Fechar ou abrir a escola à comunidade?

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1)A ideia de «abrir a escola à comunidade» parece hoje inquestionável. Mas deveria ser? De que «comunidade» falamos? Só neste ano da graça de 2019, a imprensa já noticiou oito agressões a professores que foram vítimas dessa abertura: pais (de ambos os sexos) e até avós protagonizaram filmes de terror, maltratando a soco e pontapé professores de Matemática, Português e mesmo Educação Cívica. Num dos casos, a escola onde trabalha a vítima (a professora agredida) referiu não poder fazer nada porque apenas detém «poder sobre alunos e não sobre adultos que atuam na via pública», uma vez que a agressão teve lugar junto ao portão do estabelecimento de ensino. Acontece que, noutros casos, a escola não pode suspender os agressores (mesmo sendo alunos) porque, afinal, eles não frequentam a escola.

A escola deve ser um espaço de liberdade para que as crianças e adolescentes possam emancipar-se verdadeiramente e assumir responsabilidade crescente nas suas vidas sem terem necessidade de «proteção» de familiares que ou praticam artes marciais ou discutem regras da própria escola. E se os professores são profissionais cada vez mais em perigo, a escola deve defender-se, criando condições para a defesa dos professores.

2) Mas também existem tempos luminosos de abertura da escola à comunidade. A escola é do 1º Ciclo do Ensino Básico. Na sala 1, onde a turma B tem as suas aulas, chegou ao conhecimento da professora que um aluno da sala ao lado tem uma irmã, Anita, de dois anos de idade, a quem foi diagnosticado um tumor maligno num olho (chama-se retinoblastoma). Para complicar a situação, a família da criança enquadra-se num estrato social fragilizado, não tendo recursos para suportar as deslocações a Coimbra, onde a criança está a ser acompanhada.

A professora da sala 1, que o é por vocação, decidiu expor o assunto aos seus alunos e propôs à turma uma campanha de apoio em géneros – um apoio de tipo financeiro estava, por razões óbvias, fora de questão. Todos concordaram e se mobilizaram junto dos pais. Ficara combinado que, dois dias depois, cada um traria de casa um contributo em bens comestíveis não perecíveis e de higiene. No intervalo da manhã desse dia, Sofia, seis anos muito perto de fazer sete, aproximou-se da professora e, de olhos cabisbaixos, um tanto intimidada, murmurou: «Professora, está aqui o meu contributo…». A professora pressentiu algo de insólito e, recebendo o saquinho de plástico, extremamente magrinho e leve, abriu-o: era um frasquinho de iogurte líquido. «Sofia, isto era o teu lanche de hoje, não era?». Sim, admitiu a criança. Esquecera-se de pedir aos pais, na véspera, de modo que dava o que tinha naquele momento. A professora devolveu o iogurte e sossegou Sofia, poderia trazer o seu contributo no dia seguinte.

Poucos dias depois, a mãe de Anita, convidada a dirigir-se à escola, acompanhada da pequena, foi introduzida na sala 1, da turma B, onde, comovida, recebeu os contributos de todas as crianças e partilhou largo tempo de convívio com aqueles pequenos alunos que, testemunharam mais tarde, adoraram a pequena Anita – o centro de atenções das aulas naquele dia.

3) Há coisas que não se ensinam. Mas, numa sala de aula, as atitudes positivas e os valores podem constituir um clima educador, favorável à sabedoria como dom (do latim donu, que significa dádiva e aptidão). E só um coração disponível pode acolher esse dom. E certamente que os professores têm papel decisivo neste processo de aprendizagem. Precisamos de mais professores da turma B da sala 1.