Dia do Pescador e o Cluster do Património Cultural da Pesca

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Hoje, dia 31 de maio, assinala-se em Portugal a comemoração do Dia do Pescador. O enaltecimento desta efeméride comumente celebrada pelas comunidades piscatórias, reforça o sentimento de identidade e pertença a todos os que de alguma forma lidam com esta atividade.

Até ao advento inesperado desta pandemia, a data tem sido celebrada um pouco por todo o território nacional, com festividades, tertúlias, demonstrações e degustações gastronómicas, homenagens, torneios, lançamentos de obras, exposições, recriações históricas, e eventos musicais que procuram envolver e sensibilizar toda a sociedade.

Este dia serve também para referenciar a atividade piscatória pelo valor cultural e patrimonial das suas componentes materiais e imateriais, que é assim reconhecida como um verdadeiro Cluster do Património Cultural da Pesca.

A verdade é que este Cluster existe! Está presente no potencial intrínseco desta atividade e na pessoa de cada pescador enquanto veículo transmissor de uma herança cultural complexa que molda o Homem preparando-o para a vida marítima, mas também tornando-o num agente de Cultura.

Olhando em retrospetiva ao meu passado, apercebo-me de todos os passos ensinados pelo meu avô materno, paulatinos e talvez por isso, tão ricos na sua profunda essência.

O meu avô, pescador algarvio que migrou para Peniche em tempos muito duros, detinha saberes únicos e imemoriais, como as várias formas de empatar um anzol, ou fazer, uma eficiente cana de pesca, apenas com o engenho e a destreza das mãos e materiais toscos, como uma cana da índia e uma boia em rolha de cortiça.

Saiba como perfurar uma lata de feijão e apretrechá-la com um pé de galo para apanhar os camarões da costa. Também o vi construir elaborados covos forrados com rede de traineira, infaliveis na faina do marisco.

Ainda hoje, repito o processo de preparação das redes, respeitando as medidas do prumo e da cortiça (passadas de pais para filhos, de geração em geração), esse pensamento herdado está presente nas forma de fazer as «caladas», e ainda há a memória dos locais onde pescar.

Tudo isto forma um conhecimento de contornos intemporais. Aquilo que os nossos antepassados faziam, nós ainda fazemos. A única diferença são melhorias técnicas e tecnológicas associadas à pesca.

No entanto, com todo este precioso saber, fomentador de valor, restrito, que não é de fácil acesso, não conseguimos capitalizar esta riqueza histórica e cultural de forma a contribuir para a formalização deste Cluster e por sua vez gerar riqueza.

Um exemplo de referência é a recriação etnográfica organizada pela Quarpesca – Associação dos Armadores e Pescadores de Quarteira, com a realização da Lavada anual, em que é larga uma arte de arrasto e é puxada para terra com a ajuda braçal.

Lavada em Quarteira.

Evento que reúne milhares de pessoas em assistência e que adquiriu bastante cobertura mediática enquanto cartaz cultura da Freguesia de Quarteira no Algarve.

Felizmente, instituições como os Museus Marítimos, entre eles Ílhavo, Sesimbra, Faro (Almirante Ramalho Ortigão) e outros, parceiros fundamentais nesta ideia de Cluster fazem a sua parte na preservação das coleções, interpretação e interação com os visitantes.

De ressalvar uma ferramenta de vital importância que pode ser o caminho para operar esta valorização e cimentar o Cluster do Património Cultural da Pesca, falamos do Grupo de Ação Costeira com os denominados «projetos para a diversificação do rendimento e o desenvolvimento das comunidades piscatórias», neste caso suportados pelo programa operacional Mar2020.

Ao qual destaco como um exemplo os Roteiros de Pesca de Santa Luzia – Rota do Polvo e Rota do Atum-Barril organizados pela tavirense Lais de Guia – Associação Cultural do Património Marítimo, na lógica de reunir saber e criação de possíveis roteiros culturais in loco dinamizando as comunidades piscatórias.

Em suma, o cancelamento da maior parte das atividades comemorativas do Dia do Pescador, devido ao surto da COVID-19 fazem com que a efeméride este ano fique muito aquém de anos anteriores.

Mas tal não deverá ser apenas um fator negativo. Por vezes, parar também nos dá tempo para refletir sobre novas formas de continuar a valorizar este Cluster, que une Portugal de norte a sul.

Após a superação desta pandemia, há que trabalhar para divulgar mais e melhor, o homem Herói do Mar e a sua cultura. Está lançado o desafio!