao limite extremo de se comerem ratos e couros das velas das naus), a sede, o frio polar (onde se dá noticia de alguns homens que morreram em virtude das suas mãos terem caído por congelação), temperaturas estremas de calor abrasador, assim como onde os motins aconteceram e tiveram um fim cruel e aterrador.

Houve ciladas (ficando célebre a acontecida em Cebu que, a pretexto de um banquete, um grupo de 27 tripulantes foram chacinados), bem como foram testados os limites da sua resistência, fadiga e exaustão, poderemos descrever esta autêntica odisseia marítima como única e singular, dando-nos conta da mesma os seus cronistas e, de uma forma substantiva, Antonio Pigafetta.

Será com base neste homem de Vicenza, e em alguns estudos editados recentemente, que ao longo destas linhas, iremos descobrir algumas vicissitudes, peripécias e constatações bizarras que ultrapassam os limites da imaginação dos homens e mulheres da primeira metade do século XVI.

Na verdade, quando a Armada da Especiería (assim referida na documentação e também conhecida por Armada das Molucas), saiu de Sanlúcar de Barrameda (cidade localizada no sul da Andaluzia), Juan Sebastian Elcano, um basco de cerca de 32 anos de idade, entrou como tripulante da nau Victoria, sendo seu contramestre (encarregado do aparelhamento e das velas da embarcação) e sob o comando de Juan de Quesada.

Ao longo da viagem de Circum-navegação, entre muitas vicissitudes, veio a mostrar-se um grande marinheiro, onde a coragem, audácia, determinação, destreza e espirito de liderança, de regressar pelo Oceano Índico, zona interdita aos espanhóis pelo Tratado de Tordesilhas, preferindo arriscar a sua vida e daqueles que o acompanharam, sabendo ainda que não usufruía dos necessários conhecimentos de navegação, fez dele o digno homem de mar, o quinto capitão da nau Victoria, que, tal como o levara na viagem, o traria a Espanha (antes dele foram capitães Luís de Mendoza, Luís Alonso de Goes, João Lopes Carvalho e Gonzalo Gomes Espinoza).

O capitão inesperado foi presenteado pelo seu feito com as maiores honrarias que desfrutou por parte do rei Carlos I ao ter conseguido a viagem de retorno a Espanha e ter evidenciado com a nau carregada de especiarias (sobretudo, o cravo), que de onde viera aquele carregamento, via travessia por Ocidente, poderia vir muito mais, no futuro.

Canibais no itinerário de Fernão de Magalhães e Juan Sebastían Elcano

A viagem de Circum-navegação teve a duração de três anos e 14 dias. Durante esse tempo, alguns episódios marcariam a vivência da tripulação e pelas suas singulares características, destacamos algumas peripécias e constatações bizarras, sobretudo quando a Armada chega ao território que viria a ser designado por Patagónia.

Aos olhos dos ocidentais dessa época tais constatações seriam inéditas, nomeadamente sobre os comportamentos e atitudes dos povos que encontraram.

Passariam apenas quatro meses, quando se deu a primeira baixa na tripulação: -Antonio Solomon, italiano, contramestre da nau Victoria no dia 20 de dezembro de 1519 foi executado pelo pecado de sodomia. Mais tarde, o seu companheiro deste pecado nefando, Antonio Genovês (também mencionado como Antonio de Varesa) viria a suicidar-se, no dia 27 de abril, atirando-se ao mar, morrendo afogado.

O seu corpo seria reconhecido, junto a uma praia, no dia 21 de maio do mesmo ano.

No dia 1 de abril do citado ano, no porto de São Julião, assistiu-se à sublevação de Juan de Cartagena, Gaspar Quesada e de Luís de Mendonza, apoderando-se estes capitães da nau San Antonio. O motim e o não cumprimento das ordens do capitão-mor são as razões para a condenação à morte de tanto e Luís de Mendonza (no dia 4 de abril foi esquartejado em terra) como de Gaspar Quesada que no dia 7 de abril o foi decapitado e esquartejado pelo próprio criado. Caso não o fizesse, seria ele a sofrer a pena capital. Era este o castigo para os traidores.

