Etnografia Algarvia – O Caimbo de Zambujeiro

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Numa altura em que se assiste à modernização tecnológica da nossa agricultura, há certos aspetos da nossa ancestral atividade rural, e da sua consequente transformação em economia agrária, que convém agora não olvidar.

Dentre os aspetos que marcaram a vida nos campos e a nossa lavoura, assume particular relevância a etnografia, ou seja, o estudo dos comportamentos, dos saberes e das práticas, dos ritos e das técnicas, que o nosso povo usou, empregou e criou para garantir a sua sobrevivência, ao longo dos vários séculos que compõem a orgulhosa odisseia do povo lusíada.

A etnografia, atualmente designada como Antropologia Cultural, é, no fundo, o estudo do coletivo humano, o povo, na sua interação com a natureza e o meio ambiente.

Daí que existam (ainda hoje) claras diferenças entre a cultura rural e a cultura marítima, ou seja, entre as comunidades agrárias e as piscatórias.

Sendo que de premeio estejam as comunidades da montanha, a quem ninguém liga importância por parecerem semelhantes às rurais, isto é, dependem e desenvolvem atividades ligadas à economia agrícola. Mas, isso são questões que não interessa agora discutir, até porque são bastante controversas.

Figueira algarvia, a mais tradicional árvore de fruto do Algarve.

Tudo isto para dizer, tão simplesmente, que a etnografia algarvia é das mais ricas e diversificadas do país, porque envolve, numa simbiose ímpar e incomparável, os três tipos de comunidades e os três tipos de ambientes orográficos: a costa marítima, a planície rural e o relevo montanhoso.

Em todos esses diferentes ambientes emergiram e proliferaram culturas autóctones e atividades muito peculiares.

Não vou aqui nem agora discorrer sobre tão vasta temática. Isso levar-me-ia muito mais longe do que o espaço e a paciência de que agora disponho.

Além disso pouco mais poderia acrescentar àquilo que já se conhece pela mão dos mestres da etnografia portuguesa, refiro-me a Consigleri Pedroso, Adolfo Coelho, Teófilo Braga e Leite de Vasconcellos, sem esquecer o meu saudoso amigo Manuel Viegas Guerreiro, que foi o maior investigador da etnografia algarvia e o grande impulsionador da Antropologia Cultural nas universidades portuguesas.

Hoje fico-me por um simples traço da etnografia rural algarvia: o Caimbo, que mais não é do que a designação que no Algarve se atribui à vara com que se procede à varejadura do figo.

Como hoje já não se vareja o figo, e inclusivamente já poucos agricultores o colhem, porque as indústrias de outrora já não existem, ocorreu-me lembrar este simples artefacto a que os homens do campo davam grande importância, porque deveria ser moldado num ramo de zambujeiro, que alguns também designam por oliveira-da-rocha, e que mais não é do que uma oliveira brava.

O termo zambujeiro foi importado da ilha da Madeira, por ser de lá que vieram estas oliveiras bravas, cujo fruto costumavam misturar com as azeitonas brancas para dar uma tonalidade mais esverdeada e um sabor mais frutado ao azeite.

Saber colher um bom ramo de zambujeiro, e dele moldar uma vara longa e maleável, para com ela bramir uma leve chicotada no pé do figo, não era tarefa fácil nem ao alcance de qualquer um, pois exigia conhecimento, treino e destreza, quer no amanho da vara quer no exercício da colheita do fruto.

Creio que, infelizmente, nenhum desses rudimentares artefactos da ancestral ruralidade algarvia subsistirá ainda hoje na actividade rural dos nossos campos agrícolas.

Manuel Viegas Guerreiro, numa excursão de alunos ao Montemuro.

Mas talvez me engane. Pode ser que algum ainda exista, quiçá esquecido em qualquer adega ou casa de arrumos numa aldeia perdida no barrocal do Algarve.

Também não existem quaisquer exemplares no Museu Etnográfico Regional do Algarve, sediado em Faro, que me permitam trazer para aqui uma imagem fidedigna do seu valor artístico e da sua importância na economia rural algarvia.

Resta-me acrescentar que o termo Caimbo empregava-se também na Ilha do Corvo, nos Açores, para designar uma espécie de marca de propriedade que se infligia no gado, a qual consistia numa incisão transversal no bordo da orelha dos bovinos.

Creio que essa prática já hoje não se usa, e nem tão pouco se justifica. Curiosamente o termo morreu pelo efeito da sua inaplicabilidade, isto é, deixou de ser compatível com a realidade económica, social e cultural que hoje vivemos.

Por isso é que o trouxe agora à ribalta da memória, e por isso é que faz parte do património etnográfico algarvio e açoriano.

José Carlos Vilhena Mesquita | Historiador e professor universitário