Fernão de Magalhães assume aqui um comportamento de crueldade e de impiedade para com o capitão castelhano. Quanto ao outro capitão, Juan de Cartagena, o seu destino seria o desterro, junto com um dos capelões da Armada. Este, seria recolhido mais tarde pela nau desertora, San Antonio que regressaria a Espanha no dia 6 de maio de 1521.

Quando a Armada chega ao rio São Julião e após dois meses de estar ancorada, tem contactos com um povo nómada, a quem Fernão de Magalhães lhes deu o nome de Patagones (homens de pés grandes), de estrutura corporal muito maior que a dos tripulantes da Armada (Pigafetta salienta que eram tão altos que em contacto com estes homens patagões, a cabeça de um europeu chegava à cintura de um desses indígenas).

Durante meses, os contactos havidos entre estes gigantes e as relações estabelecidas, deram ao europeu um novo conhecimento multifacetado das vivências destes homens e mulheres, relatando o cronista viajante alguns pormenores singulares, como por exemplo que o frio era tal que estes homens atavam o seu órgão genital entre as pernas para o preservar.

Ou que as mulheres não eram tão altas como os homens, porém mais gordas.

Quando chegaram próximo delas ficaram estupefactos, pois tinham os seios enormes caindo os mesmos até metade do braço.

Apresentavam-se pintadas e nuas como os homens, tapando os genitais com uma pele de animal. A nudez feminina e masculina é amplamente referida, constituindo uma constante ao longo do avistamento das terras por onde armada passou.

Quando os homens eram apartados das suas mulheres, choravam. Um desses habitantes, entusiasmado com a Fé Cristã, sentindo a sua morte, pediu um crucifixo, beijando-o e abraçando-o, solicitou que fosse batizado, tendo sido dado o nome de Pablo.

Anteriormente um outro também recebera o nome de Juan e outros dois (mais jovens) foram capturados e seguiram nas naus, tendo um morrido no Pacífico e outro na nau San Antonio, a caminho de Espanha.

Entre 21 de outubro e 18 de dezembro é descoberto o cabo que tomou o nome de «Onze mil Virgens», que marca a entrada do Estreito que havia de ter o nome de Magalhães, inicialmente apelidado de «Canal de Todos os Santos».

Assim como se dá início à travessia do Oceano Pacífico. Tratar-se-ia de uma travessia superior a 18000 km, isto é o tempo que medeia a saída do estreito (28 de novembro de 1520) a chegada às ilhas dos Ladrões (Guam).

O ano de 1521 é marcado, no dia 25 de janeiro, pela morte do grumete de Loulé, Guilhermo, que, debruçando-se sobre a borda da nau Concepcíon, cai à água e, porque não sabia nadar, afogou-se.

Nesse ano dá-se descoberta de várias ilhas, destacando-se a ilha dos tubarões, onde são apanhados pequenos exemplares para matar a fome à tripulação.

No dia 27 de abril de 1521, morre Fernão de Magalhães em virtude do ataque perpetrado pelos castelhanos aos ilhéus de Máctan.

Destacamos ainda o famoso «banquete de sangue» realizado no dia 1 de maio que, a pretexto de um convite do Rei de Cebu para uma reconciliação com seu povo e os tripulantes (agora divididos três naus) com vista a ultrapassar os acontecimentos do dia 27 de abril, são mortos mais de vinte cinco membros da tripulação.

A nau Concepción é abandonada no dia 2 de maio de 1521 por falta de tripulantes e incendiada pelos restantes membros da tripulação junto da ilha Bohol, nas Filipinas.

No dia 16 de setembro, Juan Sebastían Elcano é nomeado capitão da nau Victoria, cargo que mantém até chegar a Espanha no ano seguinte.

A luxuriante vegetação, a flora e fauna são referenciadas amplamente, assim como os costumes dos habitantes das várias ilhas visitadas (destacando-se o hábito de alguns indígenas comerem carne humana dos seus inimigos não porque fosse boa, mas por ser costume ou os hábitos dos habitantes do Norte de Mindanao, os manobi, de apenas comerem corações humanos crus com sumo de laranja ou limão.

Outra das constatações registadas pelo cronista de Vicenza respeita a uma atitude comportamental de uma mulher local a respeito de um eventual assédio sexual, em troca de um presente.

Enquanto esperava pela oferta, terá olhado para o interior do camarote do contramestre e tendo visto um prego (este maior que um dedo) apanhou-o e com naturalidade introduziu-o na sua vagina, desaparecendo, em seguida.

As testemunhas desta ocorrência são descritas pelo próprio Pigafetta, com tendo sido ele próprio e o capitão.

A morte de Fernão de Magalhães, segundo o relato de Antonio Pigafetta.

Também deixou registado para a posterioridade, a imagem de um rei das ilhas Molucas com 70 anos e de nome Bachian muito supersticioso e que antes de ir combater ou de ter de tomar alguma decisão, ordenava a um dos seus servos que o rodeasse por duas ou três vezes, tendo este servo esta única e singular função.

Também ficamos a saber que existiria uma ilha de nome Occoloro, uma das ilhas que hoje corresponderia à Indonésia, onde habitavam apenas mulheres e que seriam fecundadas pelo vento.

Se a maternidade lhe oferecesse um descendente do sexo masculino, este era morto, apenas sobrevivendo as crianças do sexo feminino. Nessa ilha também desembarcavam homens, mas estes eram mortos sempre que pisassem terra.

Outro dos acontecimentos relatados refere-se a dolorosa viagem de regresso encetada por Elcano.

Entre o local de partida-Timor, 8 de fevereiro e a chegada a Sanlúcar de Barrameda a 20 de setembro de 1522, esta nau navegou mais de seis meses evitando os contactos com embarcações portuguesas, pois sabiam que estavam em áreas administradas pela Coroa de Portugal.

A ansiedade e o medo de serem capturados fizeram com que nunca aportassem até chegarem a Cabo Verde no dia 9 de julho.

Um dos momentos mais singulares da viagem de retorno de Elcano, foi ter estado a cinco milhas do cabo da Boa Esperança, com a nau parada durante nove semanas, atravessando o cabo considerado por Pigafetta com o «maior e mais perigoso do mundo» no dia 6 de maio de 1522.

Do conjunto da tripulação que partiu de Sanlúcar e Barrameda, pouco mais de 30 homens sobreviveram, tendo chegado a Espanha apenas 18 tripulantes, embora alguns autores relatem que também chegaram com os sobreviventes alguns indígenas.

Num total de cerca de 150 mortos durante a viagem, a maior parte morreu em virtude de desnutrição com reflexos acrescentados no escorbuto.

Há ainda a referir mais de 25 homens que morreram no «banquete de sangue»; um número substancial de desaparecidos (cerca de 20 homens); 5 afogamentos, 2 desterrados e uma morte súbita, para além de, ainda neste contexto, e por se tratar de algo inédito na História marítima, mencionamos a primeira autópsia em alto mar, realizada pelo cirurgião Juan de Morales, um vizinho de Sevilha e que embarcou na viagem de regresso a Espanha, sem êxito, a bordo da nau Trinidad, tendo falecido no dia 25 de setembro de 1522.

Nau Santa Maria.

Exaustos e esfomeados…

No dia 6 de setembro de 1522, entraram na barra de Sanlúcar de Barrameda, 18 homens (e alguns indígenas segundo alguns relatos, mas não contabilizados) exaustos e mortos de fome.

Nesse mesmo dia, como sinal de agradecimento, que se traduziria em lucros obtidos com a venda do cravo (cerca de 24 mil quilos); canela, noz moscada e maçã (que renderiam 65 000 maravedis), totalizando a carga total o valor de 7888634 maravedis.

Estava assim, pago o investimento realizado em 1519, que produzira 5 naus e respetivo apetrechamento e o soldo pago aos seus tripulantes.

A Casa de la Contratación de Indias colocou-lhes à disposição 75 pães, um quarto de vaca e 12 arrobas de vinho de Jerez e quando Juan Sebastáin Elcano se deslocou a Sevilha para a audiência com Carlos I, pronunciou as seguintes palavras: «Majestad, hemos dado la vuelta a toda la redondez de la tierra».

Pormenor do quadro «El regreso a Sevilla» de Juan Sebastián de Elcano, de Elías salaverría, 1919 (Museu Nacional de Madrid).

Para a História da Humanidade ficaria registado os sucessos e insucessos de uma viagem que perpetuariam, na nossa contemporaneidade, o nome de Fernão de Magalhães.

Se hoje conhecemos o Pinguim Magalhães; a Patagónia; as Nuvens de Magalhães, as Crateras lunares de Magalhães; as Crateras do Planeta Marte com o nome de Magalhães, bem como a sonda Espacial da NASA Magellan, todos eles estão associados à sua liderança e à Viagem de Circum-navegação iniciada em 1519 e finalizada em 1522.

Quem era Fernão de Magalhães?

Contudo, é, por mais evidente, que sem a liderança do capitão-mor da Armada e sem os seus amplos conhecimentos e experiencia de homem do mar, esta viagem não se teria concretizado, cabendo a Carlos I, de Espanha a visão de ter acreditado num estrangeiro que encontrou os meios no reino de Castela para conseguir concretizar o seu sonho, embora interrompido, no dia 27 de abril de 1521, por uma escaramuça, tornada batalha, entre castelhanos e indígenas, pensando que os enquadraria nos desígnios da sua liderança, sem ter ponderado o número das forças em presença e os meios usados pelos atacantes, desvalorizando a sua estratégia de combate e o uso das armas em presença.

Traçado o perfil psicológico e comportamental de Fernão de Magalhães, como sendo um homem ambicioso, astuto, audaz, autoritário, combativo, confiante em si mesmo, corajoso, determinado, hábil, irritadiço, justiceiro, lutador, otimista, persistente, perspicaz, resiliente, tenaz, valente, vingativo e voluntarista, acrescentaríamos um outro:-um homem emotivo (quando viu o fim do estreito que haveria de ter o seu nome, chorou de alegria) este homem do norte de Portugal, nascido cerca de 1480, habituado desde cedo a conhecer mares, gentes de variadas culturas e lutas, tanto em África como na Índia, tinha o objetivo de provar que seria possível chegar às Molucas pelo Polo Sul.

Sobre a célebre viagem conhecemos as singularidades da mesma, através de um dos mais famosos e referenciados cronistas,

António Pigafetta, que na qualidade de sobressaliente (homem enquadrado na tipologia de homens de armas, cuja função estava associada a combater, caso fosse necessário (e assim o fez), nos embates entre a tripulação e forças inimigas) se constituiu como tripulante da Armada, seguindo na nau Trinidad.

Pode dizer-se que foi um viajante numa Armada com fins comerciais a qual veio a tornar-se num dos mais surpreendentes acontecimentos na História da Humanidade, tendo sido a primeira viagem de Circum-navegação em redor do Planeta.

Não sendo apenas este cronista que deixou notícias da viagem, é o único que apresenta um relato circunstanciado, demorado, empolgante e vivo daquilo que constatou; dos locais, pessoas, culturas e comportamentos daqueles com quem contactou.

Merece, pois, uma especial atenção a leitura deste manuscrito (editado várias vezes, tanto em italiano como em francês, mas apenas no século XVIII na sua totalidade),  poucos anos para percebermos o que de muito aconteceu, se não na maior parte desses três anos,14 dias e das 37,753 milhas náuticas percorridas (69918 km), o tempo conseguido para esta primeira viagem de Circum-navegação.

Comemorações do V Centenário

Portugal, através de uma estrutura governamental designada por Estrutura de Missão V Centenário Fernão de Magalhães pretende não passar despercebidos os 500 anos de História da maior aventura humana percorrida por mares e oceanos e, no seu programa de ação, até 2022, tem elaborado um conjunto de iniciativas que todos devem estar atentos para que nestas comemorações sejam envolvidas comunidades e cidadãos, sobretudo dos municípios que tiveram homens seus no conjunto da tripulação.

Tenhamos, pois, presente que as suas memórias devem ser lembradas, os seus feitos recordados e a sua herança conhecida, sobretudo, pelas gerações mais novas.